Especial “Tempo(s)”

Clique aqui para baixar a versão para PC

Clique aqui para baixar a versão para celular

Tempo(s)

Todos esses meses encerrados em casa pela quarentena nos faz pensar sobre a passagem do tempo. Enquanto os dias passam lentos e se esticam entre livros e lives, os meses voam sem os eventos que normalmente ancoram nossa percepção da passagem. E não é só a duração do tempo que parece afetada. Empilham-se sobre nós o futuro e o passado. De um lado, a pandemia reacende as tochas da história e ilumina o passado de epidemias. A peste negra, a febre amarela e a gripe espanhola se tornam fantasmas entre nós. Do outro, a pandemia pavimenta novos trajetos para um futuro que agora precisa ser vislumbrado: um futuro mascarado, de distanciamento, de precaução.

Assim como partículas, ao colidirem, se fragmentam em subpartículas desconhecidas, o tempo também colide e igualmente se fragmenta em realidades a serem desvendadas. Sua linearidade, sua constância, sua estabilidade são apenas traços teóricos a funcionar nos riscos de um caderno de exercícios de física. O tempo se agita, se dobra sobre si, corre, descansa, devora seus filhos. Talvez algum dia, chegue mesmo a morrer.

Nesta edição do Poligrafia, dedicamos nossos contos ao tempo em suas mais diversas acepções. Passado e futuro, eternidade e momento, progresso e repetição entram em tensão nas narrativas que aqui serão encontradas: “Mnemosine”, de Jonatas Tosta B., explora a busca pela memória em um mundo pós-apocalíptico; “Filebo 4.0”, de Gabriel Sant’Ana, traz o diálogo platônico para o tempo dos apps; “Hotel 1995”, de S., aborda a viagem no tempo em uma empresa de turismo temporal; e “O não-lugar”, traz a jornada de um mago pela história em busca de um vislumbre da eterna Utopia.

Talvez o futuro seja incerto e você venha ou não a ler essas histórias. Talvez passado e futuro sejam simultâneos e você já leu e está lendo essas histórias em outros recortes do tempo. Talvez cada possibilidade tenha sua própria realidade e você lerá e não lerá nossas histórias. De uma forma ou de outra, é sempre tempo para uma boa leitura.

S.

 

Clique aqui para baixar a versão para PC

Clique aqui para baixar a versão para celular

Especial “Releituras de Rubem Fonseca”

 

Clique aqui para baixar a versão para PC

Clique aqui para baixar a versão para celular

Só a morte pode consertar a gente

 No conto “O inimigo”, Rubem Fonseca escreve: “O homem é um animal solitário, um animal infeliz, só a morte pode consertar a gente”. Essa frase diz muito sobre o mundo fonsequiano, em que abundam homens solitários, jogados à própria sorte; homens infelizes, tentando encontrar sentido em um mundo caótico; homens animais, reificados, violentos, cruéis; e, sobretudo, morte, em todas as suas formas e variações. Talvez por ver a morte como essa espécie de conserto de uma solidão e infelicidade inerentes à condição humana no mundo, Rubem Fonseca não se tenha sentido jamais constrangido em escrever sobre o tema.

Muitos pensam no autor como o pai do romance policial no Brasil. Não é o caso. Quando seus primeiros trabalhos ganham forma, o país já apresentava textos do gênero há mais de um século. Mas é dele, entre alguns outros, o mérito de conseguir articular esse gênero popular a um cuidado estético digno de destacá-lo para além do nicho habitual de leitores e eternizá-lo na história da literatura brasileira.

É pensando nessa centralidade do autor no cenário literário nacional e em sua recente morte, que nós, do Poligrafia, resolvemos nos reunir para produzir quatro releituras de contos emblemáticos do autor. Tais releituras variam: umas se apropriam da forma, outros de elementos narrativos, algumas das temáticas, outras da estética. Mas todas, de alguma forma, tentam prestar uma homenagem ao legado fonsequiano.

Eu, S., abro essa edição, com “Novo ano feliz”, um espelho invertido do conto emblemático que serve de título para o primeiro livro do autor, “Feliz ano novo”. Se lá, Fonseca resolve retratar uma juventude violenta e cruel, reificada pela miséria, irrompendo nas até então intocáveis zonas da elite brasileira, agora releio o conto através de um medo mais contemporâneo: uma elite brasileira violenta e cruel, que reifica os miseráveis, irrompendo em uma festa comunitária em busca de uma sádica diversão.

Em seguida temos “74 degraus”, de Lucas M. Carvalho, que homenageia o conto homônimo de Fonseca em que o autor explora uma estrutura pós-moderna de narrativa fragmentária, através de 74 instantes narrativos, cenas mínimas, fagulhas de pensamento, construindo através delas sua história. Lucas se apropria da técnica e dos 74 degraus para contar sua própria história de aprisionamento labiríntico, desespero e morte.

Gabriel Sant’Ana, em “Intestino grosso”, também homônimo ao conto original, opta pelo tema mais que pela forma. Na narrativa de Fonseca, temos um dos contos mais densos do livro Feliz ano novo, em que somos expostos à entrevista de um escritor cuja proposta literária, em muitos níveis, espelha a do próprio Rubem Fonseca, falando sobre violência, escatologia e sexo.  Gabriel desloca o cenário das reflexões estéticas para uma exposição de arte e opta por um foco pleno na parte escatológica.

Por último, Jonatas Tosta B., assinando nesta edição como Peri, em explicação feita nas notas finais do conto, escolhe o emblemático “O cobrador” como alvo de sua releitura. Em “Ednei”, Peri traz o próprio conto fonsequiano como um elemento da obra, mostrando um jovem perturbado, que toma o personagem de “O cobrador” como um herói, tentando de alguma forma reproduzir as façanhas de seu ídolo.

Esperamos com essa pequena homenagem não ficar à altura desse gigante de nossa literatura, mas contribuir, ainda que de forma mínima, para a divulgação e a reflexão sobre sua obra. Rubem Fonseca partiu após uma longa – e bastante polêmica – vida. Esperamos que, os percalços desse mundo sejam, como ele diz, consertados pela morte.

S.

Clique aqui para baixar a versão para PC

Clique aqui para baixar a versão para celular

Literatura em tempos de epidemia

Aproveitando o momento de clausura que vivemos, nós, os autores do Poligrafia, resolvemos nos reunir para pensar em narrativas que tematizem a situação atual em que nos encontramos. Nasce desse desafio, “Poligrafia: pandemia sob foco”, com quatro contos centrados no tema da epidemia, com as mais variadas abordagens.

Em “Luz Suprema”, Gabriel Sant’Ana nos introduz à rotina claustrofóbica da quarentena, refletindo sobre solidão, tédio, confinamento e o papel positivo e negativo das redes sociais e da mídia nesse contexto.

Jonatas Tosta B., em “Nascimento”, tematiza a dualidade de vida e morte no cotidiano de um homem que resolve se isolar completamente do mundo durante a quarentena, perdendo-se em reflexões sobre seu futuro, sua família e sua importantíssima plantação de batata doce.

Em “O amarelo”, Lucas M. Carvalho, alcança as alturas metafísicas em um conto de ares filosóficos sobre o papel da Morte ao longo da história, revisitando desde o suicídio de Sócrates ao lento fim de Stalin.

Por último, S. apresenta a quarentena a partir da ótica dos que não tem um dentro para ficar. Em “Do lado de fora” narra a trajetória de um morador de rua desde os rumores da doença até a situação de completa calamidade pública.

Esperemos, com isso, ajudar a aplacar o tédio da quarentena, mas também incentivar uma reflexão sobre o homem e a sociedade nesse momento de exceção.

Clique aqui para baixar a versão para computador

Clique aqui para baixar a versão para celular

Star Wars: uma space opera

O universo da ficção é repleto de gêneros e subgêneros. Desde Aristóteles, quando os gêneros principais eram o épico, lírico e dramático, com suas funções e seus temas, sempre houve o desejo de criar categorias. Suponho que isso faça parte da necessidade humana de dominar aquilo que estuda, de subjugá-lo através do nome.  A partir do século XX, os gêneros se multiplicaram, as especificidades aumentaram, como um vício. Somente do gênero Cyberpunk, por exemplo, se desdobraram o steampunk, o teslapunk, o dieselpunk, clockpunk, biopunk, nanopunk, greenpunk e até weedpunk. Na fantasia, temos Espadas e Sandálias, Espada e Feitiçaria e por aí vai.

Recentemente um amigo fez uma pergunta curiosa, que foi mais ou menos assim: “Star Wars é ficção científica? Mas em Star Wars o som se propaga no espaço, a física é absurda, pessoas de planetas diferentes falam a mesma língua. O que tem de científico nisso?”. Certamente ele tinha uma concepção bem geral de “ficção científica”, e então a necessidade de tantos subgêneros passou a fazer um pouco mais de sentido para mim (mas não muito, a considerar que muitos dos próprios autores não estão nem um pouco preocupados com isso). De fato uma história como Star Wars é bem diferente de 2001 Uma Odisséia no Espaço, na proposta, nos temas, na “seriedade”. Apesar disso, ambos atendem às ideias gerais do que seria ficção científica, pois estão relacionados, de uma forma ou de outra, à tecnologia e ao futuro.

Histórias como Star Wars, Star Trek e Guardiões da Galáxia se encaixam num gênero chamado Space Opera. Não é necessário dizer muito, pois as características principais são evidentes. Apesar do nome, pouco tem a ver com um espetáculo de ópera: é na verdade uma referência ao termo horse opera, nome que se dava a antigos filmes de faroste, na época do cinema mudo. Portanto, pode-se dizer que Star Wars é uma space opera, dentro da ficção científica, dentro da ficção especulativa.

Esses gêneros, que são incontáveis, de certa forma nos ajudam a manter um panorama organizado daquilo que já foi produzido e virou tendência em diversas mídias.

A propósito, se sua atenção se prendeu nos nomes estranhos acima, sinto que devo convidá-lo a ler um conto meu publicado na antologia Teslapunk, da editora Madrepérola, e a descobrir o que é este subgênero:

PDF gratuito do livro:

Lançamento de Deslumbres e Assombros, de Lucas M. Carvalho

É com muito orgulho que nós, do Poligrafia, parabenizamos nosso autor, Lucas Carvalho pelo lançamento do livro Deslumbres e Assombros, ganhador do prêmio “Barco a vapor” do ano passado.

Autor de duas outras obras – Abaixo das Nuvens, de ficção científica, e O Espetáculo de Grimnlaud, de fantasia -, Lucas estreia agora no gênero infantil, em um livro cuidadosamente ilustrado por Rafa Anton.

Narrativa do gênero fantasia, Deslumbres e Assombros conta as aventuras de Naia, uma menina curiosa e atrevida por reinos inimagináveis. No Vilarejo, onde ela mora com os pais, tudo é agradável e perfeito, mas nenhum habitante se dá conta do privilégio que é viver lá por desconhecer o que há fora dele. Ou seja, o único mundo que conhecem é aquele, não havendo base de comparação. Naia, porém, é uma leitora e, como tal, um dia se questionará sobre o desconhecido. Movida por essa curiosidade, ela decidirá ultrapassar sozinha a fronteira de seu mundo, iniciando uma jornada fabulosa, que redefinirá as medidas do tempo e do espaço.

Se quiser adquirir o livro, já está disponível para compra em livrarias como a Saraiva.

Se quiser conhecer mais do autor, visite nossa seção autoral do site, clicando aqui.

O Surreal Faz, Não Faz, Faz, Não Faz Sentido

a lua vem da asia poligrafia campos de carvalho

por Luciano Cabral

Quando chamamos algo de surreal costumamos associá-lo ao bizarro, ao incomum, ao estranho e ao incoerente. Olhamos, muitas vezes, de modo torto para narrativas que não possuem uma sequência lógica. E o próximo passo é, quem sabe, deixar o texto de lado.

Acontece que certos escritores, principalmente no início do século passado, exploraram esse tipo de narrativa, e produziram coisas bem interessantes.

O movimento Surrealista tem seu início oficial a partir do manifesto escrito pelo francês Andre Breton, em 1924. Sua proposta, muito calcada nos achados de Sigmund Freud, era difundir uma arte que não passasse pelo crivo da organização, da lógica ou da razão, que fosse produzida da exata maneira como aparece no pensamento: caótica, ilógica e tendendo ao onírico.

Aqui no Brasil, algumas obras flertaram com esse gênero. É o caso de Macunaíma, de Mário de Andrade, e de poemas de Murilo Mendes (que abraçou, como ele próprio diz, um “surrealismo à moda brasileira”). Mais tarde, Campos de Carvalho é o que, talvez, melhor abarcará o gênero com seus romances A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963), e O Púcaro Búlgaro (1964).

“Chuva, chuva, chuva.

É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede – neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do dia ou da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na mesa garantiu-me que estávamos em agosto, a até fez o sinal-da-cruz sobre o peito para demonstrar-me que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a respeito, e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março, pois o rio que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.

Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a cama, as cadeiras e a mesinha-de-cabeceira, e não sou de me habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.”

Este trecho é o início da segunda parte do romance A Lua Vem da Ásia. Este capítulo é intitulado “Capítulo 18º” (ainda que não tenhamos lido 17 partes anteriormente). O mais interessante desta narrativa surrealista é a presença da coesão, mas a pouca coerência, o que torna a leitura, de fato, caótica – mas não totalmente. É possível encontrar um crescendo, uma sequência de acontecimentos.

Aqui, o que é interessante é nós leitores ligarmos o caótico e o não-caótico, achando lógica no que é, aparentemente, ilógico. Ou melhor, encontrando sentido em algo que, num primeiro momento, parece não ter. Mostrando como o surreal é, muitas vezes, uma faceta da realidade.

É de certa forma um trabalhoso exercício de leitura e um igualmente trabalhoso exercício de escrita. Mas o estilo debochado, por vezes coloquial e em tom de conversa leva-nos a seguir em frente.

Vale a pena dar atenção ao Surrealismo, que me parece hoje, bem pouco difundido ultimamente – tanto ao leitor quanto ao escritor.

Quando o jogo encontra o despropósito da vida

Um belo dia de uma infância distante eu fui surpreendido pelo que via na tela de um computador (desses bem antigos, com monitor de tubo, branco encardido, torre com leitor de disquete). Uma colega jogava algo muito diferente dos psicodélicos games de plataforma que compunham boa parte da minha experiência de entretenimento digital. Quando questionada por mim sobre o fato, respondeu, como se fosse algo trivial: “É um jogo sobre a vida real”. Estava diante do inovador The Sims. A menina continuava concentrada em sua difícil tarefa de lavar louças, ir ao banheiro e garantir uma boa rotina de sono, muito mais eficaz no mundo digital que no real.

Não demorei para conseguir uma cópia (obviamente pirata) do jogo. Estava diante de um mundo inteiro de possibilidades (3 cores de pele, 2 gêneros e uma combinação de umas 20 cabeças e roupas). Em uma Matrioska da própria existência, jogava um jogo em que meu personagem jogava um jogo em que, provavelmente seu personagem fazia o mesmo e assim sabe-se lá por quantas camadas (seria eu também jogado?). Após longos dias da infância dedicados a ver o sol nascer e se por no meu pequeno terreno virtual, comecei a sentir um profundo, arrasador, tédio daquilo. Qual exatamente era o propósito? Diante de mim estava a terceira ou quarta geração da família, um rapaz cabeludo, fazendo carreira jornalística, comprando mais um eletrodoméstico para o casarão fruto do inevitável acumulo de renda criado pelo sucessão hereditária dos bens. Diferente da primeira geração (uma tentativa de reproduzir as escolhas que talvez eu faria na vida), aquele menino já não representava mais do que um rosto anônimo em uma das milhares (mentira, dezenas) de vidas procedurais daquele microcosmo.

Desandei. Comecei a explorar as fronteiras obscuras do jogo. Retire as escadas da piscina e deixe seus convidados nadarem até a exaustão, morrendo por afogamento. Tente casar com a morte. Colecione tumbas no quintal. Faça a carreira… militar. Os eventos inesperados davam uma sobrevida ao jogo, mas o tédio reaparecia em seguida. Não importava o que eu fizesse, novas famílias surgiriam e o mundo virtual continuaria seu ciclo de banheiros e camas e louças sujas ad infinitum. Eu experimentava, talvez pela primeira vez, a angústia do despropósito da vida.

Jogos, mesmo os jogos bem simples de uma época passada, em que coerência não impedia que um encanador matasse tartarugas para restaurar a monarquia da princesa loira, todos tinham um princípio narrativo mínimo: início, meio e fim. Você começa o jogo na gênesis de tudo que importa para entender aquele mundo: nível 1. Tudo é fácil, tudo é bem explicado, tudo é simples. Conforme você se acostuma com aquilo, progressivamente o mundo se amolda à sua curva de experiência, oferecendo novos desafios e movimentando a narrativa em direção à sua única possibilidade: o fim. Vença o nível 99. Salve a princesa. Mate o feiticeiro.

É tudo que falta à nossa vida. Nascemos em um ponto aleatório de uma história que começou bem antes de nós e ainda demorará muito para acabar. Não sabemos como surgimos ou qual será nosso ponto final. Nenhum tutorial de como se joga. Te ensinam como jogar o jogo, mas não te dizem quais são as condições de vitória. Uma hora, simplesmente sua peça cai do tabuleiro, alguém adiciona uma nova e o jogo continua.

O romancista e semioticista Umberto Eco diz que a ficção serviria para “encontrar
uma forma no tumulto da experiência humana”. Os jogos minimamente narrativos, assim como a literatura, nos oferecer essa possibilidade, esse conforto diante do tumulto da realidade. E é justamente isso que The Sims tentava evitar diante de sua proposta inovadora. Um jogo que fosse tão despropositado quanto a vida real. Um jogo que não contasse uma história, que não oferecesse nenhuma noção clara de progresso (salvo, talvez, o financeiro…).

Anos mais tarde, quando a internet já dava os primeiros passos em sua versão 2.0, e o The Sims já contava com 2 reformulações e a mesma lição cruel sobre a vida, algo novo me chamou a atenção. Second life: um ambiente virtual interativo, que, como o nome indicava, aspirava simular a própria vida. Diferente do jogo pioneiro, Second life oferecia aos jogadores a possibilidade de programar e modelar o mundo a sua volta. Por alguns meses, o mundo inteiro parou a vida analógica para observar aquele fenômeno. Casamentos reais através de relacionamentos no jogo, empresas criando suas sucursais digitais, profissionais abandonando seus trabalhos reais e tentando a vida naquele mundo em formação, pioneiros em um Novo Mundo de bytes virgens.

Um ano, talvez dois, depois de seu lançamento. O que havia restado do ambiente virtual eram construções vazias, esperanças frustradas e toneladas digitais de modelos e códigos para sexo, pornografia e bizarrices inomináveis. Era o momento análogo à cruel festa na piscina sem escada. O mundo percebia a triste lição que a utopia não pode parecer tanto com a vida real.

O surgimento dos MMORPG, alguns bem mais antigos que Second Life, fazem parte desse lado angustiante dos games. A ideia parecia ótima: vamos replicar a experiência agradável que um jogador tem ao viver a história de um Final Fantasy ou um Zelda, mas em comunidade, dividindo esse momento maravilhoso com outras milhares de pessoas pelo mundo. De fato, por um tempo, seja em Tibia ou World of Warcraft, a proposta funciona. Joga-se, conhece-se o mundo, cria-se amizades e caminha-se em direção ao fim. No entanto, após o mais forte dos inimigos dobrar seu joelho diante do poder do herói, a narrativa que deveria chegar a seu fim esquece de baixar as cortinas e o personagem é largado em um mundo sem mais objetivos. Meses, ou mesmo anos, de jogo e, ali, no topo do mundo, o herói é o homem mais solitário que existe. A lição ainda é cruel.

Hoje, talvez cansados de receber sempre a mesma triste lição, os MMO perdem espaço para os e-sports. Como o futebol ou o tênis, jogos como League of legends ou Dota 2 condensam a narrativa ao seu esqueleto quase vazio, mas funcional: cada partida é um novo embate, com início, meio e fim. Uns saem vitoriosos, outros derrotados, mas há um encerramento, uma organização, uma história para se contar.

Um dia desses caminhava pela livraria e me deparei com uma prateleira de romances baseados em jogos: Assassins creedWorld of warcraftBioshock. Fico imaginando como seria um livro inspirado em The Sims

Pedro Sasse

Escrever como um Animal

o chamado selvagem jack london poligrafia

O título do post é certamente uma brincadeira. Mas vale a pena perceber que não é nada fácil escrever uma história na perspectiva de um animal. E não estou falando de fábulas, como as de Esopo, por exemplo. Nestas, o animal possui características humanas: fala, pensa, dá conselhos, retruca, planeja, faz intrigas. E também não estou falando de romances como A Revolução dos Bichos, de George Orwell, em que animais de uma fazenda rebelam-se e tomam o controle do lugar. Aqui, há também animais comportando-se como humanos – incluindo o “andar sobre duas patas”, lá pelo fim da narrativa.

O que vale perceber é o quão interessante – e desafiador – é construir uma história na perspectiva do animal. E isso cabe dizer emular comportamentos, escolhas, reações e desejos que um animal pode ter.

O romance O Chamado Selvagem (na minha opinião, é a melhor tradução para o título original “The Call of the Wild“), de Jack London, é um ótimo exemplo de como uma história pode ser contada nessa perspectiva. Neste caso, um cão.

A narrativa está, do início ao fim, em terceira pessoa. Isso faz com que não se precise fazer o animal falar (como nas fábulas), o que permite que o romance não perca ser caráter verossímil. Buck, o protagonista, é um pastor alemão que, após ser roubado de uma família californiana, é levado para o Alaska. Agora em território inóspito e hostil, ele precisa se adaptar às novas condições – até que, enfim, começa a ouvir o “chamado selvagem” e seu comportamento muda radicalmente.

Era inevitável que a luta pela liderança ocorresse mais cedo ou mais tarde. Buck a desejava. Queria lutar pela chefia, porque esta era a sua natureza, porque ele tinha sido capturado firmemente por aquele orgulho sem nome e incompreensível da trilha e dos tirantes – aquele orgulho que prende os cães no trabalho até o último fôlego, que os leva a morrer alegremente em seus arreios e que lhes parte os corações se forem cortados deles“.

O romance é repleto de cenas violentas, sejam elas entre os humanos, entre os cães, ou o embate entre ambos. Buck aprende a sobreviver à “lei do porrete” e depois impõe “a lei das presas” dos seus dentes caninos. Não há um só momento em que a narrativa se afaste da perspectiva do cão. Atado a ela, nós acompanhamos suas frustrações, seus embates, seus sonhos e seus desejos. Há certos momentos em que o comportamento de Buck parece assemelhar-se ao comportamento humano – como no trecho acima. Entretanto, a rusga entre ele e o cão Spitz lembra-nos que desejo de liderança não é exclusividade de nós humanos.

Como disse, O Chamado Selvagem  é um ótimo exemplo de uma narrativa estritamente ligada a um cão. E aqui fico me perguntando como seria algo assim na perspectiva de um outro animal, como uma tartaruga, uma águia, um elefante, um verme…

Amadeus

Se eu precisasse indicar apenas um clássico do cinema neste site e não tivesse nunca mais a chance de falar sobre nenhum outro filme? Dá certa agonia pensar em favoritismo, ou ter que escolher apenas um melhor dentre gêneros, épocas e propostas diferentes. Mas depois de muito pensar, posso dizer que minha recomendação seria Amadeus.

Uma verdadeira obra de arte. Em atuação, em roteiro, em figurino. E principalmente em trilha sonora, toda formada por composições originais do gênio Wolfgang Amadeus Mozart, que é, não de forma injusta, considerado por muitos o maior músico que humanidade já conheceu.

O enredo foca em Salieri, um compositor da corte austríaca que dedicou a vida a expressar a vontade de Deus em sua música. Apesar de ter reconhecimento como artista, sua vida muda quando um jovem talentoso e irreverente chega a Viena. Mozart logo se torna o centro das atenções, criando obras de qualidade inalcançável, sem precisar ao menos se esforçar. Salieri sente, com todo o louvor que Mozart recebe, como se sua relevância estivesse completamente apagada.

Inveja e ciúmes. A exploração da psicologia de Salieri é intensa, sentimentos remoídos, que rodeiam uma misteriosa confissão de assassinato logo na primeira cena do filme.

Lançado em 1984, dirigido por Milos Forman, Amadeus foi vencedor de 9 Oscars.

A biografia de Mozart sempre foi cheia de mistério. Neste filme, apesar de alguns aspectos romanceados e a atuação excêntrica de Tom Hulce (que é incrível, por sinal), o filme nos permite conhecer mais sobre sua vida. Depois de ver o filme, vale a pena procurar outras obras, como romance de Cristian Jacq, Mozart, o Grande Mago, que aborda a biografia do compositor e sua conexão com a maçonaria.

Por Lucas M. Carvalho

Recapitulando III – Lucas M. Carvalho

Esse é um tempo de rever o que foi feito. Para quem faz o que gosta, especialmente se esse trabalho demanda tempo, esforço e paciência, o momento de recapitular ou “prestar contas a si mesmo” tem um significado poderosíssimo. Ver os frutos do trabalho traz certo orgulho.

O Poligrafia, projeto que começou com um grupo de produção e crítica literária que não tinha por objetivo publicar, mas fazer leituras mútuas em exercícios de escrita, hoje (24 de julho) tem 136 posts de conteúdo significativo, entre críticas, ensaios e, principalmente, ficção.

Vale lembrar que essas recapitulações, que encerram comigo, são um marco temporal para um projeto maior que virá em seguida, após um longo período de amadurecimento e experimentações. Vocês vão ver.

Vamos, então, rever as contribuições feitas mim. Como um dos autores do Caixas de Sobra, fui responsável por 20% dos episódios (se você ainda não conhece nossa série, já completa, vale a pena conferir). Nas colunas iniciadas recentemente, assumi um papel que pode ser chamado por alguns de crítico de cinema, apesar de eu considerar meus textos muitos mais dicas do que críticas propriamente ditas.  Eu prefiro indicar bons filmes menos conhecidos, ou clássicos esquecidos, e raramente me debruço sobre blockbusters recentes. Resumindo: se você gosta de cinema, tem de tudo um pouco.

Agora vamos à parte favorita: os contos, organizados por temas.

 

Regionalismos:

https://poligrafia.files.wordpress.com/2017/05/carvalho-desculpa-a-mc3a3o.pdf

Releituras:

https://poligrafia.me/2017/04/18/jade-nao-gosta-de-mentiras-por-lucas-m-carvalho/

Perspectivas:

https://poligrafia.me/2017/02/13/dupla-fenda-por-lucas-m-carvalho/

Amor:

https://poligrafia.me/2016/11/15/nunca-se-esqueca-de-lucas-m-carvalho/

Sci fi:

https://poligrafia.me/2016/09/05/jogos-mentais-de-lucas-m-carvalho/

Confinamento:

https://poligrafia.me/2016/07/25/quando-eu-contar-ate-tres-de-lucas-m-carvalho/

Lugares:

https://poligrafia.me/2016/05/16/mosaico-por-lucas-m-carvalho/

Policial:

https://poligrafia.me/2016/06/20/deusch-geister-por-lucas-m-carvalho/

Terror:

https://poligrafia.me/2016/04/11/auspicio-por-lucas-m-carvalho/

 

Vale registrar aqui o agradecimento a todos aqueles que têm acompanhado nosso trabalho e lido os textos que publicamos.