Caixas de Sobra, uma introdução

Matryoshka, por Deborah. (Disponível em: http://xdeborahx.deviantart.com/art/Matryoshka-96310610)

“O mundo não seria o que é agora se eu tivesse rejeitado Pandora. Mas eu era pequeno. Há momentos em que uma data específica, as palmas, as músicas, os doces, os convidados e a inocência nos levam a abrir caixas. Naquele dia, não sei de quem ganhei o presente, não me recordo de todos que estavam lá. Quando eu menciono o episódio, não há quem se lembre. Inventar não é do meu feitio, mas comecei a duvidar desta lembrança. Parece que eu sou o único que consegue recapitular que havia um presente embrulhado, que chama minha atenção porque é uma caixa grande. Um papel brilhante que me atrai como mosca na luz. Eu voo até ela com toda a selvageria que eu posso juntar e que me faz reduzir o embrulho a pedaços. Avisto uma caixa de papelão por baixo daquilo tudo, rasgo o lacre que me atrapalha e Pandora não para de sussurrar no meu ouvido. A voz dela é tão encantadora e ordena que eu abra a caixa.

Mas o que eu encontro é outra caixa dentro da caixa. Pandora não desanima. Pressiona os lábios na minha orelha, mergulha a língua no meu ouvido e exige que eu continue. Rasgo mais um lacre e me deparo com outra caixa. A língua de Pandora ainda está no meu ouvido, mas vai perdendo o encanto. A terceira caixa já é do tamanho de uma criança do meu tamanho e tenho medo de abri-la e me dar conta de que eu estou indo em direção ao nada.

Isso faz tempo. Mas está tão vivo pra mim quanto estas caixas que me rodeiam agora. Quando penso nisso, o que vem logo depois é decepção. Construí um mundo feito de papelão, um mundo quadrado e sem conteúdo. Me espanta que apenas eu lembre desta história. Tanto que me pergunto se Pandora algum dia existiu.”

Caixas de Sobra é uma história sobre o meio. Escrita por cinco autores, mantém como princípio a liberdade criativa para que cada episódio seja não só uma surpresa para o leitor, mas também para o autor que lhe dará a sequência. Sem a possibilidade de um fim planejado, de um enredo harmônico, Caixas de Sobra acaba por imitar a vida: começa e termina em um ponto arbitrário de uma linha demasiado longa para deixar ver seu início ou fim.

Acompanhe conosco essa road trip que mostrará a jornada de um vendedor e seu interminável, indesejado e inseparável estoque de mercadorias contra a desesperadora falta de sentido da vida contemporânea. Veja como o protagonista tentará encontrar sentido nos lugares e fatos mais insólitos da vida.

Siga conosco Caixas de Sobra, todas as quartas-feiras, 20h, no Poligrafia.

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