Caixas de sobra – Ep. 02

Coca cola, por Monika “Zi0oTo”. (Disponível em http://zi0oto.deviantart.com/art/Coca-cola-262887048)

(Não viu  o primeiro capítulo? Clique aqui)

As nuvens estavam tão unidas que pareciam uma tampa branca fechando o céu. No rádio do carro nenhum anúncio de chuva. O vento soprava folhas secas pela janela do motorista. Desgraçado, pulsou a mente do homem enquanto girava a manivela para o vidro subir.

Quarenta e seis caixas ainda chacoalhavam. Não saberia dizer quantas casas visitou, quantos cães tentaram morder sua perna, quantas portas fecharam no seu nariz. Eram figuras anônimas em sua mente igual a uma lista telefônica.

Exceto uma.

– O que uma criança idiota sabe? – resmungou em voz baixa olhando para o retrovisor. O espelho estava tão deteriorado que ele mal via os contornos do rosto. Havia uma mancha cor de cobre bem suave que lembrava bastante o formato da Itália.

– Fechou a porta na minha cara? – continuou, esfregando inutilmente um trapo de camisa no espelho. – Um dia a casa pega fogo. E vai pedir ajuda pra quem? O primeiro estúpido que encontrar na rua. Moleque idiota.

O estômago apertava. Não conseguiu vender. Então insistiu, sacrificou o horário do almoço. E as caixas continuaram lá. Acenavam de um lado e para o outro no banco de trás. Só havia bebido uma lata de refrigerante. Sempre lhe disseram que coca ou café com estômago vazio causava úlceras. Devia ser lenda. Coisa de gente fresca.

Abriu outra lata de coca quente apoiando os cotovelos no volante e derramou pela boca seca. Sentiu o sangue fluir pelo pescoço e preencher a cabeça. A visão escureceu e voltou como tela de TV antiga.

– Precisamos comer alguma coisa, – disse encarando o vulto de caixas pelo retrovisor.

O carro atravessou uma alameda e virou para o estacionamento do primeiro restaurante que encontrou.

Entrou pela frente e sentiu uma lufada de ar frio. Havia telas de plasma penduradas em todas as paredes. As pessoas assistiam enquanto tilintavam os talheres nos pratos e tagarelavam. O garçom aproximou-se com um sorriso de apresentador de programa de auditório. Aqueles dentes brancos e rugas fechando os olhos o incomodavam.

– Boa tarde. O senhor vai querer mesa pra dois?

– Boa noite, – já passara das seis – Pra um.

A cara do atendente parecia couro curtido. Daqueles prensados que não enrugam. O sorriso persistiu até chegarem a uma mesa próxima à janela.

– Quero esse negócio aqui, – disse apontando uma fotografia qualquer do menu.

– Ok, senhor, – anotou no bloquinho. – Quer a entrada enquanto isso? Algo pra beber?

– Coca.

– Apenas isso, senhor?

– Só.

O garçom deu dois passos para trás e se virou graciosamente. Que bicho estranho, pensou.

A Coca ia ser servida num copo com gelo por outro garçom, mas ele interrompeu tocando-lhe o pulso. Bebeu no gargalo. Não confiava no gelo de restaurante.

Tomou metade em uma só golada. A garganta ficou dormente. Quando abaixou o copo sentiu a bexiga latejar.

A porta do único banheiro do restaurante estava trancada. A sombra de alguém caminhando fazia a luz por baixo da porta piscar. Ele franziu a testa. Parecia que estava correndo de uma ponta a outra.

Coçou debaixo do relógio no pulso. Conferiu quatro vezes seguidas que ainda eram dezoito horas e vinte minutos. Não suportou e bateu.

– Tudo bem aí dentro? – disse tentando parecer preocupado.

Não havia som. A sombra parou um segundo. Uma fresta se abriu, mas ele não notou nada até mirar por baixo.

A criança fechou rapidamente e girou a tranca. Tinha certeza. Era um garoto, o mesmo garoto que zombara dele mais cedo. Também ouviu um barulho metálico chacoalhar. Provavelmente um ferrolho. O homem tentou impedir com o punho fechado num reflexo retardatário e inútil.

– Moleque escroto, – disse, mas não baixo o suficiente. Sem perceber o som dos talheres e do burburinho diminuírem, bateu na porta contendo a força.

Jonatas Barbosa

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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