Caixas de sobra – Ep. 05

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Car, por Jocelyn Maceachern. (Disponível em: http://jocemac.deviantart.com/art/car-84022774)

“O produto está errado.”

A frase ecoava na minha cabeça sem parar.  “O produto está errado”. Errado como? Com defeito? Não era isso que você queria? Eu devia ter perguntado por telefone, mas quanto menos se fala nessas circunstâncias, maiores são as chances do comprador desistir da devolução. Eu mal consigo bancar combustível para fazer vendas, quiçá para fazer trocas. O estômago chega a revirar.

“O produto está errado.”

Uma derrota, porque às vezes eu me sinto um mestre estrategista. Vender é um jogo, mas não um jogo comum. Eu não leio manuais de vendas, pois meu produto não é um produto qualquer. Eu leio A Arte da Guerra, de Sun Tsu. A edição de bolso já molhou, secou, descascou e a capa descoloriu. Mas é como um amuleto. A suprema arte da guerra é vencer o inimigo sem lutar. Alguém fez isso comigo, anos atrás. Torceu minha vontade, mudou as cores do mundo, me convenceu de que o que é não é.

“Não compra isso. Não compra. Você nem sabe se essa coisa vai vender. Quer pegar um empréstimo? Você é louco? Bem que minha mãe me avisou antes de eu casar. Se você insistir com isso eu vou embora. Vou levar nosso filho e você que fique com essas coisas.”

Sempre que lembro dessas palavras sinto dor. Mas hoje uma frase me causa dor maior:

“O produto está errado!”

Eu toquei a campainha e esperei. Toquei a segunda vez, sem esperar muito, pois torço para que ninguém atenda. Ouvi um assobio, mas fingi que não. Virei as costas para ir embora, e a porta se abriu.

– Ah… boa noite. Meu nome é…

O menino sequer abriu a boca, apenas estendeu a caixa como que para se livrar de um tesouro maldito.

– Bom… Não ficou claro qual é a reclamação. Seu pai está em casa?

O menino estendeu a outra mão.

– O dinheiro.

– Querem o dinheiro de volta? Imaginei que trocariam o produto… Neste caso, eu preciso fazer um relatório completo da reclamação, e…

Se você conhece ao seu inimigo e a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Meu inimigo, contudo, se escondia atrás de uma criança, e as crianças são difíceis de se conhecer. Se eu tivesse ao menos tido tempo de criar meu filho…

Dinheiro perdido. Voltei para o carro com duas caixas. Os faróis da frente pareciam olhos entristecidos, implorando para que não as pusesse de volta. Os pneus traseiros estavam murchos.

Vou contar um segredo. Nos últimos dez anos, eu sempre tivera a mania de abastecer pouquíssimo além da quantidade de combustível que gastaria até o próximo posto. É quase um jogo. O velho Cássio contava o tempo, eu ouvia o ronco do carro e calculava o consumo. Porém ali, devolvendo as duas caixas ao banco traseiro, senti-me sufocado. Sonhei com uma saída.

Naquela noite, completei o tanque do carro.

Lucas M. Carvalho

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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