Caixas de sobra – Ep. 09

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Faltam alguns quilômetros para chegar ao hotel e sente a mudança não apenas na estrada, não era a mudança do clima, não eram as constantes obras para melhoria das rodovias, algo nele se revolvia, sentia que algo iria lhe escapar caso não observasse com mais cuidado. Cuidado. O que significa isso? Cuidado com os pedidos que fazem a ele. Apenas consegue se aproximar de um sentido ao considerar as caixas que há anos, com cuidado, leva a cantos variados.

Começa a tocar no rádio uma batida conhecida. It’s no sacrifice at all… Subitamente os rostos da mulher e do filho se refletem no retrovisor. Era um sábado, na sua primeira semana de férias na empresa, após três anos de intenso trabalho, o garoto tinha uns quatro para cinco anos, estavam há quatro anos juntos, um relacionamento que prometia muitas alegrias. Naquele dia, levavam o menino ao zoológico. …two hearts living… Foi difícil acordar tão cedo, ajeitar o carro, preparar alguns sanduíches, separar uma quantia de dinheiro. Era um sacrifício necessário.

Aonde o levaria reviver tais acontecimentos passados? Nem sequer sabe que horas está durando a saída do posto até o hotel. Apenas sabe que isso tudo demora. Esse vácuo temporal, porém, é menor do que o abismo entre ele e o filho. Não esperava que fosse o filho a atender a ligação. Não estaria a caminho da escola? Estava matriculado em alguma? Suas narinas se movimentam aceleradas em busca de ar, seu ritmo cardíaco descompassado, olha para a estrada sem prestar atenção, suas mãos permanecem firmes no volante.

Apenas poucos metros para o hotel. Aloca o carro no estacionamento externo. Seu corpo, habituado ao contato com as caixas, tendo sofrido constantes acidentes, se vergava sob um sobrenatural peso. Encaminha-se à recepção. Um senhor de aparentes sessenta anos, barba falhada, terno gasto, o recebe.

– Bom dia! Em que posso ajudar?

– Tem algum quarto vago?

– Só um instante, que vou verificar… O senhor, por favor, aguarde na sala de espera, irão levá-lo até o quarto. O senhor tem malas ou qualquer objeto?… Ei… estou reconhecendo você…

O senhor tira os óculos do rosto, limpa as lentes com um paninho guardado no bolso da calça, repõe os óculos, ajeitando de maneira a não tocar as lentes nas pupilas.

– Sim… estou com certeza me lembrando de você… Não se chama…?

– Não devo ser quem o senhor está achando.

– Então é você mesmo… Você não trabalhava no setor administrativo da empresa do dr. Alvez Moreira?

– Olhe… Estou precisando…

– Mas como! E agora o que tem feito? Não está me reconhecendo, não é? Eu trabalhava como secretário do dr. Alvez… Não se lembra mesmo de mim? Olhe aqui esta foto… sempre a levo comigo… aqui está toda a equipe da época… sempre a levo comigo, sabe? Isso me dá um sentido para não desistir dos meus objetivos… Era uma frase que o dr. Alvez sempre usava no início das reuniões, não se lembra?

– Sem querer ser grosseiro…

Passos aperta a mão do senhor e se encaminha à sala de espera. Talvez fosse ele na foto, talvez alguém. Talvez nem ele fosse, talvez um ninguém, espaço que poderia ser ocupado por qualquer um. Só deseja retirar a roupa, entrar numa ducha quente, deixar escorrer a água sobre os ouvidos. Cuidar de si.

Gabriel Sant’Ana

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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