Dizer muito ou dizer pouco?

Por Luciano Cabral

 

Há duas semanas, postei uma reflexão sobre o estupro como tema literário (clique para ler). Defendi então que a literatura, sendo inerentemente avessa à censura, não pode se restringir ficcionalmente, sob pena de se tornar insubordinada e, em última instância, esvaziada de sua função de expor as fraquezas humanas. Tal reflexão levou-me a uma outra questão, um pouco mais técnica, voltada mais especificamente para os escritores: no momento da elaboração da trama, o que é necessário deixar de fora e o que é preciso revelar? Ou melhor: as histórias devem dizer muito ou dizer pouco?

Tipicamente, em uma trama detetivesca, o crime é revelado, mas o assassino só será descoberto nas últimas páginas. Em tramas de horror, o monstro revela-se aos poucos e a história revolve em torno de sua descoberta e posterior eliminação. Em intrigas políticas, os protagonistas precisam desmascarar corruptos e defender-se das ameaças de morte constante que sofrem. 

Mas há obras que quebram estas tipicalidades e apresentam outras soluções. Mais recentemente, os enredos de crime tem-se voltado para o criminoso (dando, inclusive, voz a este) e o detetive acaba sendo incapaz de resolver o caso. Histórias de horror não eliminam o monstro, fazendo-o perpetuar para além dos protagonistas. Muitos thrillers de conspiração desmascaram a corrupção mas permitem que os corruptos escapem.

Estes são, obviamente, alguns exemplos de gêneros que lidam com a tarefa de ter que escolher o que dizer e o que não dizer na hora de compor a trama. Mas a estratégia vale para qualquer outra escrita ficcional.

Há quem diga que a literatura contemporânea não conhece o meio termo. Ela ou diz muito ou diz muito pouco. Do primeiro, fica a sensação de total onisciência do narrador por conta de um leitor que não sabe ligar os pontos. Do segundo, fica a impressão de que não revelar é deixar a história incompreensível.

Certa vez, li que a elegância da ficção do russo Isaac Babel está justamente em dizer pouco. Dar poucos subsídios convidaria o leitor a participar da trama, preenchendo lacunas e construindo interpretações, “implicando o leitor na continuação da escritura e responsabilizá-lo através do pensamento”. Entretanto, não é fácil saber o que revelar e o que não revelar. 

E vocês?

Quando vocês escrevem, como lidam com esta estratégia? Vocês dizem muito ou dizem pouco? Compartilhe sua opinião conosco.

 

 

2 comentários sobre “Dizer muito ou dizer pouco?

  1. Sou de falar demais! Vivo correndo o risco de ser prolixo, e isso me deixa exausto. Tenho procurado ser o mais franco possível. Mas é um exercício que faço aos trancos e barrancos. Acredito que hoje em dia se busca um texto mais direto, o que não quer dizer que tenha de ser curto ou longo. Mas, sim, dizer o necessário!

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