Caixas de sobra – Ep. 10

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– Estou delirando?

Eu digo em voz alta no chuveiro. Tudo o que eu queria, desde o acidente, desde os quilômetros perturbadores até a recepção desse hotel, era um banho quente de qualidade. Mas, por algum motivo, eu continuo sentindo a pulseira do velho Cássio no braço. Dizem que nosso cérebro se vicia nas coisas; ouvi dizer que pessoas que perderam membros do corpo ainda podem senti-lo muito tempo depois. Não importa. Eu sinto a água, sinto o calor. Agora, relaxado, percebo uma dor no ombro que antes não se manifestara. Fruto do acidente. Até a dor eu sinto com mais clareza. Vejo as cores melhor. Sinto prazer em respirar fundo. Antes, era como se todas essas coisas fossem condicionadas às caixas: ar dentro de caixas, dor sob o peso de caixas, cores em tom marrom. As caixas não estão mais aqui. Pela primeira vez, em muito tempo, eu percebo o mundo.

Depois de uma hora do banho, desligo e me seco. Todas as toalhas eram assim perfumadas? A comida, hoje, um simples pacote de tortilhas sabor queijo, me espera ali fora. Já imagino a intensidade do sabor. Toco o pulso, mas lembro-me de que o relógio não está lá. Sento, ligo a televisão, dou risadas com A Feiticeira.

– Esse programa ainda passa na TV? – digo em voz alta, pela segunda vez hoje.

Não me lembro de ter dado risadas tão sinceras alguma vez. Quando o programa termina, tão bobo, sinto vontade de assistir Chaves. Mudo os canais, passo por um canal esportivo, alguma notícia sobre atentado terrorista, um reprise de novela, mas não acho o Chaves. Pergunto-me que horas são, olho para o pulso, meu coração gela. Terceira vez hoje.

            Fecho os olhos e tento dormir. Sonho com a estrada, milhões e milhões de quilômetros, casas que passam como trovões. Então percebo que é como se eu a devorasse; o mundo mistura-se com meu corpo, e eu aprecio. Porém eu vejo, às minhas costas, longe como o diâmetro da Terra, uma silhueta. É meu filho. Ele chega em casa, dá um beijo na mãe e senta para jantar. Por mais que eu avance, ele está lá. Por mais que meus olhos estejam voltados para frente, eu vejo através de minha nuca, de montanhas, de cidades. Passos, você está brincando com algo sagrado.

Acordo com o telefone do hotel tocando.

– Boa noite, senhor Passos. – diz o recepcionista.

– Olha, eu já disse que você me confundiu com outra pessoa, nós nunca trabalhamos juntos…

– O pálio azul estacionado do outro lado da rua é seu?

Demoro um segundo para responder. Olho o pulso, e pela quarta vez percebo que não tem relógio.

– É sim, por quê?

– É melhor o senhor vir ver.

Lucas M. Carvalho

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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