Caixas de sobra – Ep. 11

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não sabia que horas eram nem poderia saber, mas sentir o Cássio sem tê-lo no pulso era um aviso, dizendo pra mim que, mesmo que eu lutasse pra deixá-las pra trás, algumas coisas ainda permaneciam ali, agarrando meu braço, impedindo que eu avançasse, retardando meus passos, Passos sou eu, seria uma grande ironia se eu, tendo o nome que tenho, não conseguisse mais progredir, vesti a calça, a camisa, os sapatos, quem recebe um telefonema à essa hora da noite não pode agir como se nada estivesse acontecendo, eu não podia agir assim, sabia que algo acontecia, só não sabia o que era, fui enganado esse tempo todo, eu achando que caixa após caixa, entrega após entrega, meus passos estivessem me conduzindo pra frente, minha estupidez foi tão grande nesses anos todos que eu demorei a perceber que não era nada disso, não percebi que havia passado muito tempo e por causa disso o telefone tocou novamente e novamente o recepcionista me convocou, peguei a chave e saí.

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no saguão, quase nada do que eu ouvia fazia sentido, o recepcionista não quis explicar ou não sabia explicar, de onde eu estava, meu carro parecia do mesmo jeito, parado, estacionado, assim como eu, sem progredir, mas carros não conduzem, eles são conduzidos, que merda de vida era esta que eu não conduzia? que não me deixava dar mais um passo? eu estava andando pra trás sem ter a menor ideia disso, mas eu tinha que andar pra frente, sair do hotel e atravessar a rua, só assim eu pude ver o que tinha de errado com meu carro, o vidro do carona estava quebrado, com os estilhaços espalhados no asfalto e nenhum caco dentro do carro.

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sangue

pedi que me trouxesse uma lanterna porque aquilo precisava ser explicado, o foco de luz percorreu todo o interior do carro, revelando restos de unhas, fios de cabelo e sangue, eu olhei para o recepcionista, ele olhou pra mim, eu sabia o que ele esperava de mim mas, como ele, eu não sabia explicar o que estava acontecendo.

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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