Caixas de sobra – Ep. 12

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Passos girou o pescoço de volta para o carro e olhou a coisa nojenta espalhada no interior. Cenas de crime de seriado eram parecidas com aquilo, pensou. A mão que segurava a lanterna tremeu. Usou a outra para o recepcionista não perceber. Depois apontou a luz amarelada para o banco traseiro. A visão turvou-se como se vislumbrasse um cadáver. Deveria haver uma pilha de caixas ali. Estava acostumado a conferir o estofado abarrotado pelo retrovisor. O perímetro vazio sacudiu o fundo de sua mente. No espaço continha apenas pedaços de papelão e farelo de isopor.

– Acalma, senhor, – repetiu o recepcionista, pondo a mão no ombro trêmulo. – Vamos ligar pra polícia. Não devem ter ido muito longe.

O toque o fez se encolher. Notou a roupa amarrotada, os botões ajustados uma casa acima da camisa. Apontou a luz para o rosto do jovem.

– E que inferno você estava fazendo?

O rapaz protegeu os olhos, ajeitou o cinto e pôs uma parte da camisa para dentro da calça com a outra mão.

– Problemas na cozinha. Precisavam da mim lá e me ausentei, – mexeu timidamente o cabelo. – Seja lá quem tenha sido, não fez barulho. Eu teria ouvido.

Santos Passos voltou a lanterna para o fundo e continuou a avaliação da perda. Não haviam deixado uma caixa sequer. Já não tinha mais o relógio, agora as caixas. O que mais perderia? Coçou ao redor do pulso e sua respiração começou a acelerar.

– O senhor está bem? Quer que eu chame a polícia? – perguntou o rapaz.

Piscou os olhos. Estavam ardendo de tanto tempo abertos.

– Não precisa chamar ninguém – respondeu oco, e devolveu a lanterna jogando-a no peito do homem. – Só preciso de uma coisa. Preciso ver a lista de hóspedes.

– E o sangue no carro? Alguém pode ter sido assassinado.

Encarou-o com as pálpebras em fenda. Massageou o pulso sem se dar conta que relaxara um pouco, mas sentia os músculos da face tesos, duros como corda de forca. Estava velho, finalmente. Vivera demais para dar ouvidos àquelas divagações sobre fotos, relógios e caixas. Insatisfação juvenil e questionamentos existenciais, algo do eco do que os professores de escola resmungavam. Nunca entendeu exatamente o que queriam dizer, e menos ainda como ele poderia se ter inclinado a tais tolices. Tinha um problema, precisava resolver o problema, e não criar outro como o idiota pretendia ali. Olhou para as impressões de sangue no vidro. Os músculos da bochecha estavam duros feito casca de noz.

Entrou no carro e apanhou a agenda com a lista de endereços, cobranças e dívidas. Folheou até encontrar páginas em branco.

– Você vai me ajudar, – rangeu o maxilar apontando o indicador para o garoto, – você vai ligar pra todos os quartos, e vai ver eles um por um.

– Mas senh-

– Acho melhor a gente se entender logo, amigo. O gerente não vai gostar de saber que teve problemas com um cliente porque você estava na cozinha ao invés de estar no seu posto…

Jonatas T. Barbosa

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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