Caixas de sobra – Ep. 13

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“Filhos da puta”. Santos Passos caminha de um lado para o outro na recepção apertada. A cada três passos uma volta. O recepcionista tremulava atrás do balcão na busca pelo livro de hóspedes.

– Deve estar aqui em algum lugar… meu primo vive usando pra anotar recados, sabe?

Tudo vinha à cabeça de Santos Passos como uma descarga de merda. O velho da recepção, a foto, a história do setor administrativo, o sumiço das caixas. Depois de todos aqueles anos, da saída às pressas de São Paulo, da vida sem celular, sem emprego fixo, sem casamento no papel, o menino registrado somente no nome da mãe, depois de tudo, o haviam achado.

– Aqui! – o garoto puxa um caderno “10 matérias”, papel amarelado, capa com jovens brancos saltando de paraquedas – Não sei como isso pode ajudar a resolver o que houve com o seu carro… você acha que tem alguém conhecido seu aqui?

A lista era amadora. Anotações em garranchos, nomes sem sobrenome, nenhum documento anotado. Folheou com rapidez, buscando o dia anterior. A maior parte dos registros indicava putas: nomes genéricos dando entrada pela noite para sair de manhã cedo. Alguns tinham cara de road trip: cinco entradas seguidas, todas de nomes que ninguém usava há vinte anos atrás, tipo Theo e Enzo. “Filhos da puta”. Santos Passos para em um ponto da lista. Três entradas seguidas: Rubem, Simeão e Judá. “Três dos outros onze…”.

– O vigia do turno anterior está aqui há quanto tempo?

– Eu e meu primo fomos contratados juntos, há mais ou menos seis meses.

Santos Passos coça o pulso com força. Checa novamente o carro do outro lado da rua.

– Não! Um velho… 60, 70 anos, sei lá, de óculos… – a expressão do recepcionista pendula entre confusão e medo.

– Vai desculpar, mas não trabalha ninguém assim aqui não. Só sou eu, meu primo, o cozinheiro e a dona.

“Filhos da puta”. Santos Passos agarra o braço do garoto e dispara em direção ao segundo andar. A idade cobra seu preço. As pernas fraquejam entre os degraus. “Eles queriam que eu visse isso. Como me acharam? Quando? Que merda foi aquela no carro?” Por um momento tudo escurece. “O senhor está bem?”. Não responde. Não para. Arrasta-se até seu quarto.

Vinte anos antes, Santos Passos usa um terno demasiado curto e já desbotado. Está em um escritório alugado na Rua Augusta. Os outros onze conversam entre si animadamente. Santos Passos está tenso. Checa as centenas de caixas que ocupam quase a totalidade do espaço. Peso. Tamanho. Tenta sacudi-las. Nada. “O que tem dentro delas?”. Judá ri. Os outros dez o acompanham.

Vinte anos mais tarde Santos Passos está sentado na cama do hotel. Os lençóis, outrora branco-cloro, estavam coloridos dos tons entre o vermelho sangue e o marrom coágulo. As caixas, espalhadas sobre a cama, abertas, expunham um mosaico feito com as partes do corpo do que provavelmente era o primo do recepcionista. Ou talvez o cozinheiro. O garoto está de boca aberta. Parece gritar. Ninguém ouve. Nem mesmo Santos Passos. “Deixaram uma caixa fechada”. Põe-na debaixo do braço. Autômato, cruza corredor, escadas, recepção, estacionamento. “Eles me acharam”. Liga o carro. Coloca a caixa do banco do carona. “Filhos da puta”.

Pedro Sasse

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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