“Tollebat citharam (I Sm 16, 23)”, por Gabriel Sant’Ana

dedilhava delicadamente
de Saul a cítara e o sentimento
recedendo o outro espírito
ressentido
rasgando ao sair com garras
a pele pelo sumo divino esquecida

leves ficando os humores
por dedos leves
assovios harmônicos

impaciente e grave rosto
brando e suave formando

antipático demônio
de traços grosseiros
incitando à diva aversão cítara
pesado corpo real sacoleja
babas expelindo esverdeadas
revirando seus olhos
grossa voz sair da boca faz
impropérios e ameaças e gritos

dedilha mais suave
ao ouvido quase inaudível
seu corpo e suas mãos
em dança angelical
do possuído se afastam

a cair pelo próprio
nó das pernas difusas

um novo hino sai da minha boca
para enaltecer tua vitória
sobre toda força brusca e animal.
não precisas a esta ser igual.
basta a ti a leveza inaudível
de harmoniosos instrumentos.
a ti bastam mãos delicadas
dedilhando por tua inspiração

o silente som

Eu sou

Eu sou

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