Caixas de sobra – Ep. 18

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Coberto pelo escuro, pelo frio úmido que passeia pelas noites silvestres, Santos Passos não é mais que um tronco velho a espera do musgo. Àquilo chama descanso. Não o cochilo tenso no estacionamento do fast food depois do almoço. Não a madrugada vazia após o sexo tedioso, mecânico. Não os sonos conturbados dos primeiros dias de venda em São Paulo. É um descanso que já se apagava na memória, dos dias em que a rotina não batia ponto em seu peito a cada manhã. Lembra do rosto já borrado dela, sua graça e ruína, portadora de todos os dons e todos os males. Ela está vestindo um baby doll quase transparente. O corpo ainda nas primeiras curvas. Os olhos marcados pelas chamas vivas da juventude. Ela segura uma das caixas na mão, o primeiro lote que recebera. O papelão ainda rígido, quase brilhante. O adesivo de frágil luzindo o amarelo intenso. Olha o contorno rosado de seus seios e esquece tudo que deixou de lado para estar ali. Ela sorri. O sorriso que todo homem espera para saber que finalmente está feliz. O sorriso que quase nunca chega, e se afoga em frustração, em pornografia, em uma imaginação embaçada pelo vapor da água quente do chuveiro. “Já que agora você tem caixas de sobra, já que agora é o próprio Senhor das Caixas, eu também mereço um título, não acha?”. Disseram que era escapismo. Que era uma ilusão. Que era… errado. Longe da embriaguez da felicidade, amarrotado pela vida inteira que se interpôs entre ela e o céu que agora o cobria, talvez até concordasse. “Eu me proclamo, então, Pandora. Comporte-se, ou eu ABRO a minha caixa” A risada preenche o passado e o presente. Santos Passos espasma, trazido novamente a vida pelo voo noturno de um pássaro sem nome.

Pegaria o máximo de pacotes e latas que conseguisse, o suficiente para sumir uns dias, quem sabe acampar na floresta, ser tronco por um tempo. O muro baixo é decoração de um tempo esquecido pelo homem urbano, anterior às grades, aos cadeados, aos sonos conturbados pelos mínimos ruídos. Sobe sem dificuldade, permanecendo parado em seu topo, felino. Estaria a casa destrancada? Janelas abertas? E se ouvissem algo? E se fosse preso? Eles o encontrariam até lá, sabia. Não avança nem volta. Pura hesitação. Adrenalina varrendo a languidez do sono. Mas a fome não pede, ordena. O corpo pende, predatório, ao interior do terreno.

– É muita coragem de um cabra pensar em pular o muro da casa do Coronel.

Os olhos distantes, como o gato de Cheshire, flutuam entre os troncos, seguidos pelo igualmente arqueado sorriso. Quando, meses mais tarde, Santos Passos chorar a morte de Angélica no banheiro de um barco subindo o imponente Amazonas, essa será sua lembrança. O verdadeiro começo de um longo caminho.

Pedro Sasse

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

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