O começo da história: a primeira impressão é a que fica

por Luciano Cabral

O título deste pequeno texto talvez fale mais para o leitor do que para o escritor. Porque, quase sempre, a primeira frase que lemos não é a que o autor tinha em mente quando pensou sua história. Há começos de histórias que não cativam (embora não signifique que o que virá não cative). Mas há começos que ficam. Alguns são uma óbvia apresentação, como em Moby Dick, Chamem-me simplesmente Ismael. Daqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso. Outros apóiam-se em frases bem conhecidas, como em O Psicopata Americano, “Perca toda a esperança aquele que aqui entrar” está rabiscado em letras com de sangue na parede no edifício do Chemical Bank. Há outros ainda que optam por confundir o relato, como faz o narrador em A Lua Vem da Ásia, Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? Logrei ser absolvido por 5 votos a 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E há, além disso, aqueles que se dirigem a nós leitores, como Dom QuixoteDesocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar.

Mas estes exemplos são de frases de abertura de obras já acabadas, prontas. Quando a história ainda é apenas um emaranhado de ideias na cabeça, vale a pena se perguntar: como começar a história?

Começar uma história não é uma decisão banal. Muitas vezes, a primeira impressão é a que fica. Pode-se escolher por começar do começo, ou seja, abrir a narrativa com algo que lembre princípio, origem, início – o nascimento, a infância, as primeiras horas de um dia, o dizer o nome, o acordar pela manhã. Por falar nisso, deste último temos A Metamorfose, Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intran­quilos, em sua cama meta­morfo­seado num inseto monstruoso. Ou pode-se preferir começar do meio, deixando várias pistas que serão desvendadas (ou não) no recorrer da leitura. Cem Anos de Solidão é assim, Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. E pode-se até começar pelo fim, daí termos como melhor exemplo, Memórias Póstumas de Brás CubasAlgum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

As opções são muitas e variadas para quem escreve. A decisão requer, acima de tudo, saber qual o efeito que se busca ao se eleger esta ou aquela frase inicial. Começar pelo começo é uma boa estratégia para quem quer que o leitor crie intimidade com o personagem. Por outro lado, começar pelo meio aguça a curiosidade, uma vez que pistas serão deixadas logo nas primeiras páginas. Por último, começar pelo fim obriga o leitor a acompanhar o personagem até que o ciclo se feche, quando a história é concluída e tudo faz mais sentido.

Para mim, uma boa história deve começar com uma boa frase. Do contrário, não me cativa. O resto da narrativa pode ser excelente. Contudo, sem um começo cativante, sempre fica a sensação de que algo está fora dos eixos. Saber como alcançar o efeito desejado pode fazer toda a diferença. Pode fazer com que a primeira impressão fique.

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