Caixas de Sobra – ep. 21

[Se ainda não viu os últimos capítulos, clique aqui]

red couch poligrafia

Disponível em: https://pixabay.com/en/red-couch-weathered-couch-sofa-66819/

nem mesmo Sun Tzu conseguiu resistir dentro do meu bolso, se a guerra é uma arte, eu devia ter orgulho do artista em que me tornei, eu pensava na pergunta de Angélica e na resposta que escaparia da minha boca se não tivesse sido aniquilada pelo meu sorriso, não há orgulho algum nisso, acho que Angélica esqueceu a pergunta que fez, parecia mais atenta às unhas do que à conversa, a televisão falava e falava, como se estivesse realmente procurando interação, olhei pra Angélica ali ao meu lado cutucando os dedos, vez ou outra levantando a cabeça pra olhar pra tela e eu conseguia enxergar mais coisas dentro daqueles olhos do que no horizonte de uma estrada em linha reta, de repente, ela já estava de frente pra mim, cara a cara, acho que ainda procurava a resposta que eu não dei, corria a ponta do dedo pelas rugas dos meus lábios, as unhas pintadas com o mesmo tom daquele sangue misturado aos estilhaços de vidro e fios de cabelo do carro, ela veio pra cima de mim como um bicho selvagem, subiu no meu colo e meu peito começava a dar sinais de entrega, suas mãos amassavam meus ombros e eles cediam tão fácil quanto pedregulhos jogados sobre papelão, pensei em empurrá-la pra longe mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, ela já desabotoava a blusa e exibia o contorno rosado dos seios, acho que ela estava esperando que eu fizesse alguma coisa, eu pensei em fazer alguma coisa mas achei melhor que ela fizesse, seu corpo pesava sobre o meu quadril e sua pele reluzia a propaganda da TV, ela agarrou minhas orelhas e puxou meu rosto até a sua barriga e eu não tive escolha senão deixá-la meter meu nariz no seu umbigo, o cheiro que eu senti era o mesmo do meu terno desbotado, lavado, usado na primeira vez que eu encontrei os onze, ela afastou meu rosto, desmontou do meu colo e ficou de pé, seus seios pareciam mais pesados do que antes, eu continuava deitado no sofá, sem saber como reagir, ela deu alguns passos pra trás e olhava pra baixo, desabotoou a bermuda e descia o zíper devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, o brilho da TV trovejava sobre aquele corpo seminu que mais parecia ilusão, ela ainda deu mais alguns passos pra trás quando o zíper atingiu a parte mais baixa da bermuda, ela parou, acariciou os pelos que apareceram e perguntou.

“o que tu vendia?”

Angélica cutucava os dedos, a televisão falava e falava, olhei pra ela e sua blusa  tinha todos os botões abotoados, eu continuava sorrindo, tentando aniquilar a resposta mas percebi que dessa vez isso não seria suficiente.

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s