Polistórias: Sci Fi

“A escuridão aumentava rapidamente. Um vento frio começou a soprar do leste em lufadas enregelantes, enquanto os flocos de neve caíam com maior intensidade. O mar se encrespou levemente, com um murmúrio longínquo. Afora esses ruídos da natureza, tudo era silêncio. Silêncio? Difícil descrever a profundíssima quietação que pesava sobre o mundo. Todos os rumores da humanidade, o balido dos rebanhos, o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, a agitação que forma como que a música de fundo de nossas vidas – tudo calara.”

A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells.

Como leitor do século XXI, sinto que a ficção científica, cada vez mais, tem dificuldades de tocar a sensibilidade do leitor. Muitas delas são e sempre serão interessantíssimas, com enredos sólidos, abordagens inovadoras e construções de ambientes complexos e ricos em detalhes. Mesmo diante da exuberância de assistir Prometheus (2012), do veterano Ridley Scott, em um cinema IMAX 3D com Dolby Digital 7.1 – o que já soa, por si só, um aparato de ficção científica –, não pude sentir o aperto no peito diante da magnitude esmagadora do universo, de suas forças insondáveis, da presença ínfima do homem nesse colossal vazio. Foi bonito, interessante mas lhe faltava o Sublime.

Acredito que parte do problema seja o excesso de informação. Lovecraft já dizia que o maior temor do homem é o desconhecido. E dizia isso em um tempo no qual se começava a construir as noções modernas da real dimensão do universo. Às vésperas dos 80 anos de sua morte, está cada dia mais difícil dar de cara com o desconhecido. Uma rápida passagem pelo google me permite explorar cada centímetro da Terra, da Lua ou de Marte. Saber a distância de qualquer Sol. Ter acesso a qualquer idioma conhecido. Observar qualquer rua de qualquer grande cidade. Ver documentários sobre milhares de temas.  O problema, nesse cenário, já é outro: diante de tanta informação, muitas vezes conflitante, como escolher sua pauta para a realidade?

Outra questão é o próprio vigor do gênero. Após mais de um século de ficção científica, em que foram explorados planetas distantes, viagens no tempo, clonagem, o centro da Terra, o fundo do mar, dinossauros ressuscitados, alienígenas, vírus mortais, meteoros, mudanças climáticas catastróficas, inteligência artificial e um sem-fim de outros temas, há ainda como, de fato, surpreender o leitor ao ponto de abalar suas convicções, de maravilhá-lo ou aterrorizá-lo diante de uma nova visão da realidade?

A citação que abre esse breve ensaio foi a última vez em que eu pude sentir essa fagulha do sublime. A maior parte de A máquina do tempo, acredito eu, para um leitor contemporâneo, se enquadra no problema geral: é muito interessante, mas incapaz de surpreender. Lendo sem grandes expectativas, contudo, me deparei com um final surpreendente para aquela viagem (spoiler alert): o protagonista, após sua longa jornada pelo futuro, não retorna simplesmente ao passado. Ele continua avançando na ânsia humana de presenciar o próprio crepúsculo da existência terrestre. Conforme o Sol morre, o planeta se torna gelado e escuro, e toda vida se extingue, a máquina continua acelerando, até que não sobre mais que o silêncio aterrorizante em consonância com o frio universo que nos rodeia. Nesse momento, eu pude me ver no lugar do personagem. Em pé, contemplando o último sopro de vida rastejar por uma desolada rocha gélida orbitando os momentos finais do mesmo Sol que banhou toda a história da humanidade. A sensação é aniquiladora. Faz você fechar o livro e respirar fundo. Faz você estranhar o próprio cotidiano durante algum tempo, como uma espécie de efeito retardado. Tudo parece alheio. Frágil. Tudo parece ter um pouco menos de importância.

Se eu pude sentir isso em pleno século XXI, imagine como deve ter sido a experiência para um leitor nos momentos finais do século XIX. Esse é o sentimento de que, creio, um bom sci fi deva transmitir. Ainda que seja difícil, não afirmo que seja impossível. Claramente, mesmo hoje alguns conseguem chegar lá (ou bem perto): 2001: uma odisseia no espaço (1968), Contato (1997) ou  Inception (2010), por exemplo.

Depois de uma apresentação assim, acabo criando expectativas difíceis de cumprir. Caso consigamos, contudo, ainda que uma fração desse impacto, que consigamos alguns minutos de reflexão, com sorte alguns leitores viajando em sua própria mente, expandindo as ideias propostas nesses contos, consideraremos um bom trabalho.

Dessa forma, apresentamos a vocês leitores o quinto ciclo de nosso projeto de contos, o Polistórias: Sci Fi. Embarque conosco em cinco viagens pelos confins da realidade e explore livremente os cinco universos criados pela colisão da ciência com o lado mais selvagem da imaginação.

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