Caixas de sobra – Ep. 25

[Se ainda não viu os últimos capítulos, clique aqui]

O chefe não chega. O sol se esgueira por traz da folhagem densa, deixando raios esparsos serpenteando pelo chão. As aves de canto trocam turno com as de rapina e o assobio relaxante do vento se enche de frio. Chegar. Entregar. Sair. A quebra de planos era uma quebra na própria espinha de Santos Passos. Escorre pela cadeira distraindo-se no ir e vir do grupo armado. Nem um único som de Angélica. Está em sua pose de bicho noturno, toda olhos brilhando na escuridão, encurvada, como se a qualquer momento fosse rasgar a jugular de qualquer coisa que cruzasse o seu caminho. Santos e ela se entendiam melhor assim. No mesmo silêncio que se encontraram, há uma vida atrás, no muro do Coronel. E se nunca houvessem se encontrado? Visualiza sua invasão mal sucedida, um tiro na perna. A chegada dos policiais. Uma prisão em delegacia de interior.  A culpa dos assassinatos no hotel. Televisão. Família. Julgamento. Presídio dos grandes.

O pensamento inunda-se de um ruído que não tarda em transbordar para a realidade. Um grito abafado. Lamurioso, mas ritmado. As madeiras rangem. Angélica vira o rosto para a janela, encostando a testa no vidro empoeirado. As mãos fechadas e trêmulas. Só uma vez Santos Passos a viu daquela forma. Era fim de tarde e a comunidade perdia-se em risos e copos de cachaça em volta da fogueira-de-espantar-muriçoca. Dona Tereza cantava uma modinha seguida de palma e voz pelos moradores mais antigos. A cantoria, cheia de uma energia ancestral, de uma beleza bruta, contagiava os mais calados, como Paulo Gago e Marlon. Angélica, sombra e fogo, não dança, mas fica imóvel em frente à fogueira, farejando a noite e o passado. Santos Passos não percebe exatamente quando a festa acaba. A filha do Mestre Matias chora. Os homens discutem. Os velhos contemplam indiferentes os redemoinhos mínimos do rio da vida. Mas Angélica nasceu com o sangue de onça do mato. Rasga a noite em busca do culpado. “Foi à força”. “E o que ela tava fazendo de noite sozinha?”. “É caso de polícia”. “Isso dá morte”. Santos Passos segue de longe, sem interferir na caçada. Terminam atrás da vendinha. É um dos moleques de Pablo. Está ainda sem camisa. Sorriso e cigarro. Ela, mãos trêmulas. Segura-o como se fosse uma galinha de granja, mãos firmes no pescoço, cabeça contra o chão. Não há um ódio formulado em palavras, apenas a respiração forte e as involuntárias contrações no rosto iluminado pela lua. O vermelho mancha o quadro monocromático enquanto o facão passa uma e outra vez pela carne flácida. O som é como uma criança pisando numa poça de lama num dia de chuva.

A porta do único quarto do barraco se abre. Um dos armados sai decorado por um sorriso embaçado de degradação. Outro entra. E o ritual de grunhidos filtrados por pano de mordaça se reinicia. Nem Angélica ousa pará-los. O miojo esfria na mesa. E o chefe não chega.

Pedro Sasse

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s