Escrever com rapidez…

por Luciano Cabral

A escolha do título foi proposital. Mas já esclareço que, quando falo em rapidez, não me refiro à “como escrever um livro em 4 semanas” ou coisa que o valha. A rapidez de que quero falar hoje está ligada a uma estratégia do escritor ou da escritora, quando se perguntam: “Devo acelerar a narrativa aqui ou devo ir mais devagar?”. Bom, isso depende. Mas, antes de continuar, gostaria de contar uma antiga lenda.

escrever-com-rapidez-poligrafia

[https://pixabay.com/en/hands-writing-words-letter-working-1373363/]

“O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignatários respiravam aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transportá-lo para sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com um pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferir seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens”.

Eu trouxe esta antiga lenda porque acredito que ela é um ótimo exemplo de rapidez. Em poucas linhas, aprendemos que um imperador está apaixonado, que sua amada morreu, que seu amor permanece, que sua dignidade falha, que há barões preocupados, que um arcebispo desconfia de algo, que há uma breve atração homossexual do imperador pelo arcebispo, que a culpa é de um anel e que o amor do imperador repousa, na verdade, no fundo do lago.

Essa lenda (como todas as lendas) tem várias versões. Algumas não tratam do homossexualismo, outras dão mais importância ao amor do casal, e outras enfatizam a preocupação dos barões e a detetivesca empreitada do arcebispo na sua busca por uma resposta. No entanto, parece que, em todas elas, é a concisão dos fatos, a economia das palavras que garante a eficácia da lenda. Ou seja, é a rapidez que determina a qualidade desta história.

Se tua intenção, ao escrever, for criar um efeito de choque, de surpresa ou de arrebatamento, abrir mão de detalhes e divagações é um caminho. A tensão que se pode produzir com a narrativa acelerada, as informações escassas e as descrições mínimas é bem interessante.

Entretanto, há momentos em que a lentidão também pode ser bem eficaz. E estrategicamente, são os detalhes, as descrições minuciosas e as divagações que contam nessa hora. Mas “escrever com lentidão” será assunto pra outro momento.

Até lá.

3 comentários sobre “Escrever com rapidez…

  1. Pingback: Escrever com lentidão… | POLIGRAFIA

  2. Eu gosto muito de descrição minuciosa, mas às vezes elas são cansativas e acabam por influenciar no interesse pela história. Para mim tem que haver equilíbrio.

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