Caixas de Sobra – Ep. 27

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violão poligrafia caixas de sobra.jpg

Por PurplePolkaDot. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/guitar-29584296)

 

se o coração é um rio que deságua

meu coração é água que salgou

rio que mata a sede e mata a alma

porque não traz alívio pra dor

ainda posso ouvir a voz de dona Tereza, aguda, farta, não é a melhor trilha sonora pra um momento como esse, mas é o que me acalma, olho em volta, a mesa, o fogão, um freezer num canto, um sofá no outro, Angélica ainda na janela com os olhos secos de cansaço, acho que nem está prestando atenção na conversa, eu ouço o chefe falar e me perguntar se eu sou um problema, ele quer que eu diga se eu sou um problema e eu nem saberia por onde começar, o timbre da voz dele é quase como o de dona Tereza.

‘quando a gente passa a viver longe da fumaça, dos carros, do concreto, a gente percebe que o tempo pode correr diferente, não é que ele fica mais devagar, nem menos furioso, não, mas o tempo aqui corre de outro jeito, eu  podia te dizer que a gente tem muito tempo por aqui, mas ele também passa, ninguém aqui quer te mandar de volta morto, viver é um privilégio, senhor Caixa, e todo mundo devia lutar pra se manter vivo, é o que eu faço, é o que a gente faz por aqui, não é, pessoal?

‘é, sim’

‘é isso, chefe’

‘a gente vive como pode’

as batidas do peito marcam

a saudade da minha terra

o rio agora é salgado

e corre todo na minha veia

o chefe se cala, como se esperasse que alguém mais dissesse algo, ele pega a arma e a coloca na mesa, o cano virado pra mim, não era um brinquedo, eu entendi o recado, viro o rosto pra Angélica e ela continua olhando alguma coisa pela janela, procurando alguma coisa talvez entre aquelas plantações verdes, é assim que eles vivem, sobrevivem, é da onde vem o dinheiro e Angélica sabia disso, sabia desde o início.

‘então, pra gente te manter vivo, o senhor precisa colaborar, o senhor já tem uma vantagem, mostrou seu valor, trouxe a entrega do jeito que devia ser, isso vai ser muito útil pra o que a gente faz aqui, mas esse valor ainda tem que ser provado’

ele engata a arma com uma rapidez inacreditável e a põe de volta na mesa, no mesmo lugar, do mesmo jeito, o cano me encarando, ele me encarando, os outros caras me encarando, se é pra lutar pela vida, eu tinha que contar a história.

‘nós matamos um dos seus’

Angélica, que parecia nem prestar atenção no que ocorria ali dentro, começa a falar, anda em direção à mesa e para do meu lado, de pé, não entendi o que ela pretendia dizendo aquilo, mas o foco já não era eu, eu podia ter um pouco mais de tempo agora.

por Luciano Cabral

Não percam, na próxima semana, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

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