Caixas de Sobra – Ep. 28

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O rosto de Passos estava emoldurado por suor. A testa estava tão quente que mal ouvia as palavras de Angélica. Ele não compreendeu bem o que pretendia, mas funcionou. Era só manter a calma. O chefe se inclinou para frente exalando um cheiro de Leite de Rosas.

– Mataram um dos nossos, é?

– Sim. Não teve o que fazer. Mas a gente-

– Cala a boca, piranha. Deixa o amigo caixa falar.

 

O suor brotou abundante na testa e caiu no olho. Passos respirou fundo e começou. A ponta dos dedos tremiam. Abriu a boca e falou. Cada som atropelava o seguinte, como se vomitasse. Outra gota pingou do queixo e se avolumou na superfície de madeira. Mais algumas e a poça encostaria no cano da arma. Ao terminar, o chefe girou a arma e disse:

– Senhor caixa, você vai ter que contar tudo de novo. Não tô entendo nada.

– Desculpa.

– Não precisa ficar nervoso. É só falar uma coisa de cada vez.

Santos enxugou a testa com a mão trêmula e engoliu o resto de saliva na boca. Olhou de soslaio. O rosto de Angélica era impenetrável. Não havia rastro de piedade nos olhos. O chefe estalou a unha no coldre da arma. O buraco escuro apontado para o peito de Passos esfriava o sangue.

– Vai por mim, caixa. Se tivesse que passar você, já teria passado.

Santos encolheu na cadeira como uma lesma coberta de sal. Ia meter a mão no bolso. Não o fez. Podiam entender mal. O chefe passava legítima sensação de tranquilidade. Mas o dedo indicador de cada um dos capangas estava no gatilho. Alguns pressionavam até a folga de segurança. A maioria deles estava ali não por necessidade, mas pelo hábito de matar. Começava com um gato, depois um primo numa briga. Não conseguiam parar. Poderiam disparar ao som de uma tosse. Encherem seu corpo de buraco.

Não havia nada no bolso além dos restos de Tzu, lembrou. Uma página riscada com o desenho de giz de cera.

Santos respirou fundo e abriu a boca. Agora foi pior. As palavras não saíam. Pareciam ter entupido a garganta.

– E-E-Eles. Sã-sã-

– Não tô entendendo porra nenhuma.

O chefe pegou a arma como se fosse feita de papel.

– São onze.

– Que onze? De que porra ele tá falando, Angélica?

O suor se misturou com as lágrimas que se acumulavam no canto dos olhos.

– Agora vai chorar?

Passos deslizou os dedos para debaixo da mesa. A mão se encaixou nos bolsos. Havia alguma coisa embolada num monte de contas. Um terço. Ele lembrou. A velhinha falou rápido. Só deu tempo de envolver a caixa e ir embora. Nunca rezou um terço. Passos ia à igreja durante a infância. Nunca gostou de rezar. Inclinava a cabeça. Pensava no jogo de futebol ou na menina que estava no banco lá trás. Só gostava das vezes que o sermão era sobre milagres. Os mártires e profetas pareciam super-heróis.

O cano encostou na testa. Santos espremeu o cordão entre os dedos. O fio se arrebentou.

– Se não vai falar, vou te ajudar. Vou desentupir sua garganta.

Sentiu o ferro descer ´pelo nariz e tocar a ponta do lábio.

– Os onze – engolindo lágrimas, falou.

O canto de Dona Tereza lá fora deu lugar uma turba de pernas. Uma sucessão de armas engatilhadas. O murmúrio dos homens engolido pelo gemido das mulheres lá fora.

Os olhos de Passos ardiam afogados no escuro. Ele se recusou a abri-los.

Jonatas Tosta

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

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