Escrever com lentidão…

por Luciano Cabral

Há algum tempo, eu falei sobre escrever com rapidez, aquela técnica de dizer muito sem usar muitas palavras. Hoje gostaria de falar do outro lado da moeda: escrever com lentidão. Não estou me referindo, é preciso esclarecer, ao tempo que se gasta na feitura de uma história. Isto me parece muito subjetivo pra ser tratado em linhas gerais. Escrever lentamente é recorrer a alguns instrumentos narrativos pra fazer com que a história avance pouco, como neste trecho:

“Jewel e eu saímos da plantação, pela vereda, um atrás do outro. Embora eu esteja uns quinze passos à sua frente, quem nos observasse do depósito de algodão veria o chapéu de palha de Jewel, roto e esfiapado, ultrapassando o meu por uma cabeça. A vereda, suavizada pelos pés e endurecida, qual tijolo, pelas quenturas de julho, estende-se, reta, entre os renques verdes de algodão capinado, até o depósito no meio do campo, onde ela se torce e contorna o depósito, em quatro ângulos retos de vértices imprecisos, e depois avança novamente pelo algodoal, batida por pés de efêmera precisão. O depósito é feito de troncos grosseiros, de entre os quais o enchimento caiu há muito tempo. Quadrado, com um telhado esburacado, que se inclina, ele pende, semelhante a uma ruína desolada e fulgurante, à luz do sol; duas amplas janelas, em paredes opostas, abrem para as imediações da vereda. Ao chegarmos ao depósito, eu viro e sigo o caminho que rodeia a casa. Jewel, uns quinze passos atrás, olha em frente e, com uma só pernada, entra pela janela. Ainda com os olhos fitos à sua frente — olhos pálidos, de madeira, incrustados no rosto de madeira —, atravessa o chão do depósito em quatro passadas, com a rígida gravidade de um Índio de tabacaria vestido com um poncho remendado e dotado de vida dos quadris para baixo, apenas; e sai, com uma só pernada, pela janela fronteira do depósito e entra novamente na vereda, no justo instante em que eu dobro a esquina. Um atrás do outro, a uma distância de cinco passos, e Jewel agora na minha frente, continuamos a subir a vereda rumo ao pé da encosta. A carroça de Tull está ao lado da nascente, atada ao moirão, as rédeas enroladas atrás do banco. A carroça tem dois assentos. Jewel para na nascente, apanha a cabaça que pende de um ramo do salgueiro e bebe. Tomo sua dianteira e subo pela vereda, começando a escutar a serra de Cash. Quando chego em cima ele já parou de serrar. De pé sobre uma porção de aparas, ajusta duas tábuas. Entre os espaços de sombra, elas brilham amarelas, como ouro, como ouro pálido, ostentando nos flancos, em ondulações suaves, as marcas da lâmina da enxó: bom carpinteiro, este Cash. Mantém as duas tábuas no cavalete, ajustando as bordas para que formem a quarta parte do caixão. Ajoelha-se e calcula com o olhar as arestas, depois baixa as tábuas e empunha a enxó. Um bom carpinteiro. Addie Bundren não podia desejar um melhor que ele, nem um caixão melhor em que descansar. O caixão lhe dará confiança e conforto. Dirijo-me para a casa, acompanhado pelo chaque chaque chaque da enxó.”

O trecho, retirado do romance Enquanto Agonizo, de William Faulkner, começa descrevendo o ambiente rural em que os personagens se encontram. Atrelados à Darl, nós não conseguimos fugir do que seus olhos veem: a plantação, o chapéu gasto de seu irmão e o caminho até o depósito de algodão. O depósito recebe atenção especial, pois é detalhadamente descrito. Mas Darl também pormenoriza seu irmão, que parece querer chegar mais rapidamente ao seu destino, ao pegar um atalho pulando janelas. Somente depois de percorrer todo o ambiente, Darl menciona seu outro irmão e revela que ele, sendo carpinteiro, constrói um caixão para a mãe – que agoniza em seu leito de morte.

A descrição do ambiente é apenas uma das técnicas que se pode usar para retardar uma história. Uma outra é o fluxo de consciência (já mencionado aqui no blog), que desloca a  narrativa para os pensamentos dos personagens. Encontramos fluxo de consciência, por exemplo, em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, em Ulisses, de James Joyce, e em várias narrativas de Clarice Lispector.

Ter estas técnicas na manga importa muito quando se quer atingir um efeito de tensão no leitor. A lentidão pode fazer com que a surpresa torne-se mais surpreendente. No trecho de Enquanto Agonizo, ficamos intrigados com a ideia de que os filhos de Addie Bundren já esperam sua morte – e por isso preparam o caixão. Isto causa tensão e nos instiga a virar mais páginas. Às vezes, faz mais sentido entregar a história aos poucos, em doses homeopáticas. Escrever lentamente é, muitas vezes, o caminho para se construir algo que só fará sentido se for demorado.

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