Caixas de Sobra – Season Finale

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No auditório, ainda no primeiro piso, Passos viu de soslaio a palestra ministrada pelo vendedor platinum A para novos integrantes. O esquema em pirâmide, produtos cosméticos, eletrônicos, dietéticos. Programas de fidelidade, acúmulo de pontos. O palestrante contava como quadruplicou o salário em dez anos. A acústica do prédio era tal que aqueles que andassem nas lojas e escritórios do térreo podiam ouvir cada palavra proferida no auditório, mas sem que chegasse a ser incômodo. Ali havia duas agências dos maiores bancos do país. Um escritório de advocacia, um banco menor especializado em investimentos em ativos. No segundo andar, de fácil acesso por uma escadaria espaçosa ou pelo elevador panorâmico, havia o restaurante, o escritório do plano de saúde e a gigantesca academia para funcionários.

Frente aos quatro elevadores com ascensoristas, Passos, apesar de bem escoltado, fez sozinho o trajeto que bem conhecia. Apenas o terceiro elevador subiria para além do sétimo andar – mas esse nunca vinha ao térreo e não podia ser chamado, mas descia sozinho dependendo dos rostos reconhecidos nas câmeras. Quando entraram no espaço espelhado, Issacar apertou as mãos do funcionário e anunciou:

– Benjamin, de São Paulo. O Patriarca deseja vê-lo.

Era no oitavo andar. Enquanto subiam, o próprio ascensorista os revistava com detector de metais. Quando o elevador parou, ainda levou alguns minutos para que a porta fosse liberada.

– Ben, quantas vezes viu o Patriarca?

– Apenas uma.

– Depois de hoje, terá visto mais que eu.

O cheiro leve de incenso verbena expandia-se pelo espaço amplo e naturalmente iluminado. Issacar desapareceu no elevador, e Passos se viu sozinho com o segurança que vestia terno cinza Dolce & Gabbana, e lia A Metamorfose.

– O Patriarca o aguarda na próxima sala.

O apartamento gigantesco ocupava todo o oitavo andar. As paredes externas eram de vidro, a decoração moderna e sutil, móveis arredondados, tudo branco, tapetes redondos felpudos. O som de uma pequena fonte esculpida trazia tranquilidade ao local. Passos sentia dor ao caminhar. O salão seguinte, com uma piscina interna ao redor de uma ilhota com sofás e uma mesa de centro, fazia frente a uma cozinha americana.

– Fique à vontade, Benjamin. Ou prefere que o chame, só aqui, de Passos?

A última vez que a vira, tinha cerca de setenta anos. Não parecia ter mudado, apesar de estar agora com oitenta, talvez oitenta e dois. Ela estava elegante, os cabelos brancos cortados em chanel, joias sutis. Trazia do bar uma bandeja, que repousou na mesa de centro com um bule e duas xícaras de porcelana chinesa. Convidou Passos a se sentar, e bebericou o chá.

– Tenho um presente para você.

Na mesa, ao lado de um vaso com tulipas, havia uma caixinha preta. Quando abriu, Passos viu um relógio Cássio novo.

– Não é das melhores marcas. Vamos falar do seu trabalho inacabado?

A tranquilidade do Patriarca o deixou desconcertado. O clima era perfeito, o ar condicionado, o aroma, o barulho de água.

– Símbolos. Quanto mais velhos ficamos, mais eles nos fascinam. Lamento que tenha deixado Pandora ver o conteúdo da caixa. Sabe o que deve fazer.

– Por que vocês mesmos não a matam?

– Porque você ainda está dentro. Quando se sobe além de certo ponto, não há mais descida. E você continuou subindo. E continuou. O mal entre nós precisa ser purgado, e neste caso precisa ser pelas suas mãos. – bebericou o chá – Quando pediu para falar comigo, já deveria saber que não negociaria, muito menos ditaria as regras. Oh, Benjamin, como eu te amo.

Apesar do ar condicionado, Passos começou a suar.

– É a última proposta? – perguntou.

– Não é proposta. É uma designação. Não se nega uma designação.

Passos devaneou com o olhar fixo na água que lhes rodeava.

– Eu… faço.

– Servo bom e fiel.- ela sorriu – Manaus. Na saída você receberá a passagem e o voucher para sete dias no melhor hotel. Quanto ao resto, improvise. Não vai beber seu chá?

Passos tocou os lábios no líquido quente. Chá inglês de camomila, mel e baunilha. Quando se levantou para sair, viu, sobre uma mesa de vidro num canto, uma caixa. Uma caixa daquelas. O formato e peso que bem conhecia.

Teve calafrios.

Lucas M. Carvalho

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

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