Life is Strange e as narrativas interativas

(Aviso: esse post pode conter spoilers)

Há algum tempo, a Square Enix decidiu investir em um projeto bem diferente de outros jogos da empresa: Life is Strange. Com jogabilidade bem restrita, gráficos simples, trilha sonora de post-rock bem leve, o jogo foi, contudo, muito bem recebido pela comunidade. Life is Strange narra a vida de Max (Maxine) Caufield, estudante de fotografia na Academia Blackwell de artes e ciências em Arcadia Bay. Inicialmente, tudo parece o espaço de uma típica narrativa de high school: uma menina sofre bullying, há um grupo de alunos populares e esnobes, nerds, esportistas, um professor descolado e uma protagonista cujo potencial é restringido pela insegurança. No entanto, um elemento muda drasticamente o caminho da história: ela descobre ser capaz de voltar no tempo.

A história, dividida em 5 capítulos (e vendida como cinco jogos separados, porque ninguém marca bobeira na indústria dos jogos) desenvolve, então, uma trama em que Max utiliza seus poderes para salvar sua amiga Chloe de progressivas tentativas de assassinato, enquanto se envolve nos mistérios mais escabrosos que a aparentemente pacata cidade do interior oculta.

Sem me envolver nos detalhes do enredo, o que quero destacar nesse jogo é um modelo que vem ganhando força ultimamente, sobretudo através de uma empresa chamada Telltale, especializada em produzir títulos nos quais o jogador tem a possibilidade de decidir os rumos da história. Utilizando universos populares como os de Walking Dead, Game of Thrones, Batman ou mesmo Minecraft, a empresa cria histórias, muitas vezes igualmente dividas em capítulos, que se desenvolvem a partir das decisões de seus jogadores, permitindo, ao final de cada capítulo, uma comparação estatística das decisões tomadas pelos demais jogadores. Em Life is Strange, Max é capaz de voltar no tempo quantas vezes quiser, mas em cada nó da trama, ela precisa tomar uma drástica decisão para a qual não haverá volta.

Enquanto para muitos o gênero é novidade, essa estratégia narrativa já está no mercado há bastante tempo. Bem antes dos primeiros pixels surgirem, a literatura já trabalhava há algum tempo com a chamada ficção interativa, narrativa ramificada, narrativa de tramas múltiplas etc. Pensando o gênero como uma forma de ficção em que o público detém certa forma de controle em tempo real sobre a história contada, é possível argumentar que ele provém da própria tradição da narrativa oral. Da idade média para trás, pelo menos, a forma mais usual de circulação literária não era o livro em si, mas a prática da narração de histórias, seja por profissionais itinerantes, ou pelos próprios familiares. Nessa forma de narração, as reações do público eram importantes para a construção da narrativa, mudando, muitas vezes a ênfase dada a certos aspectos da história, se não a trama como um todo.

Pensando, agora, no gênero como obras projetadas para ter a participação do público, parece que seu início se dá apenas no século XX. Em 1936, a peça Night of January 16th, de Ayn Rand, foi planejada para que, ao final, membros da plateia pudessem dar um veredito sobre o caso exposto ao longo da peça. Dependendo do veredito, o final era diferente. Em 1963, Julio Cortázar lança Rayuela, ou O jogo da Amarelinha em português, romance concebido para ter diversas ordens de leitura, alterando, assim, o sentido do todo.

É, contudo, nos anos 70 que a pródiga interseção entre mercado do entretenimento e ficção interativa se encontram. Através de séries como a Choose your own adventures, voltadas para o mercado infanto-juvenil sobretudo, o leitor via-se diante de livros cujas histórias se ramificavam através de suas decisões, tais como vemos, hoje, nesses jogos. A decisão escolhida levava o jogador a uma página que dava prosseguimento ao enredo e assim por diante até um dos muito finais. Paralelo ao desenvolvimento desses livros, encontram-se também o Dungeon and Dragons e o próprio surgimento do Role-Playing Game. Por mais que, hoje, principalmente no mundo nos jogos virtuais, o termo esteja distanciado de sua origem, a ideia do RPG de mesa é a produção de uma narrativa em que os jogadores, interpretando personagens, podem tomar decisões que influenciam no andamento da história ( durante os 80, os livros de narrativas ramificadas e o RPG encontraram comunhão em séries de aventuras solo como Aventuras Fantásticas, de Steve Jackson e Ian Livinstone).

Nos 80, começava-se, então, a pensar formas de transpor o universo fantástico e suas múltiplas possibilidades para o recém chegado mundo virtual. Uma das primeiras tentativas foi o jogo de computador Zork. Não muito diferente de um Choose your own adventures, o jogador estava apenas exposto ao texto na tela, mas, diferente desse tipo de livro, não bastava fazer decisões, era preciso decidir cada ação do personagem… através de comandos! Move west, Open Chest, Look Letter. Os jogadores precisavam, passo a passo, desvendar aquele mundo feito apenas de letras (se você tem paciência e quer ter essa experiência pessoalmente, aqui tem uma simulação do Zork online). Mais assustador ainda são os MUD, multi-user dungeon, que funcionavam em dinâmica parecida com o Zork, mas online! Comando por comando, era possível combater criaturas, juntar itens e enfrentar outros jogadores sem apoio de quase nenhuma interface visual.

Como nem todos, nos anos 80, podiam contar com um fantástico microcomputador, Steve Jackson, um dos pais do RPG, encontrou um jeito de deixar as narrativas interativas ao alcance de todos: o F.I.S.T., acrônimo para Fantasy Interactive Scenarios by Telephone. Sim, por telefone. O jovem ávido por aventuras fantásticas ligava para o número oferecido nos comerciais e ouvia a narração de uma história, podendo, eventualmente, decidir suas ações digitando números no telefone.

 

 

 

 

 

 

 

 

Portas abertas para o mundo virtual, não tardou para que as primeiras obras primas surgissem, como é o caso da franquia Myst. Criado em 1991, apenas poucos anos após o sucesso de Zork, Myst era uma maravilha da tecnologia. Não só contava com cenários magníficos, como foi capaz (em uma época em que o Super Nintendo era referência de gráficos) de inserir com sucesso atores reais nas cenas-chave do jogo. Por mais que o jogo seja centrado, sobretudo, na resolução de complexos enigmas e quebra-cabeças, há, ao longo dos jogos da franquia, uma complexa história contada através de diários, permitindo que o jogador chegue a finais distintos dependendo de suas ações.

Deixando de lado as dezenas de videogames de RPGs que, na época e posteriormente, exploraram a estratégia dos múltiplos finais (como o imperdível Chrono Trigger, da própria Square Enix, e o engenhoso Until Dawn, que explora as novas tecnologias dos consoles, para aumentar a imersão na narrativa), vale, ainda, uma menção honrosa para as visual novels japonesas, das quais uma das mais famosas é Fate/Stay Night. As visual novels, em questão de gameplay, seguem a mesma lógica dos Choose your own adventures ou do peculiar F.I.S.T., em que se alternam textos e decisões de ação. No entanto, o que chama a atenção nessa variante virtual é a falta da restrição física contida nos antigos livros. Somando todas as palavras de todas as ramificações contidas na tradução inglesa de Fate/Stay Night chega-se a uma obra maior que The Lord of the Rings, de J. R. R. Tolkien.

Voltando ao fenômeno Life is Strange, agora inserido nessa longa e curiosa tradição das narrativas interativas, podemos notar como, comparado a seus pares, um dos principais apelos do jogo é, na verdade, mal explorado. O mesmo vale para qualquer um dos jogos da Telltale. O ponto mais interessante das narrativas ramificadas é, justamente, sua ramificação, ou seja, sua capacidade de se bifurcar diante de cada possibilidade, bifurcar-se em cada bifurcação dessa possibilidade e assim por diante (por sinal, há um conto aqui que aborda justamente como o tempo pode ser visto como uma grande narrativa ramificada, caso queira ler clique aqui). Ainda que alguns galhos sejam formados por ramificações que convergem para o mesmo ponto, no final, a estrutura da narrativa deve ser abundante em conclusões, como mostra o diagrama abaixo:

Aí está o problema desses jogos mais recentes. Diferentemente de seus parentes anteriores, esses jogos lidam com uma representação gráfica mais complexa e custosa (e, por outro lado, com certo interesse em enxugar custos) que leva a uma grande restrição na principal dinâmica da narrativa interativa: sua capacidade de se desdobrar em muitas possibilidades. Após cada capítulo, percebemos que, ainda que nossas escolhas pesem em certos aspectos do jogo, todas as decisões convergem para uma mesma situação final que servirá de ponto de partida para o próximo capítulo, independente das decisões anteriormente feitas. Dessa forma, a estrutura final se assemelha muito mais a isso:

Em Life is strange, uma narrativa sobre a capacidade de alterar o próprio tempo, é decepcionante perceber que, no final, o somatório das dezenas de decisões feitas ao longo de cinco capítulos e horas de jogo leva a apenas a uma única bifurcação extremamente polarizada, que independe de qualquer elemento anterior.

Muito mais que uma decisão de fato, o que Life is strange parece construir é uma ilusão de escolha. Ludibriados pela superfície das consequências imediatas na narrativa, muitas vezes não percebemos como os resultados alcançados são os mesmos independente das escolhas. A popularidade, contudo, do jogo e todas as dezenas de títulos da Telltale games, leva-me a desdobrar a reflexão para fora da narrativa em si. Até que ponto essa ilusão de controle experimentada nesses jogos não é um sintoma de algo experimentado na própria vida pós-moderna? Quantas de nossas escolhas levam, de fato, a consequências impactantes na narrativa da vida?

Reflexões à parte, se você gostou da pequena viagem pelo mundo da ficção interativa, que tal fazer você mesmo algo do tipo? O Twine é uma ferramenta de código aberto que permite através de uma interface amigável construir narrativas ramificadas (com abertura pra programação complexa pra quem entende da parada), desde simples histórias até jogos complexos com construção de personagem e combate.

Pedro Sasse

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