“Mostrar” sexo ou “Dizer” sexo, por Luciano Cabral

MadhyaPradesh poligrafia sexo

A BOA DIETA

Carlota dissera ao seu doutor / Que lhe agradava, de manhã, fazer amor, / Embora à noite a coisa fosse mais sadia. / Sendo ela prudente, resolveu / Fazê-lo duas vezes ao dia: / De manhã, por prazer / De noite, por dever.

Von Logau (1605-1655)

EPIGRAMA

Amar, foder: uma união / De prazeres que não separo. / A volúpia e os desejos são / O que a alma possui de mais raro. / Caralho, cona e corações / Juntam-se em doces efusões / Que os crentes censuram, os loucos. / Reflete nisto, oh minha amada: / Amar sem foder é bem pouco, / Foder sem amar não é nada.

La Fontaine (1621-1695)

Estes dois poemas do século XVII abordam o mesmo tema. Mas fazem-no de maneiras distintas. Os versos do poeta alemão Von Logau não abordam a relação sexual de forma tão explícita quando os de La Fontaine. “Epigrama” é mais direto e lança mão de palavras mais contundentes ao diferenciar e (pra logo em seguida) unir os dois atos sexuais.

Por outro lado, “A Boa Dieta” acontece num espaço público (pois Carlota está num consultório médico) e, por isso, é mais comedido. Carlota não fode, mas “faz amor”; e é “prudente” na sua conduta. E por conta de sua prudência, a confissão de sua traição nunca fica explícita. Podemos apenas inferir que ela trai por conta do prazer que ela sente ao fazer amor pela manhã (com o amante, quando o marido está ausente) e do dever de fazê-lo à noite (com o marido, quando este retorna).

Estes dois poemas são exemplos de um recurso narrativo importante: mostrar e dizer. Saber o momento de mostrar uma ação sem dizê-la explicitamente (ou o contrário, dizê-la abertamente) é uma técnica que requer ponderação e equilíbrio. Se o escritor der tudo de bandeja, a história pode se tornar enfadonha e o leitor talvez sinta-se menosprezado, tratado como alguém que não saber ler nas entrelinhas. Em contrapartida, se o escritor não der o suficiente, a história pode ficar obscura e incompreensível – e tão enfadonha quanto se tivesse sido dita.

Nas cenas de relações sexuais, saber quando mostrar ou quando dizer faz com que a história apresente o sexo como parte da trama, e não como adereço.

Em Memórias Póstumas, a relação sexual de Brás Cubas e Virgília é mostrada. A palavra “sexo”, por exemplo, não está lá. A relação apresenta-se (e o título do capítulo indica) na repetição incessante de seus nomes. É possível imaginar a respiração ofegante do casal através das reticências na página.

De outro modo, em várias histórias de Rubem Fonseca, encontramos o ato sexual sendo dito. A palavra “fodemos” (e nada mais) é que aparece pra descrever o sexo. Num estilo que se quer rápido, muito realista e brutal – muitas vezes, com personagens rudes e comportamentos desapaixonados – narrar a relação sexual desta maneira faz todo o sentido literário.

Mostrar sexo ou dizer sexo é, certamente, uma questão de escolha. Mas esta escolha não é aleatória. O objetivo do ato sexual na trama é que garante a eficácia da cena. Caso contrário, o sexo fica sendo apenas uma desculpa recheada de tons de cinza.

Luciano Cabral

Publicado por Luciano

Assistant Professor for the Department of Language/North American Literature (UERJ).

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