Especial “Artes” – Vol. I

Quando voltamos nossos olhos aos dois poemas épicos de Homero, a Ilíada e a Odisseia, percebemos um começo bem semelhante, quase um ritual de abertura: “Canta-me, ó musa”. A invocação das filhas de Zeus com Mnemosine – ao menos em algumas das versões do mito – estabelece o clima solene da epopeia, o que canta não é brincadeira de mortais, mas matéria sagrada: a voz da própria Memória derramada por sua prole inspiradora.

O ritual é mantido na Eneida de Virgílio, e mais de mil anos depois ainda ecoa no imaginário do mundo, seja sussurrando a queda do homem a Milton ou os confrontos em Sete Povos das Missões a Basílio da Gama. Camões, muito esperto, vendo que a Grécia de seu tempo só brilhava em seu passado mítico, dispensa as musas antigas e fica com a ajuda das ninfas do Tejo, que moravam mais perto de casa e, claro, falavam o bom português, facilitando o processo.

Ainda que a maioria invoque a Musa no singular, não esqueçamos que muitas havia, nove ao todo, organizadas por Apolo. Na Grécia, o sistema era novo e cada uma inspirava como podia. Coube aos romanos colocar ordem na casa e dizer quem cuidava do quê: Calíope da épica, Clio da história, Euterpe da música de flautas, Erato da lírica, Terpsícore da dança, Melpomene da tragédia, Talia da comédia, Polímnia dos hinos e Urânia da astronomia.

Hoje nos soa estranho uma musa só para as flautas – a quem recorreriam os compositores de oboé? –, e os historiadores não costumam clamar pra si o título de artistas – salvo talvez os professores de história que compõem músicas para facilitar a adesão da matéria. Deuses morrem. Novos ganham força. Artes morrem, novas ganham força.

Se outrora as musas cantavam a literatura, hoje as deixaremos descansar e inverteremos o jogo: faremos a literatura cantar as musas. Essa edição do Poligrafia é o primeiro volume de três que farão uma jornada pelas artes, algumas antigas, algumas novas: música, dança, pintura, escultura, poesia, teatro, arquitetura, prosa, gastronomia, fotografia, cinema e moda.

Seja representado um fazer artístico, refletindo sobre obras ou mesmo tomando uma arte como metáfora para a vida, esta edição do Poligrafia o conduzirá ao divino salão das musas. Boa arte!

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S.

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