A Chegada (2016)

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Quebrando a expectativa dos filmes de invasão alienígena produzidos até então, A Chegada, dirigido por Denis Villeneuve, não se detém em cenas de caos e de reações histéricas frente à ameaça. Pelo contrário, os acontecimentos são tratado de forma sutil e pessoal, sob a perspectiva da doutora Louise Banks (Amy Adams), uma linguista renomada contactada por militares para traduzir os ruídos produzidos pelos seres do espaço.

A dúvida que alimenta o longa metragem – em torno das 12 naves que pousam ao mesmo tempo em diferentes pontos da Terra – é saber a intenção destes seres. Sem grandes manifestações agressivas, as naves apenas esperam a entrada de humanos para um breve e confuso contato. Uma câmara dividida por uma película, através da qual é possível ver a densa atmosfera dos alienígenas, é o cenário de todas essas interações, que se repetem e progridem dia após dia. Os seres são chamados de heptapodos, por possuírem sete pernas. Eles possuem dois tipos de linguagem: uma falada, que é descrita como não tendo ordem de palavras, e uma escrita, baseada em formas circulares. A segunda forma é essencial para a compreensão da trama.

Todo o desenvolvimento do contato é acompanhado por uma crescente desconfiança, fruto das experiências passadas da própria humanidade, em que todo o encontro de civilizações resultou na subjugação do grupo menos desenvolvida. Forças militares acreditam que as 12 naves almejam colocar as nações umas contra as outras, para que a própria raça humana possa mostrar-se mais frágil.

Durante a primeira metade do filme, talvez seja difícil ligar os pontos do enredo sem um conhecimento de linguística. Conforme a doutora Banks progride na compreensão da linguagem dos heptapodos, são mostrados princípios como a hipótese de Sapir-Whorf (que estabelece uma ligação entre a língua e a forma de organizar o pensamento, afetando diretamente a percepção de mundo do falante); ou o funcionamento da primeira articulação da linguagem. Contudo, por mais que haja certas dificuldades, ao fim da trama tudo se esclarece.

O enredo vale-se, desde o início, de explorar um drama pessoal da protagonista. A forma como esse drama se encaixa no enredo maior, num jogo entre passado e futuro, é simplesmente genial. Conforme a doutora Banks aprende a linguagem dos heptapodos, sua compreensão do tempo muda, fazendo passado, presente e futuro serem um só. Assim a conexão entre língua e cognição torna-se transcendente.

A tudo isso soma-se uma bela fotografia, boas atuações e um design interessante para as naves e para as criaturas. Numa cena específica, quando finalmente dão indícios de suas verdadeiras intenções com a visita à Terra, os alienígenas são reveladas de corpo inteiro.

Um dado pertinente: o filme é baseado no conto “A História da Sua Vida”, de Ted Chiang.

Lucas M. Carvalho

Escrever com lentidão…

por Luciano Cabral

Há algum tempo, eu falei sobre escrever com rapidez, aquela técnica de dizer muito sem usar muitas palavras. Hoje gostaria de falar do outro lado da moeda: escrever com lentidão. Não estou me referindo, é preciso esclarecer, ao tempo que se gasta na feitura de uma história. Isto me parece muito subjetivo pra ser tratado em linhas gerais. Escrever lentamente é recorrer a alguns instrumentos narrativos pra fazer com que a história avance pouco, como neste trecho:

“Jewel e eu saímos da plantação, pela vereda, um atrás do outro. Embora eu esteja uns quinze passos à sua frente, quem nos observasse do depósito de algodão veria o chapéu de palha de Jewel, roto e esfiapado, ultrapassando o meu por uma cabeça. A vereda, suavizada pelos pés e endurecida, qual tijolo, pelas quenturas de julho, estende-se, reta, entre os renques verdes de algodão capinado, até o depósito no meio do campo, onde ela se torce e contorna o depósito, em quatro ângulos retos de vértices imprecisos, e depois avança novamente pelo algodoal, batida por pés de efêmera precisão. O depósito é feito de troncos grosseiros, de entre os quais o enchimento caiu há muito tempo. Quadrado, com um telhado esburacado, que se inclina, ele pende, semelhante a uma ruína desolada e fulgurante, à luz do sol; duas amplas janelas, em paredes opostas, abrem para as imediações da vereda. Ao chegarmos ao depósito, eu viro e sigo o caminho que rodeia a casa. Jewel, uns quinze passos atrás, olha em frente e, com uma só pernada, entra pela janela. Ainda com os olhos fitos à sua frente — olhos pálidos, de madeira, incrustados no rosto de madeira —, atravessa o chão do depósito em quatro passadas, com a rígida gravidade de um Índio de tabacaria vestido com um poncho remendado e dotado de vida dos quadris para baixo, apenas; e sai, com uma só pernada, pela janela fronteira do depósito e entra novamente na vereda, no justo instante em que eu dobro a esquina. Um atrás do outro, a uma distância de cinco passos, e Jewel agora na minha frente, continuamos a subir a vereda rumo ao pé da encosta. A carroça de Tull está ao lado da nascente, atada ao moirão, as rédeas enroladas atrás do banco. A carroça tem dois assentos. Jewel para na nascente, apanha a cabaça que pende de um ramo do salgueiro e bebe. Tomo sua dianteira e subo pela vereda, começando a escutar a serra de Cash. Quando chego em cima ele já parou de serrar. De pé sobre uma porção de aparas, ajusta duas tábuas. Entre os espaços de sombra, elas brilham amarelas, como ouro, como ouro pálido, ostentando nos flancos, em ondulações suaves, as marcas da lâmina da enxó: bom carpinteiro, este Cash. Mantém as duas tábuas no cavalete, ajustando as bordas para que formem a quarta parte do caixão. Ajoelha-se e calcula com o olhar as arestas, depois baixa as tábuas e empunha a enxó. Um bom carpinteiro. Addie Bundren não podia desejar um melhor que ele, nem um caixão melhor em que descansar. O caixão lhe dará confiança e conforto. Dirijo-me para a casa, acompanhado pelo chaque chaque chaque da enxó.”

O trecho, retirado do romance Enquanto Agonizo, de William Faulkner, começa descrevendo o ambiente rural em que os personagens se encontram. Atrelados à Darl, nós não conseguimos fugir do que seus olhos veem: a plantação, o chapéu gasto de seu irmão e o caminho até o depósito de algodão. O depósito recebe atenção especial, pois é detalhadamente descrito. Mas Darl também pormenoriza seu irmão, que parece querer chegar mais rapidamente ao seu destino, ao pegar um atalho pulando janelas. Somente depois de percorrer todo o ambiente, Darl menciona seu outro irmão e revela que ele, sendo carpinteiro, constrói um caixão para a mãe – que agoniza em seu leito de morte.

A descrição do ambiente é apenas uma das técnicas que se pode usar para retardar uma história. Uma outra é o fluxo de consciência (já mencionado aqui no blog), que desloca a  narrativa para os pensamentos dos personagens. Encontramos fluxo de consciência, por exemplo, em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, em Ulisses, de James Joyce, e em várias narrativas de Clarice Lispector.

Ter estas técnicas na manga importa muito quando se quer atingir um efeito de tensão no leitor. A lentidão pode fazer com que a surpresa torne-se mais surpreendente. No trecho de Enquanto Agonizo, ficamos intrigados com a ideia de que os filhos de Addie Bundren já esperam sua morte – e por isso preparam o caixão. Isto causa tensão e nos instiga a virar mais páginas. Às vezes, faz mais sentido entregar a história aos poucos, em doses homeopáticas. Escrever lentamente é, muitas vezes, o caminho para se construir algo que só fará sentido se for demorado.

Caixas de Sobra – Ep. 34

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fonte: https://cdn.pixabay.com/photo/2016/07/16/16/20/snake-1522257_960_720.jpg

uma serpente cruza o caminho de Passos, ele cruza os dedos lembrando as contas do rosário, sibila um verso da oração antiga, vade retro

a serpente continua seu rastejar em busca de

alguma centelha de esperança que se esforça por se manter viva, não foi para isso que dera a palavra? agora o problema é lutar pela vida, ainda haveria tempo para? pela vida de Angélica, já se distanciaram alguns metros da pedra sacrificial, ou do possível milagre, parece ouvir os fracos batimentos de um corpo em vias de se extinguir, mas confia nos ventos salutares da madrugada, futuro sopro revigorante

falaria ao chefe

Na mente de Santos Passos, Simeão ricto imparcial ainda acompanha o movimento, por que essa expressão?, continua seguindo os passos do gordo que ainda foge pela viela, vira à esquerda, entra num dos barracos, Passos e Simeão agora correm qual anjos justiceiros, viram à direita, a noite se adensa sobre os corpos, os ventos emitem sussurros de chuvas em aproximação, algumas gotas se precipitam sobre ambos que se apressam em direção ao chefe

perguntaria a ele, talvez exigisse, não, não, não poderia exigir estando naquela situação, Angélica ali reforça sua condição

por Gabriel Sant’ana

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de Sobra – Ep. 27

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Por PurplePolkaDot. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/guitar-29584296)

 

se o coração é um rio que deságua

meu coração é água que salgou

rio que mata a sede e mata a alma

porque não traz alívio pra dor

ainda posso ouvir a voz de dona Tereza, aguda, farta, não é a melhor trilha sonora pra um momento como esse, mas é o que me acalma, olho em volta, a mesa, o fogão, um freezer num canto, um sofá no outro, Angélica ainda na janela com os olhos secos de cansaço, acho que nem está prestando atenção na conversa, eu ouço o chefe falar e me perguntar se eu sou um problema, ele quer que eu diga se eu sou um problema e eu nem saberia por onde começar, o timbre da voz dele é quase como o de dona Tereza.

‘quando a gente passa a viver longe da fumaça, dos carros, do concreto, a gente percebe que o tempo pode correr diferente, não é que ele fica mais devagar, nem menos furioso, não, mas o tempo aqui corre de outro jeito, eu  podia te dizer que a gente tem muito tempo por aqui, mas ele também passa, ninguém aqui quer te mandar de volta morto, viver é um privilégio, senhor Caixa, e todo mundo devia lutar pra se manter vivo, é o que eu faço, é o que a gente faz por aqui, não é, pessoal?

‘é, sim’

‘é isso, chefe’

‘a gente vive como pode’

as batidas do peito marcam

a saudade da minha terra

o rio agora é salgado

e corre todo na minha veia

o chefe se cala, como se esperasse que alguém mais dissesse algo, ele pega a arma e a coloca na mesa, o cano virado pra mim, não era um brinquedo, eu entendi o recado, viro o rosto pra Angélica e ela continua olhando alguma coisa pela janela, procurando alguma coisa talvez entre aquelas plantações verdes, é assim que eles vivem, sobrevivem, é da onde vem o dinheiro e Angélica sabia disso, sabia desde o início.

‘então, pra gente te manter vivo, o senhor precisa colaborar, o senhor já tem uma vantagem, mostrou seu valor, trouxe a entrega do jeito que devia ser, isso vai ser muito útil pra o que a gente faz aqui, mas esse valor ainda tem que ser provado’

ele engata a arma com uma rapidez inacreditável e a põe de volta na mesa, no mesmo lugar, do mesmo jeito, o cano me encarando, ele me encarando, os outros caras me encarando, se é pra lutar pela vida, eu tinha que contar a história.

‘nós matamos um dos seus’

Angélica, que parecia nem prestar atenção no que ocorria ali dentro, começa a falar, anda em direção à mesa e para do meu lado, de pé, não entendi o que ela pretendia dizendo aquilo, mas o foco já não era eu, eu podia ter um pouco mais de tempo agora.

por Luciano Cabral

Não percam, na próxima semana, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Caixas de Sobra – Ep. 26

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Por Rahulbarfa. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/Gun-320936740)

Os músculos dos ombros se contraem. A respiração fica mais tensa. Os lábios se comprimem. Não é um ruído ou um som de carro, mas a fisiologia dos homens que anuncia a chegada do chefe, como leões que se retraem com a aproximação do alfa. Os homens estão menos expansivos; eu já quase não existo. Seguro a caixa que devo entregar, uma caixa que desconheço o conteúdo. Pra mim, que conheço o peso e o poder de uma caixa, há ali uma imensidão.  

Então as vozes se multiplicam sobre mim em enxurrada.

            – Então é esse aí?

            – Sim, chefe.

            – Teu nome é Passos, né?

            Resmungo.

            – Relaxa. Tu sabe que os caras andam falando muito de você. Mas a galera da comunidade disse que tu é tranquilão mesmo.

            – Eu só tô morando por lá agora…

            – Não fica assustado. A gente só pergunta porque quer saber. Aquela gente precisa de alguém pra por ordem. E não é toda hora que chega alguém de fora, com a polícia atrás.

            Percebo que ele segura uma arma, como um brinquedo, parece leve nas pontas dos dedos.

            – Isso daí é pra mim?

            Confirmo e entrego tão rápido como se estivesse queimando minhas mãos. Ele abre com uma delicadeza muito maior do que eu esperava, rasgando a fita ao redor. Eram eletrônicos. Eletrônicos. Peças e celulares e CDs. O suor escorre de meu rosto e eu sinto que ele debocha de mim. Num CD pode caber a imensidão.

            – Então, cara, vai falando. A gente quer sabe tudinho. Tem gente espreitando aí. Aqui tu tá seguro. Mas a gente só quer saber que bicho que botamos pra dentro de casa.

            Busquei o olhar de Angélica, mas não o encontrei.

            – Tinha gente procurando por mim? Além da polícia?

            – Cacete, quem é que tá fazendo pergunta aqui? A verdade é que tu pode ser um problema. Eu só quero descobrir se tem um bom motivo pra não te mandar pra lá de volta, vivo ou morto. Então pode contar. Conta tudo. Tudo.

Lucas M. Carvalho

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

Escrever com rapidez…

por Luciano Cabral

A escolha do título foi proposital. Mas já esclareço que, quando falo em rapidez, não me refiro à “como escrever um livro em 4 semanas” ou coisa que o valha. A rapidez de que quero falar hoje está ligada a uma estratégia do escritor ou da escritora, quando se perguntam: “Devo acelerar a narrativa aqui ou devo ir mais devagar?”. Bom, isso depende. Mas, antes de continuar, gostaria de contar uma antiga lenda.

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[https://pixabay.com/en/hands-writing-words-letter-working-1373363/]

“O imperador Carlos Magno, já em avançada idade, apaixonou-se por uma donzela alemã. Os barões da corte andavam muito preocupados vendo que o soberano, entregue a uma paixão amorosa que o fazia esquecer sua dignidade real, negligenciava os deveres do Império. Quando a jovem morreu subitamente, os dignatários respiravam aliviados, mas por pouco tempo, pois o amor de Carlos Magno não morreu com ela. O imperador mandou embalsamar o cadáver e transportá-lo para sua câmara, recusando separar-se dele. O arcebispo Turpino, apavorado com essa paixão macabra, suspeitou que havia ali um sortilégio e quis examinar o cadáver. Oculto sob a língua da morta, encontrou um anel com um pedra preciosa. A partir do momento em que o anel passou às mãos de Turpino, Carlos Magno apressou-se em mandar sepultar o cadáver e transferir seu amor para a pessoa do arcebispo. Turpino, para fugir àquela embaraçosa situação, atirou o anel no lago Constança. Carlos Magno apaixonou-se então pelo lago e nunca mais quis se afastar de suas margens”.

Eu trouxe esta antiga lenda porque acredito que ela é um ótimo exemplo de rapidez. Em poucas linhas, aprendemos que um imperador está apaixonado, que sua amada morreu, que seu amor permanece, que sua dignidade falha, que há barões preocupados, que um arcebispo desconfia de algo, que há uma breve atração homossexual do imperador pelo arcebispo, que a culpa é de um anel e que o amor do imperador repousa, na verdade, no fundo do lago.

Essa lenda (como todas as lendas) tem várias versões. Algumas não tratam do homossexualismo, outras dão mais importância ao amor do casal, e outras enfatizam a preocupação dos barões e a detetivesca empreitada do arcebispo na sua busca por uma resposta. No entanto, parece que, em todas elas, é a concisão dos fatos, a economia das palavras que garante a eficácia da lenda. Ou seja, é a rapidez que determina a qualidade desta história.

Se tua intenção, ao escrever, for criar um efeito de choque, de surpresa ou de arrebatamento, abrir mão de detalhes e divagações é um caminho. A tensão que se pode produzir com a narrativa acelerada, as informações escassas e as descrições mínimas é bem interessante.

Entretanto, há momentos em que a lentidão também pode ser bem eficaz. E estrategicamente, são os detalhes, as descrições minuciosas e as divagações que contam nessa hora. Mas “escrever com lentidão” será assunto pra outro momento.

Até lá.

Caixas de Sobra – ep. 21

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Disponível em: https://pixabay.com/en/red-couch-weathered-couch-sofa-66819/

nem mesmo Sun Tzu conseguiu resistir dentro do meu bolso, se a guerra é uma arte, eu devia ter orgulho do artista em que me tornei, eu pensava na pergunta de Angélica e na resposta que escaparia da minha boca se não tivesse sido aniquilada pelo meu sorriso, não há orgulho algum nisso, acho que Angélica esqueceu a pergunta que fez, parecia mais atenta às unhas do que à conversa, a televisão falava e falava, como se estivesse realmente procurando interação, olhei pra Angélica ali ao meu lado cutucando os dedos, vez ou outra levantando a cabeça pra olhar pra tela e eu conseguia enxergar mais coisas dentro daqueles olhos do que no horizonte de uma estrada em linha reta, de repente, ela já estava de frente pra mim, cara a cara, acho que ainda procurava a resposta que eu não dei, corria a ponta do dedo pelas rugas dos meus lábios, as unhas pintadas com o mesmo tom daquele sangue misturado aos estilhaços de vidro e fios de cabelo do carro, ela veio pra cima de mim como um bicho selvagem, subiu no meu colo e meu peito começava a dar sinais de entrega, suas mãos amassavam meus ombros e eles cediam tão fácil quanto pedregulhos jogados sobre papelão, pensei em empurrá-la pra longe mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, ela já desabotoava a blusa e exibia o contorno rosado dos seios, acho que ela estava esperando que eu fizesse alguma coisa, eu pensei em fazer alguma coisa mas achei melhor que ela fizesse, seu corpo pesava sobre o meu quadril e sua pele reluzia a propaganda da TV, ela agarrou minhas orelhas e puxou meu rosto até a sua barriga e eu não tive escolha senão deixá-la meter meu nariz no seu umbigo, o cheiro que eu senti era o mesmo do meu terno desbotado, lavado, usado na primeira vez que eu encontrei os onze, ela afastou meu rosto, desmontou do meu colo e ficou de pé, seus seios pareciam mais pesados do que antes, eu continuava deitado no sofá, sem saber como reagir, ela deu alguns passos pra trás e olhava pra baixo, desabotoou a bermuda e descia o zíper devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, o brilho da TV trovejava sobre aquele corpo seminu que mais parecia ilusão, ela ainda deu mais alguns passos pra trás quando o zíper atingiu a parte mais baixa da bermuda, ela parou, acariciou os pelos que apareceram e perguntou.

“o que tu vendia?”

Angélica cutucava os dedos, a televisão falava e falava, olhei pra ela e sua blusa  tinha todos os botões abotoados, eu continuava sorrindo, tentando aniquilar a resposta mas percebi que dessa vez isso não seria suficiente.

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta, 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra. Continuar lendo

O começo da história: a primeira impressão é a que fica

por Luciano Cabral

O título deste pequeno texto talvez fale mais para o leitor do que para o escritor. Porque, quase sempre, a primeira frase que lemos não é a que o autor tinha em mente quando pensou sua história. Há começos de histórias que não cativam (embora não signifique que o que virá não cative). Mas há começos que ficam. Alguns são uma óbvia apresentação, como em Moby Dick, Chamem-me simplesmente Ismael. Daqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso. Outros apóiam-se em frases bem conhecidas, como em O Psicopata Americano, “Perca toda a esperança aquele que aqui entrar” está rabiscado em letras com de sangue na parede no edifício do Chemical Bank. Há outros ainda que optam por confundir o relato, como faz o narrador em A Lua Vem da Ásia, Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? Logrei ser absolvido por 5 votos a 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E há, além disso, aqueles que se dirigem a nós leitores, como Dom QuixoteDesocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar.

Mas estes exemplos são de frases de abertura de obras já acabadas, prontas. Quando a história ainda é apenas um emaranhado de ideias na cabeça, vale a pena se perguntar: como começar a história?

Começar uma história não é uma decisão banal. Muitas vezes, a primeira impressão é a que fica. Pode-se escolher por começar do começo, ou seja, abrir a narrativa com algo que lembre princípio, origem, início – o nascimento, a infância, as primeiras horas de um dia, o dizer o nome, o acordar pela manhã. Por falar nisso, deste último temos A Metamorfose, Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intran­quilos, em sua cama meta­morfo­seado num inseto monstruoso. Ou pode-se preferir começar do meio, deixando várias pistas que serão desvendadas (ou não) no recorrer da leitura. Cem Anos de Solidão é assim, Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. E pode-se até começar pelo fim, daí termos como melhor exemplo, Memórias Póstumas de Brás CubasAlgum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

As opções são muitas e variadas para quem escreve. A decisão requer, acima de tudo, saber qual o efeito que se busca ao se eleger esta ou aquela frase inicial. Começar pelo começo é uma boa estratégia para quem quer que o leitor crie intimidade com o personagem. Por outro lado, começar pelo meio aguça a curiosidade, uma vez que pistas serão deixadas logo nas primeiras páginas. Por último, começar pelo fim obriga o leitor a acompanhar o personagem até que o ciclo se feche, quando a história é concluída e tudo faz mais sentido.

Para mim, uma boa história deve começar com uma boa frase. Do contrário, não me cativa. O resto da narrativa pode ser excelente. Contudo, sem um começo cativante, sempre fica a sensação de que algo está fora dos eixos. Saber como alcançar o efeito desejado pode fazer toda a diferença. Pode fazer com que a primeira impressão fique.

O grande desastre, por Luciano Cabral

Hoje, eu gostaria de oferecer uma pequena história, intitulada O Grande Desastre, sobre a reação de alguns tipos humanos momentos antes de um desastre aéreo. Este conto também foi publicada na revista Escrita PUC-Rio, este ano. Deixo, logo abaixo, um trecho. Caso você queira lê-lo inteiro, clique no link. Boa leitura.

“[…]e volta ao seu livro suicida de autoajuda, por falar em pernas, duas dançarinas espanholas discutem sobre a apresentação que fizeram dois dias atrás, elas se elogiam copiosamente, mas na verdade uma acha que sua coreografia e figurino são de vanguarda, a outra acha que aquilo não é dança, é cena de filme pornográfico, uma outra moça de óculos grandes dorme profundamente, ela é cega, não usa cão-guia nem bengala, as turbinas param de funcionar, o piloto recorre a todos os botões e alavancas possíveis para uma situação como esta, faz contato com a torre de controle de tráfego e informa que não sabe o que está acontecendo, terá que fazer um pouso forçado em qualquer lugar, não fará […]”

O Grande Desastre (completo)

 

Quem tem medo de fluxo de consciência?

“Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo; eu estava deitado no assoalho do meu quarto, numa velha pensão interiorana, quando meu irmão chegou pra me levar de volta; minha mão, pouco antes dinâmica e em pura disciplina, percorria vagarosa a pele molhada do meu corpo, as pontas dos meus dedos tocavam cheias de veneno a penugem incipiente do meu peito ainda quente; minha cabeça rolava entorpecida enquanto meus cabelos se deslocavam em grossas ondas sobre a curva úmida da fronte; deitei uma das faces contra o chão, mas meus olhos pouco apreenderam, sequer perderam a imobilidade ante o voo fugaz dos cílios; o ruído das batidas na porta vinha macio, aconchegava-se despojado de sentido, o floco de paina insinuava-se entre as curvas sinuosas da orelha onde por instantes adormecia; e o ruído se repetindo, sempre macio e manso, não me perturbava a doce embriaguez, nem minha sonolência, nem o disperso e esparso torvelinho sem acolhimento; meus olhos depois viram a maçaneta que girava, mas ela em movimento se esquecia na retina como um objeto sem vida, um som sem vibração, ou um sopro escuro no porão da memória; foram pancadas num momento que puseram em sobressalto e desespero as coisas letárgicas do meu quarto; num salto leve e silencioso, me pus de pé, me curvando para pegar a toalha estendida no chão; apertei os olhos enquanto enxugava a mão, agitei em seguida a cabeça para agitar meus olhos, apanhei a camisa jogada na cadeira, escondi na calça meu sexo roxo e obscuro, dei logo uns passos e abri uma das folhas me recuando atrás dela: era meu irmão mais velho que estava na porta; assim que ele entrou, ficamos de frente um para o outro, nossos olhos parados, era um espaço de terra seca que nos separava, tinha susto e espanto nesse pó, mas não era uma descoberta, nem sei o que era, e não nos dizíamos nada, até que ele estendeu os braços e fechou em silêncio as mãos fortes nos meus ombros e nós nos olhamos e num momento preciso nossas memórias nos assaltaram os olhos em atropelo, eu eu vi de repente seus olhos se molharem, e foi então que ele me abraçou, e eu senti nos seus braços o peso dos braços encharcados da família inteira; voltamos a nos olhar e eu disse “não te esperava” foi o que eu disse confuso com o desajeito do que dizia e cheio de receio de me deixar escapar não importava com o que fosse lá dizer, mesmo assim eu repeti “não te esperava” foi isso o que eu disse mais uma vez e eu senti a força poderosa da família desabando sobre mim como um aguaceiro pesado enquanto ele dizia “nós te amamos muito, nós te amamos muito” era o que ele dizia enquanto me abraçava mais uma vez; ainda confuso, aturdido, mostrei-lhe a cadeira do canto, mas ele nem se mexeu e tirando o lenço do bolso ele disse “abotoe a camisa, André”.

Há quem diga que narrativas de fluxo de consciência são difíceis, seja para o leitor ou para o escritor. A questão é que, se não for bem feito, a história tende a se arrastar, a ficar lenta demais, e certamente aborrecerá o leitor. Mas o fato é que o fluxo de consciência é uma estratégia eficaz para quem almeja puxar o leitor para o mais próximo possível do personagem.

O termo foi cunhado por William James, psicólogo americano irmão do escritor Henry James. Em literatura, ele se refere à sucessão contínua de pensamentos da mente humana. Entendida como caótico, rebelde e incontrolavelmente associativo, o pensamento tende a caminhos sinuosos e confusos. O que narrativamente o fluxo de consciência faz é imitar estas características da mente enquanto o personagem conta sua história.

Um dos romances mais interessantes para se ver esta estratégia é o Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar. O trecho acima é o capítulo que abre o livro. Nassar não extrapola o fluxo (como faz James Joyce, em Ulisses), mas se utiliza dele para tratar de temas espinhosos como intriga familiar, tradição, profanação e incesto. Atados ao pensamento do personagem André, nós leitores já mergulhamos na privacidade do protagonista: ele se masturbava no momento em que seu irmão bate à porta.

Esteticamente, Lavoura Arcaica envolve não apenas por nos obrigar a ser íntimos do protagonista, mas também por lançar mão de metáforas e associações imagéticas, como esta: “se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero”.

Admito que não é fácil escrever usando fluxo de consciência. É algo desafiador, a meu ver. No entanto, não se deve ter medo dele. É preciso ter grande controle da narrativa para que a coisa dê certo. É preciso remodelar as conjunções, as vírgulas e os pontos (e talvez até abrir mão deles). Tendo criatividade e técnica em mente, o resultado pode ser gratificante para o escritor. E mais ainda para o leitor.