Caixas de Sobra – Ep. 34

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uma serpente cruza o caminho de Passos, ele cruza os dedos lembrando as contas do rosário, sibila um verso da oração antiga, vade retro

a serpente continua seu rastejar em busca de

alguma centelha de esperança que se esforça por se manter viva, não foi para isso que dera a palavra? agora o problema é lutar pela vida, ainda haveria tempo para? pela vida de Angélica, já se distanciaram alguns metros da pedra sacrificial, ou do possível milagre, parece ouvir os fracos batimentos de um corpo em vias de se extinguir, mas confia nos ventos salutares da madrugada, futuro sopro revigorante

falaria ao chefe

Na mente de Santos Passos, Simeão ricto imparcial ainda acompanha o movimento, por que essa expressão?, continua seguindo os passos do gordo que ainda foge pela viela, vira à esquerda, entra num dos barracos, Passos e Simeão agora correm qual anjos justiceiros, viram à direita, a noite se adensa sobre os corpos, os ventos emitem sussurros de chuvas em aproximação, algumas gotas se precipitam sobre ambos que se apressam em direção ao chefe

perguntaria a ele, talvez exigisse, não, não, não poderia exigir estando naquela situação, Angélica ali reforça sua condição

por Gabriel Sant’ana

E não perca, na próxima quarta, às 20h, mais um episódio de Caixas de Sobra.

“I.H.P.I.H.P”, por Gabriel Sant’Ana

“As atuais pesquisas do Instituto de Progressos Educativos determinam que sejam desenvolvidas competências cognitivas e socioemocionais, sendo necessária uma reformulação dos currículos, grades de horários, arquitetura físico-mental dos equipamentos escolares.

Fica determinado o fim do uso da palavra “escola”. Todos os espaços deverão ser responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos cidadãos, de acordo com suas especificidades. ”

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As distopias, principalmente as clássicas, são caracterizadas por sociedades autoritárias, em que há um grande controle sobretudo da língua, e consequentemente do pensamento. A novilíngua para Orwell, a restrição à literatura em Huxley, qualquer expressão não ordenada logicamente em Zamyatin. Gabriel Sant’Ana, com grande apreço por uma literatura fragmentária, traz um recorte dessas regras por trás de uma sociedade regida por curiosos princípios. Dando ao leitor acesso apenas a uma pequena fresta desse mundo, cabe a nós o trabalho de recheá-lo, ou explorar sua, ainda que breve, complexa superfície.

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“Fodase!”, de Gabriel Sant’Ana

“Palavrão arranhado no assento, próximo às pernas, sinal emblemático da posição em que o corpo tenta reorganizar suas forças desestabilizadas, nesta posição as mãos apoiam a cabeça para que não sofra tanto com a pressão da gravidade da situação, e também as mãos que se sustentam ao contato sofrível dos cotovelos sobre a calça, neste momento se amarrotando, e também a blusa perdendo o alinhamento dado previamente pela doméstica há tempos da família.”

Dr. Jorge Felipe foi uma figura central no incidente. Diversas vezes citado no caderno de P., não há contudo nenhum registro oficial de sua experiência durante o evento. Coletando as informações encontradas sobre o problemático ex-PM, tentamos reconstruir um pouco do que deve haver sido suas primeiras impressões da súbita parada do Metrô.

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“Tollebat citharam (I Sm 16, 23)”, por Gabriel Sant’Ana

dedilhava delicadamente
de Saul a cítara e o sentimento
recedendo o outro espírito
ressentido
rasgando ao sair com garras
a pele pelo sumo divino esquecida

leves ficando os humores
por dedos leves
assovios harmônicos

impaciente e grave rosto
brando e suave formando

antipático demônio
de traços grosseiros
incitando à diva aversão cítara
pesado corpo real sacoleja
babas expelindo esverdeadas
revirando seus olhos
grossa voz sair da boca faz
impropérios e ameaças e gritos

dedilha mais suave
ao ouvido quase inaudível
seu corpo e suas mãos
em dança angelical
do possuído se afastam

a cair pelo próprio
nó das pernas difusas

um novo hino sai da minha boca
para enaltecer tua vitória
sobre toda força brusca e animal.
não precisas a esta ser igual.
basta a ti a leveza inaudível
de harmoniosos instrumentos.
a ti bastam mãos delicadas
dedilhando por tua inspiração

o silente som

Eu sou

Eu sou

“outra vez bolo de nozes”, por Gabriel Sant’Ana

insistentemente bate com o martelinho a noz para fazer o esperado bolo de nozes deste natal com nosso punho fortemente mãos seguras firmemente estraçalhando em miúdos pedaços as nozes repete as batidas em agressividade crescente constantemente daqui algumas horas virão nossa sogra nossos sobrinhos com seus sorrisinhos felizes de uma felicidade oca e transparente seus presentes empacotados tão belos quebrando minha expectativa porque não irei ganhar aquela roupa que vi na loja quando estava em madureira hoje mais cedo porque não fica bem para tac tac rude esfrangalhar nossos dedos mais vermelhos palmas das mãos avermelhando no martelo alguns pedaços vão para longe no chão do lado de fora da casa tô com fome mãe vem logo o que tem pro almoço ô garoto se vira anda logo pega um biscoito aí dentro do armário parece estar se rachando mais forte com força viril animal estranhamente humana húmus em terra em noz misturando carne pele sangue arenitos nozes para o bolo tradicional da noite natalina no ambiente familiar agradável quero mesmo triturar quero muito mesmo porque mas naquela loja a roupa não estava na promoção vi a mesma roupa em outra loja mais barato que absurdo já veio a fatura do mês merda de brinquedinhos que tive que comprar pra essas crianças que não fazem nada o ano todo aumenta o suor seu rosto pingando indo para a boca entreaberta não sentimos sede apesar do sol das onze horas da manhã de dezembro plena sexta quando deveria estar à beira da praia tomando minha cervejinha me jogando no mar pedindo as bênçãos tirando todo fardo de mim com a água salgada mas não isso não posso porque o bolo deve estar pronto para quando chegarem porque se não estiver irão perguntar cadê o seu delicioso bolo de nozes ficarão espantados quando mandar todos à merda se foda esse bolo de merda de areia misturada sangue dos meus dedos nossos triturando mais nozes quase todo o saco que comprou ontem no mercadinho da esquina animal suando olhos inflamados o garoto não voltou a perguntar pelo almoço se dane a hora do almoço batendo no chão com o martelinho movimento máximo da mais pura manifestação martela agora as paredes da varanda ficaria melhor assim repete mais vezes o filho ouve o barulho corre para ver ela corre atrás dele se tranca no banheiro não mãe não faz isso por favor cala a boca merda quebra os vidros da sala tritura os restos de nozes que tinham se espalhado pelo bater desenfreado não queremos mais parar as marteladinhas não mais desejamos deixar unidas as coisas mas separar destruir os pratinhos que os familiares irão trazer esta noite serão deliciosos titia o frango assado meu avô o velho vinho tinto tudo perfeitinho e lá vai mais uma noz parar longe havia errado a mira sentimos o estômago doer a cabeça um tanto corre até a cozinha para pegarmos a vassoura juntaremos todos os cacos e nozes e sangue e pele e areia e concreto depois do almoço e do cochilo irá preparar como há mais de vinte e cinco anos

“M.N.”, por Gabriel Sant’Ana.

“Uma forte emoção faz vibrar Manuela. As imagens borradas de sua infância vão se desembaraçando. Inconsciente, sua mão desliza sobre as cicatrizes da nuca e das costas. Não foram pela queda da bicicleta ou do balanço quando tia Ilda a levava ao parquinho da praça… Não poderiam ser.”

Após o intrigante caso conspiratório alemão de “Deutsch Geister“, nossas investigações nos trazem de volta ao Brasil. Entre cartas antigas, recortes de jornal e segredos de família, Manuela revela um passado cada vez mais perturbador.

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“Retorno para ti”, de Gabriel Sant’Ana

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“Sr. Banvu, demonstrações de nervosismo, mesmo para pessoas da sua idade, são um sério sinal. Seria melhor, para o próprio encaminhamento das investigações, que o senhor cooperasse, inicialmente se acalmando. Os mais nervosos são sempre mais difíceis e nos forçam ao que não seria necessário. Veja estas fotos. Consegue nos dizer o que o senhor conversava com este homem? Ou se lembrar do que conversavam?”

Após uma longa jornada de cinco semanas pelo globo, enfim pousamos em Cabinda, Angola, nosso destino final. Gabriel Sant’Ana traz, em “Retorno para ti” a imagem de um país marcado pela violência, um conto sobre poder e impunidade.

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“Cuidado, piso molhado!”, por Gabriel Sant’Ana

Dubai Mall, por Kris K.G. (Disponível em: http://lostknightkg.deviantart.com/art/Dubai-Mall-172455252)

“(…) Existem várias formas, maneiras de se matar alguém. Não perderia tempo estudando medicina, de que adianta saber os nomes dos músculos, ossos, veias, se o que importa mesmo é o sofrimento da vítima? Aquele shopping, aquelas pessoas, aquela situação, aquele ar condicionado, aquele médico, aquele trem, aquela sua casa, aqueles seus parentes, seus vizinhos.”

Dando continuidade ao tema Terror iniciado na semana passada com Auspício, de Lucas M. Carvalho, o Poligrafia traz uma perturbadora história pelas mãos de Gabriel Sant’Ana. Depois de ler “Cuidado, piso molhado!”, as praças de alimentação e banheiros de shopping centers com certeza não serão vistos da mesma maneira…

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