“Tesseract”, por Jonatas T. Barbosa

“Não consegue ver bem o próprio rosto. Respira fundo. Conduz a navalha, observando os borrões de pasta de dente. Encosta o fio à altura da garganta. Quando eleva o pulso, a lâmina escorrega. Ele ajustou mal o barbeador. A navalha está solta. Não sente dor a princípio. Mas se assusta quando põe o dedo e nota o fluido vermelho pingando no chão”.

O tesseracto, também conhecido como hiper cubo, é um polícoro. Isso significa que ele é um objeto tetradimensional. Da mesma forma que uma sucessão de quadrados perpendiculares é capaz de formar um cubo, uma série de cubos perpendiculares é capaz de formar um tesseracto.  Enquanto seres da terceira dimensão, não podemos mais que fingir que imaginamos um tesseracto, uma vez que sua real forma, disposta ordenadamente pela quarta dimensão, nos escapa à representação visual. Resistindo, assim, ao sensível, o tessaracto apenas pode ser capturado de duas formas: através da rede rígida da matemática ou da movediça areia da literatura. Uma vez que nos foge o domínio das regras geométricas, oferecemos aos leitores, hoje, um hiper cubo de letras.

Ler “Tesseract”

Mais sobre o autor

“Saída de emergência”, por Jonatas T. Barbosa

“O ruído das caixas de som dessa vez viera agudo, quase inaudível. Todavia, ele compreendera bem a mensagem, o sinal. Nada havia começado ainda. Era apenas um prelúdio. Um círculo familiar onde fim precedia o princípio. Um túnel aberto. Atravessava o tempo e o espaço, dentro e fora de sua mente. O caminho direto para seu próprio Inferno”.

O único corpo oficialmente encontrado nos trilhos do metrô na época do Incidente foi o de um jovem, entre os 20 e 30 anos, roupas simples, apenas o celular, uma carteira sem documentos e um isqueiro no bolso. O laudo da perícia médica indicou grandes doses de antidepressivo e outras drogas de uso controlado em seu sistema. Em comunicado oficial, o MetrôRio informou que o rapaz havia entrado na estação após o fechamento dos serviços,provavelmente sob o efeito de entorpecentes e morreu no meio dos túneis da linha 1. No Reddit, usuários não tardam em conectar o caso ao Incidente Glória, criando as mais diversas teorias. Jonatas Tosta, hoje, apresenta um conto baseado na possível experiência desse jovem durante o evento.

Ler “Saída de emergência”

Mais sobre o autor

“Ódio ao lado”, por Jonatas T. Barbosa

“Não devia ter reagido, sr. Lang. Não devia ter voltado pra casa. Não devia ter pego a arma escondida na sala. Deve ter se assustado com o sangue na soleira dando boas vindas. A natureza é simples. A natureza não usa fantasia de Deus. Ele não entendeu na primeira vez. Aquele cheiro de tripas assadas com merda dentro. Nem entendeu a segunda vez. Meu amigo Lang só ficava rindo e acenando do outro lado do muro. “Quer participar do nosso círculo de oração?”

Um bairro tranquilo, vizinhança aparentemente sempre alegre sorridente. Você passa de carro e acha que entrou em alguma cena de algum filme american way of life. Mas o cadáver no andar de cima é um lembrete que paz e harmonia é uma cortina frágil. Assim que o mais leve vento sopra, a verdade surge. E ela fede à decomposição e ódio. Quer mesmo saber a história desse corpo aí? Pegue algo para beber antes, relaxe um pouco a cabeça. Está bem? Você que sabe… Aqui estão as palavras do assassino:

Ler “Ódio ao lado”

Mais sobre o autor

 

“Mikhail recebe uma carta”, por Jonatas T. Barbosa

“Em período de paz o sol não nascia naquele lado do mundo. Era como se aquelas terras frias houvessem mergulhado num fluído negro e fossem assim esquecidas pelo céu.”

O calor do oriente médio parte e com ele partem a Fez de “Mosaico” e a Jerusalém de “Via Dolorosa”. Em meio a neve, conheça a Sibéria de Jonatas T. Barbosa em “Mikhail recebe uma carta”.

Ler “Mikhail recebe uma carta”

Mais sobre o autor

“Praia do urso”, por Jonatas T. Barbosa

“Rabbit”, por Szigeti Vajk Istvan. (Disponível em: http://vajk.deviantart.com/art/Rabbit-29567369)

“Marie despertou vomitando água salgada que escapulia pelo nariz e sentindo o fedor de pelo molhado. Não sabia quanto tempo se passara, mas já estava escuro. A lua minguava como uma lâmina. Ela sentia apena dor de cabeça. O resto do corpo parecia ileso. Passou a mão pela barriga, flanco e coxas. As pernas estavam livres, mas dormentes. Tentou mover uma a uma, elas não respondiam. Continuavam imóveis.”

Os ponteiros se aproximam de meia-noite e surge das sombras o penúltimo conto de nossa série Terror. Sucedendo “Carne de Bicho, Carne de Gente”, de Luciano Cabral, Jonatas T. Barbosa nos apresenta “Praia do urso”. Acompanhe conosco a história de Marie e seu curioso bestiário vegano.

Ler “Praia do urso”
Mais sobre o autor