A literatura deve falar de estupro?

Por Luciano Cabral

“[…] Pereba desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, eu disse.

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de frozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as joias […]”.

O recente caso do estupro coletivo ocorrido em Jacarepaguá, contra uma jovem de 17 anos, mobilizou muitos. O repúdio ao ato foi gigantesco, como deveria ser. Crimes contra a mulher são frequentes e, de acordo com o documentário Filhas da Índia, são globais. O caso instigou também comentários no Wattpad Brasil. Compreensível, pois o crime é hediondo. Entretanto, a discussão (como não poderia deixar de ser) girou em torno das obras literárias que tematizavam este ato. A questão é polêmica e pode ser resumida nesta pergunta: A literatura deve falar de estupro?

O excerto que abre esta postagem é um fragmento do conto Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Esta narrativa é dada sob a perspectiva do criminoso que, certamente, não demonstra qualquer compaixão pela vítima. As histórias de Fonseca dão conta de um Brasil violento, mas que não se reconhece como tal (elas motivaram, inclusive, a criação do termo literário brutalismo). Recolhido pelo Departamento de Polícia Federal em 1976, o livro de contos foi proibido de circular por “exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes”.

O romance American Psycho, do estadunidense Bret Easton Ellis, é outro exemplo de censura por narrar a violência contra mulheres. A história de Patrick Bateman, um rico homem de negócios que não esconde de seu leitor sua misoginia, racismo e seus crimes, foi rechaçada por colunistas de jornal e organizações em favor da mulher. Por conta disso, seu contrato com a editora foi quebrado antes mesmo de sua publicação.

Ainda que alguns argumentem que ela de nada serve, acredito que a literatura tem suas funções. Ela não deve panfletar, tomar partido ou ser submissa. Todos os temas devem ser possíveis dentro da estética narrativa de seu espaço.Em outras palavras, ela não deve ser inocente. Daí, o estupro tornar-se um de seus temas.

A literatura deve falar esteticamente de estupro para que nossas fraquezas humanas sejam expostas, para que nossos comportamento sociais sejam rediscutidos. Certos livros são censurados por atentar aos bons costumes. Certos costumes são naturalizados porque censuramos quem fala sobre eles. O estupro, que muitos já alegam ser uma cultura, deve permanecer nas histórias para que a História seja outra.

O que nos faz escrever bem: inspiração ou técnica?

Blank Pages, por “Andrahilde”. (Disponível em: http://andrahilde.deviantart.com/art/Blank-Pages-182674359)

por Luciano Cabral

 

A pergunta que faço hoje tem origem numa dicotomia instigante, embora espinhosa: escrever bem é fruto de inspiração ou técnica? Ou posso perguntar, mais filosoficamente, deste modo: nascemos escritores ou nos tornamos escritores?

No poema Theogonia, de Hesíodo, as Musas são personificações da memória absoluta (por transmitirem o passado) e da criatividade e imaginação (por conhecerem o futuro). Por esta razão, elas eram constantemente invocadas pelos poetas em suas narrativas, pois tinham o poder de inspirá-los e fazê-los produzir belos poemas.  Em A Odisséia, Homero abre seu poema épico pedindo à Musa que reconte os feitos de Odisseu e Camões, em Os Lusíadas, pede ajuda às ninfas do Rio Tejo, as Tágides (por ele assim nomeadas), para que possa contar as peripécias lusitanas. Notemos que a invocação é por inspiração. Nada se fala de técnica.

Quem falou de técnica literária, de forma objetiva (e creio eu, bem feita) foi Edgar Allan Poe, em 1846. Ele não invocou a técnica em poesias, mas tratou dela em um ensaio sobre um poema seu bem conhecido, O Corvo. No ensaio, Poe revela cada passo que deu ao escrever seu poema e defende que produzir literatura é uma questão de escolha (leia-se, técnica) e não de inspiração: “Dentre os inúmeros efeitos ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual, escolher?”.

Alguns de nós podem dizer que a inspiração per se não traz benefícios. Outros que inspiração é tudo o que há no momento de criação literária. Há ainda os que alegam que a disciplina substitui a inspiração. Há outros de nós ainda que pensam que a técnica per se é fria e dada a fórmulas que, ao invés de inovar, promove repetições insossas e infinitas.

Se escrever literatura for consequência de uma genialidade (como pensavam os poetas românticos), então, aos que acham que não nasceram escritores, eu tenho um conselho: nem tentem. Mas se o fazer literário for mais do que ser inspirado por musas, então temos a chance de adentrar o mundo literário. Talvez não seja nem inspiração nem técnica. Ou  talvez seja os dois.

O que você acha? Intrometa-se.

A política brasileira hoje e Machado de Assis

Neste momento de instabilidade política no país, uma figura literária do século XIX parece ter percebido o que nós ignoramos. Se a direita e a esquerda são antagônicas fora do planalto, dentro dele as coisas parecem seguir o rumo da conveniência. E eis que Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, brinda-nos com seu sempre ironicamente ácido comentário sobre o cenário brasileiro (de outrora e de agora). Estas palavras estão no livro “Machado de Assis, um gênio brasileiro”, de Daniel Piza:

“O conselheiro representa uma elite antiquada, mais preocupada com suas fofocas e fortunas do que com o coletivo. Tristão, no outro pólo, representa uma nova geração que se aproxima da política para ascender socialmente, que defende uma ideologia em cada ambiente em que está, que tem caráter volátil e ganancioso. Em outras palavras, eles são muito diferentes e muito parecidos. Quando cronista da vida parlamentar, Machado sempre mostrava que os liberais e os conservadores usavam estes rótulos de acordo com suas conveniências, e que a diferença era estar ou não no poder […].”

E não esqueçam de intrometer-se em nossas histórias. É só clicar!

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