Caixas de Sobra – Ep. 28

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O rosto de Passos estava emoldurado por suor. A testa estava tão quente que mal ouvia as palavras de Angélica. Ele não compreendeu bem o que pretendia, mas funcionou. Era só manter a calma. O chefe se inclinou para frente exalando um cheiro de Leite de Rosas.

– Mataram um dos nossos, é?

– Sim. Não teve o que fazer. Mas a gente-

– Cala a boca, piranha. Deixa o amigo caixa falar.

 

O suor brotou abundante na testa e caiu no olho. Passos respirou fundo e começou. A ponta dos dedos tremiam. Abriu a boca e falou. Cada som atropelava o seguinte, como se vomitasse. Outra gota pingou do queixo e se avolumou na superfície de madeira. Mais algumas e a poça encostaria no cano da arma. Ao terminar, o chefe girou a arma e disse:

– Senhor caixa, você vai ter que contar tudo de novo. Não tô entendo nada.

– Desculpa.

– Não precisa ficar nervoso. É só falar uma coisa de cada vez.

Santos enxugou a testa com a mão trêmula e engoliu o resto de saliva na boca. Olhou de soslaio. O rosto de Angélica era impenetrável. Não havia rastro de piedade nos olhos. O chefe estalou a unha no coldre da arma. O buraco escuro apontado para o peito de Passos esfriava o sangue.

– Vai por mim, caixa. Se tivesse que passar você, já teria passado.

Santos encolheu na cadeira como uma lesma coberta de sal. Ia meter a mão no bolso. Não o fez. Podiam entender mal. O chefe passava legítima sensação de tranquilidade. Mas o dedo indicador de cada um dos capangas estava no gatilho. Alguns pressionavam até a folga de segurança. A maioria deles estava ali não por necessidade, mas pelo hábito de matar. Começava com um gato, depois um primo numa briga. Não conseguiam parar. Poderiam disparar ao som de uma tosse. Encherem seu corpo de buraco.

Não havia nada no bolso além dos restos de Tzu, lembrou. Uma página riscada com o desenho de giz de cera.

Santos respirou fundo e abriu a boca. Agora foi pior. As palavras não saíam. Pareciam ter entupido a garganta.

– E-E-Eles. Sã-sã-

– Não tô entendendo porra nenhuma.

O chefe pegou a arma como se fosse feita de papel.

– São onze.

– Que onze? De que porra ele tá falando, Angélica?

O suor se misturou com as lágrimas que se acumulavam no canto dos olhos.

– Agora vai chorar?

Passos deslizou os dedos para debaixo da mesa. A mão se encaixou nos bolsos. Havia alguma coisa embolada num monte de contas. Um terço. Ele lembrou. A velhinha falou rápido. Só deu tempo de envolver a caixa e ir embora. Nunca rezou um terço. Passos ia à igreja durante a infância. Nunca gostou de rezar. Inclinava a cabeça. Pensava no jogo de futebol ou na menina que estava no banco lá trás. Só gostava das vezes que o sermão era sobre milagres. Os mártires e profetas pareciam super-heróis.

O cano encostou na testa. Santos espremeu o cordão entre os dedos. O fio se arrebentou.

– Se não vai falar, vou te ajudar. Vou desentupir sua garganta.

Sentiu o ferro descer ´pelo nariz e tocar a ponta do lábio.

– Os onze – engolindo lágrimas, falou.

O canto de Dona Tereza lá fora deu lugar uma turba de pernas. Uma sucessão de armas engatilhadas. O murmúrio dos homens engolido pelo gemido das mulheres lá fora.

Os olhos de Passos ardiam afogados no escuro. Ele se recusou a abri-los.

Jonatas Tosta

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Caixas de Sobra – Ep. 27

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violão poligrafia caixas de sobra.jpg

Por PurplePolkaDot. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/guitar-29584296)

 

se o coração é um rio que deságua

meu coração é água que salgou

rio que mata a sede e mata a alma

porque não traz alívio pra dor

ainda posso ouvir a voz de dona Tereza, aguda, farta, não é a melhor trilha sonora pra um momento como esse, mas é o que me acalma, olho em volta, a mesa, o fogão, um freezer num canto, um sofá no outro, Angélica ainda na janela com os olhos secos de cansaço, acho que nem está prestando atenção na conversa, eu ouço o chefe falar e me perguntar se eu sou um problema, ele quer que eu diga se eu sou um problema e eu nem saberia por onde começar, o timbre da voz dele é quase como o de dona Tereza.

‘quando a gente passa a viver longe da fumaça, dos carros, do concreto, a gente percebe que o tempo pode correr diferente, não é que ele fica mais devagar, nem menos furioso, não, mas o tempo aqui corre de outro jeito, eu  podia te dizer que a gente tem muito tempo por aqui, mas ele também passa, ninguém aqui quer te mandar de volta morto, viver é um privilégio, senhor Caixa, e todo mundo devia lutar pra se manter vivo, é o que eu faço, é o que a gente faz por aqui, não é, pessoal?

‘é, sim’

‘é isso, chefe’

‘a gente vive como pode’

as batidas do peito marcam

a saudade da minha terra

o rio agora é salgado

e corre todo na minha veia

o chefe se cala, como se esperasse que alguém mais dissesse algo, ele pega a arma e a coloca na mesa, o cano virado pra mim, não era um brinquedo, eu entendi o recado, viro o rosto pra Angélica e ela continua olhando alguma coisa pela janela, procurando alguma coisa talvez entre aquelas plantações verdes, é assim que eles vivem, sobrevivem, é da onde vem o dinheiro e Angélica sabia disso, sabia desde o início.

‘então, pra gente te manter vivo, o senhor precisa colaborar, o senhor já tem uma vantagem, mostrou seu valor, trouxe a entrega do jeito que devia ser, isso vai ser muito útil pra o que a gente faz aqui, mas esse valor ainda tem que ser provado’

ele engata a arma com uma rapidez inacreditável e a põe de volta na mesa, no mesmo lugar, do mesmo jeito, o cano me encarando, ele me encarando, os outros caras me encarando, se é pra lutar pela vida, eu tinha que contar a história.

‘nós matamos um dos seus’

Angélica, que parecia nem prestar atenção no que ocorria ali dentro, começa a falar, anda em direção à mesa e para do meu lado, de pé, não entendi o que ela pretendia dizendo aquilo, mas o foco já não era eu, eu podia ter um pouco mais de tempo agora.

por Luciano Cabral

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Caixas de Sobra – Ep. 26

gun-poligrafia-caixas-de-sobra

Por Rahulbarfa. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/Gun-320936740)

Os músculos dos ombros se contraem. A respiração fica mais tensa. Os lábios se comprimem. Não é um ruído ou um som de carro, mas a fisiologia dos homens que anuncia a chegada do chefe, como leões que se retraem com a aproximação do alfa. Os homens estão menos expansivos; eu já quase não existo. Seguro a caixa que devo entregar, uma caixa que desconheço o conteúdo. Pra mim, que conheço o peso e o poder de uma caixa, há ali uma imensidão.  

Então as vozes se multiplicam sobre mim em enxurrada.

            – Então é esse aí?

            – Sim, chefe.

            – Teu nome é Passos, né?

            Resmungo.

            – Relaxa. Tu sabe que os caras andam falando muito de você. Mas a galera da comunidade disse que tu é tranquilão mesmo.

            – Eu só tô morando por lá agora…

            – Não fica assustado. A gente só pergunta porque quer saber. Aquela gente precisa de alguém pra por ordem. E não é toda hora que chega alguém de fora, com a polícia atrás.

            Percebo que ele segura uma arma, como um brinquedo, parece leve nas pontas dos dedos.

            – Isso daí é pra mim?

            Confirmo e entrego tão rápido como se estivesse queimando minhas mãos. Ele abre com uma delicadeza muito maior do que eu esperava, rasgando a fita ao redor. Eram eletrônicos. Eletrônicos. Peças e celulares e CDs. O suor escorre de meu rosto e eu sinto que ele debocha de mim. Num CD pode caber a imensidão.

            – Então, cara, vai falando. A gente quer sabe tudinho. Tem gente espreitando aí. Aqui tu tá seguro. Mas a gente só quer saber que bicho que botamos pra dentro de casa.

            Busquei o olhar de Angélica, mas não o encontrei.

            – Tinha gente procurando por mim? Além da polícia?

            – Cacete, quem é que tá fazendo pergunta aqui? A verdade é que tu pode ser um problema. Eu só quero descobrir se tem um bom motivo pra não te mandar pra lá de volta, vivo ou morto. Então pode contar. Conta tudo. Tudo.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 25

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O chefe não chega. O sol se esgueira por traz da folhagem densa, deixando raios esparsos serpenteando pelo chão. As aves de canto trocam turno com as de rapina e o assobio relaxante do vento se enche de frio. Chegar. Entregar. Sair. A quebra de planos era uma quebra na própria espinha de Santos Passos. Escorre pela cadeira distraindo-se no ir e vir do grupo armado. Nem um único som de Angélica. Está em sua pose de bicho noturno, toda olhos brilhando na escuridão, encurvada, como se a qualquer momento fosse rasgar a jugular de qualquer coisa que cruzasse o seu caminho. Santos e ela se entendiam melhor assim. No mesmo silêncio que se encontraram, há uma vida atrás, no muro do Coronel. E se nunca houvessem se encontrado? Visualiza sua invasão mal sucedida, um tiro na perna. A chegada dos policiais. Uma prisão em delegacia de interior.  A culpa dos assassinatos no hotel. Televisão. Família. Julgamento. Presídio dos grandes.

O pensamento inunda-se de um ruído que não tarda em transbordar para a realidade. Um grito abafado. Lamurioso, mas ritmado. As madeiras rangem. Angélica vira o rosto para a janela, encostando a testa no vidro empoeirado. As mãos fechadas e trêmulas. Só uma vez Santos Passos a viu daquela forma. Era fim de tarde e a comunidade perdia-se em risos e copos de cachaça em volta da fogueira-de-espantar-muriçoca. Dona Tereza cantava uma modinha seguida de palma e voz pelos moradores mais antigos. A cantoria, cheia de uma energia ancestral, de uma beleza bruta, contagiava os mais calados, como Paulo Gago e Marlon. Angélica, sombra e fogo, não dança, mas fica imóvel em frente à fogueira, farejando a noite e o passado. Santos Passos não percebe exatamente quando a festa acaba. A filha do Mestre Matias chora. Os homens discutem. Os velhos contemplam indiferentes os redemoinhos mínimos do rio da vida. Mas Angélica nasceu com o sangue de onça do mato. Rasga a noite em busca do culpado. “Foi à força”. “E o que ela tava fazendo de noite sozinha?”. “É caso de polícia”. “Isso dá morte”. Santos Passos segue de longe, sem interferir na caçada. Terminam atrás da vendinha. É um dos moleques de Pablo. Está ainda sem camisa. Sorriso e cigarro. Ela, mãos trêmulas. Segura-o como se fosse uma galinha de granja, mãos firmes no pescoço, cabeça contra o chão. Não há um ódio formulado em palavras, apenas a respiração forte e as involuntárias contrações no rosto iluminado pela lua. O vermelho mancha o quadro monocromático enquanto o facão passa uma e outra vez pela carne flácida. O som é como uma criança pisando numa poça de lama num dia de chuva.

A porta do único quarto do barraco se abre. Um dos armados sai decorado por um sorriso embaçado de degradação. Outro entra. E o ritual de grunhidos filtrados por pano de mordaça se reinicia. Nem Angélica ousa pará-los. O miojo esfria na mesa. E o chefe não chega.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 24

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Já tinha se habituado às pedras, matos, mosquitos, formigas de todo tipo, percebe que sua audição não havia de todo se perdido, parece ter desenvolvido uma atenção mais sutil aos menores sons, ali é um sabiá!, agora se lembrava das rápidas aulas de Angélica sobre os cantos dos pássaros, mesmo seu olfato estava mudado, talvez aquele ambiente menos sobrecarregado de fumaça de automóveis, ou melhor, o efeito dos odores diversos numa concentração comunitária, em exposição gratuita e obrigatória, e principalmente o cheiro de Angélica, o que também faz com que seu tato se aprimore, se desmecanize, apesar das marcas do relógio ou do volante ainda estarem como uma tatuagem borrada,

ainda assim permanecem, não como uma identidade, mas como uma condenação, as caixas, por mais que tenha tentado o contrário,

ainda assim permanecem os pedidos, o dever-entregar-ao-companheiro, senão sua sobrevivência estaria arriscada, ele sabe disso, certamente, mas precisa sempre se lembrar do velho ditado deixado pelos romanos manus manum lavat, ou (desnecessário traduzir),

Avista o companheiro a quem deve entregar a caixa.

Aproxima-se. O rosto do companheiro não parece,

– Então você deve ser o sr. Caixa… entra aí…

parece que,

– Pode deixar a caixa em cima da mesa, ali ó,

Estão no cubículo que parece uma sala, a mesa apontada está no espaço à direita, onde existe um sofá desgastado,

– Pode sentar aí, sr. Caixa, eu tava terminando de preparar uma carne moída, o macarrão vai ser miojo mesmo, ou você prefere arroz?

– Por mim

– Mas agora lembrei, o arroz azedou… Mas me conta aí essa história de “caixa”, até agora não entendi o que tá nos jornais…

– Bem

– Não, não… você deve tá com fome, andou bastante, e a carne tá quase no ponto, e é melhor esperar pra contar quando o chefe vier.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 23

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São 13 horas do sacro Domingo. Santos Passos está ajoelhado ao Sol. A discussão ocorre aos sussurros, eclodindo, vez ou outra, um princípio de grito rapidamente abafado pelo desejo de sigilo. A grama ressecada arranha seu joelho. Mosquitos pousam e partem de seu rosto petrificado. Dez horas antes está sentando na cadeira de vime do que aprendeu a chamar lar. Olha Angélica. “Preparado? Um, dois, três e…” afunda a cabeça na piscina da casa de Bacaxá. Tem doze anos. A prima o beija no fundo da água. O mundo inteiro está longe. A escola. O padrasto. As brincadeiras de mau gosto de Lelé. Os lábios ficam unidos em perfeita harmonia. Quer estar ali pra sempre. Mas o ar está acabando. Sabe que a qualquer momento terá que desistir daquele momento e voltar à superfície. Mas pensar nisso é gastar o prazer do beijo. Não quer pensar. Mas pensa.

São três da manhã. Angélica é um tronco de árvore no meio da floresta. Plácida. Firme. Tênue. A comunidade inteira está em silêncio. O mesmo silêncio do fundo da piscina. Tudo ali está submerso. O cheiro dela. O café. O trabalho na obra. Mas o ar está acabando. São nove da manhã quando acorda. É domingo e olha para o teto e suas constelações de buracos e rachaduras. Vê Aquarius próximo a uma nebulosa de mofo. “Eu perguntei tanto ontem da caixa não foi por mim não que eu sou fuxiqueira… mas tem um delegado lá no asfalto que é. Vem perguntando muito sobre o Homem das Caixas, como o jornal tá chamando. Ele mostrou até a notícia…”. O ar está quase no fim. Santos Passos sente seu pulmão murchando. O desespero vazando das frestas da consciência. O Sol paira no centro do céu quando partem para ver Pablo. “Ele não vai querer você aqui, com as crianças e… tudo mais. Mas ele vai ajudar porque ele ajuda quem é da comunidade. Mas tem que confiar. Você vai ter medo, mas tem que confiar”.

O gosto de cinzas na mordaça aguça peculiarmente seu paladar. Dá fome. As formigas escalam as coxas, desbravando um sertão púbico. A última bolha escapa da fusão das bocas. Seguram-se pelas mãos. Tudo é comunicado ali. Sabem que é preciso emergir. Passa um quarto de hora ajoelhado até tirarem a venda. Demora a se acostumar com a luz. “Compañero… tu sabes que no quiero tu mal, pero tampouco puedo dejar que la policia venga hasta acá…”. Santos Passos se vê num mar de estrelas verdes. Sentinelas passeiam entre a folhagem, bonés e panos no rosto, ak47 a tiracolo. “Pero me hán dicho que te gustan las cajas, no? Pues vás a dar um paseo por el bosque hasta que la policia se parta y aprovechas para llevarme una caja a un compañero, si, sr. Caja?”. Angélica repousa a mão em seu ombro. 14 horas está em pé. Uma mochila militar está presa às suas costas, a caixa, em sua mão. Algumas lavadeiras rasgam o ar em voo rasante. “Angélica, coge el camino de siempre y te quedas em el abrigo hasta llegaren los compañeros. Volveis em unos dias com el mio que las cosas deben estar mas calmas, por acá…”.

Santos Passos entra na sombra úmida da floresta. Angélica, predadora, caminha adiante de olhos atentos. Anos antes, ele a prima se olham por última vez através da ilusão ondulante das águas. E mergulham novamente na realidade.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 22

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Passos despertou. Estava tudo submerso em silêncio. A TV sintonizada em um canal fora do ar, muda. O suor do seu corpo atraía os insetos. Era a única coisa com que não conseguia se acostumar. As moscas de lanchonete não passavam de borboletas comparadas àqueles parasitas. Dedicara-se a tapar cada fissura da casa, porém, sempre arrumavam uma maneira de entrar. Angélica dizia que antigamente era pior, que antes de inventarem os inseticidas industriais para plantações, nos tempos de garimpo de ouro, os mosquitos costumavam ter o tamanho de uma gralha, e existiam barbeiros do tamanho de onça. Sim, claro. É claro que existiam, ele concordava escondendo a boca atrás do copo de café.

As noites eram bastante desagradáveis, todavia, aquela madrugada estava ainda mais insuportável. Levantou-se para pegar a caixa de ovos vazia e os fósforos dentro da gaveta. Acendeu um. Deixou a chama queimar o palito até se apagar.

Ao longo de todas as noites, especialmente em noites quentes, o zunido aumentava. Mas naquela não. Passos, concentrando-se um pouco, poderia sentir o silêncio roçando a pele. Não. Isso era coisa de sua cabeça. Não havia motivos para se assustar. Pôs a caixa de ovos e os fósforos no colchão. Tentou bisbilhotar o quintal pelas cortinas. Matias dizia que, às vezes, bem no meio da noite, um ou outro garimpeiro morto caminhava pela região. Definitivamente Passos não era sujeito supersticioso. Achava graça. Mas observando aquele breu profundo como a garganta de um gigante, podia entender os medos daquela gente. As lâmpadas da varanda mal davam conta da fachada. Não conseguia ver nem sequer a bica com que enchia o balde para tomar banho.

Afastou a cortina para ter certeza. Tinha certeza. Não vira nada. Estava tudo em silêncio. Nenhuma brisa. Nenhum som de rã ou inseto. A dormência da perna se afastara e dera-se conta que o cheiro do corpo não era tão desagradável. Deixaria o banho para quando o sol nascesse e estivesse claro.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de Sobra – ep. 21

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red couch poligrafia

Disponível em: https://pixabay.com/en/red-couch-weathered-couch-sofa-66819/

nem mesmo Sun Tzu conseguiu resistir dentro do meu bolso, se a guerra é uma arte, eu devia ter orgulho do artista em que me tornei, eu pensava na pergunta de Angélica e na resposta que escaparia da minha boca se não tivesse sido aniquilada pelo meu sorriso, não há orgulho algum nisso, acho que Angélica esqueceu a pergunta que fez, parecia mais atenta às unhas do que à conversa, a televisão falava e falava, como se estivesse realmente procurando interação, olhei pra Angélica ali ao meu lado cutucando os dedos, vez ou outra levantando a cabeça pra olhar pra tela e eu conseguia enxergar mais coisas dentro daqueles olhos do que no horizonte de uma estrada em linha reta, de repente, ela já estava de frente pra mim, cara a cara, acho que ainda procurava a resposta que eu não dei, corria a ponta do dedo pelas rugas dos meus lábios, as unhas pintadas com o mesmo tom daquele sangue misturado aos estilhaços de vidro e fios de cabelo do carro, ela veio pra cima de mim como um bicho selvagem, subiu no meu colo e meu peito começava a dar sinais de entrega, suas mãos amassavam meus ombros e eles cediam tão fácil quanto pedregulhos jogados sobre papelão, pensei em empurrá-la pra longe mas não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, ela já desabotoava a blusa e exibia o contorno rosado dos seios, acho que ela estava esperando que eu fizesse alguma coisa, eu pensei em fazer alguma coisa mas achei melhor que ela fizesse, seu corpo pesava sobre o meu quadril e sua pele reluzia a propaganda da TV, ela agarrou minhas orelhas e puxou meu rosto até a sua barriga e eu não tive escolha senão deixá-la meter meu nariz no seu umbigo, o cheiro que eu senti era o mesmo do meu terno desbotado, lavado, usado na primeira vez que eu encontrei os onze, ela afastou meu rosto, desmontou do meu colo e ficou de pé, seus seios pareciam mais pesados do que antes, eu continuava deitado no sofá, sem saber como reagir, ela deu alguns passos pra trás e olhava pra baixo, desabotoou a bermuda e descia o zíper devagar, como se tivesse todo o tempo do mundo, o brilho da TV trovejava sobre aquele corpo seminu que mais parecia ilusão, ela ainda deu mais alguns passos pra trás quando o zíper atingiu a parte mais baixa da bermuda, ela parou, acariciou os pelos que apareceram e perguntou.

“o que tu vendia?”

Angélica cutucava os dedos, a televisão falava e falava, olhei pra ela e sua blusa  tinha todos os botões abotoados, eu continuava sorrindo, tentando aniquilar a resposta mas percebi que dessa vez isso não seria suficiente.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 20

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– Não é assim que se vira a massa, seu Passos.

A cada vez que Matias me chama pelo nome, me amaldiçoo. Por que não fui inventar uma desgraça de nome falso? Coisas agora tão óbvias, mas que antes não passaram pela minha cabeça. Coisas que me fazem entender os grandes erros da humanidade. Guerras. Holocausto. Viver não é simples, não são decisões tomadas na frente de uma máquina de escrever.

– Vai deixar secar a massa, seu Passos!

Ele gritou. Eu imagino se alguém neste estado não ouviu. Meus olhos giram ao redor em pavor, acusando culpa, mas uma culpa que ninguém percebe, pois, aqui, todos são igualmente culpados.

– Matias, eu não sirvo pra servente.

– Pelo menos você não falta. Os moleques da Rafaela cagam tudo e ainda nem aparecem na hora do serviço.

Vinte e cinto reais no fim do dia. Volto para a casa da Angélica, suado, as roupas são fiapos de indigente. Cumprimento o Marlon, ou talvez o Diogo, nunca lembro quem é quem. O menorzinho é Levi. Nunca consigo olhar nos olhos dele. Angélica pede pra eu descer e comprar um macarrão porque a água já está fervendo. É um fim agradável de tarde, ao longo de muitas tardes agradáveis, como jamais pensei ser possível.

– Faz mágica, tio?

Ponho uma pedrinha na junta do cotovelo do menino e a faço aparecer no outro braço.

– Me ensina?

– Só se você for na venda pra mim, que eu tô cansado. Traz um macarrão.

Deito no canto que me foi preparado. Angélica assiste TV e faz as unhas dos pés.

– Me diz uma coisa, Passos. O que que tu fazia de trabalho?

– Eu? Era vendedor.

– E o que tu vendia?

Abro boca despretensiosamente:

– Era um…

No bolso, um papel manchado. Parece ser o que sobrou do velho “A Arte da Guerra”. Angélica olha para mim e espera a resposta. Eu apenas sorrio.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 19

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O sussurro impeditivo o afeta, aquela tonalidade feminina, de leveza agressiva, o faz cair em sua incapacidade, não pula o muro, Abrão, não! Vem comigo, melhor por aqui. Ser guiado. Passos segue. Angélica. Haveria de esquecer os dias passados por um tempo… O incidente. A falta de identidade. Passos prossegue num caminho tortuoso de velhas árvores de raízes aparentes, temeroso, como confiar nela, isso não era questão que lhe vinha à cabeça, apenas ela ter lhe indicado o perigo do pulo, quem sabe não perderia uma perna, ou braços pelo ataque dos cães treinados do coronel, quem sabe uma bala certeira na cabeça. Você deve estar muito perdido. Quando chegarmos, te deixo descansar. Pela manhã te apresento ao pessoal. Como se chama. Santos Passos. Ironia.

Chegam. Muros de pichações, abreviaturas, nomes, Samuca Saudades eternas. Dois homens, seguidos de três crianças, armados, se aproximam. Tá comigo. Olhares de cima abaixo sobre Passos.

Becos estreitos. Casas de vários tipos, de tijolos ou papelão, os tamanhos variam conforme o tamanho dos familiares, uma das regras era não exceder seis crianças. Caminhos que não seguem o trajeto das réguas com que as crianças aprendem a contar os números com Seu Afonso, professor de matemática aposentado, morador da casa amarela à Rua G. Santos Passos aprende, mesmo com fome e sono.

Não repara, é uma casa humilde. Pode usar o banheiro. Só não esvazia o balde d’água. Vou preparar um canto pra você deitar. E pega alguns panos velhos, toalhas que não servem para enxugar.

Finalmente deita.

Gabriel Sant’Ana

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