Caixas de sobra – Ep. 18

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Coberto pelo escuro, pelo frio úmido que passeia pelas noites silvestres, Santos Passos não é mais que um tronco velho a espera do musgo. Àquilo chama descanso. Não o cochilo tenso no estacionamento do fast food depois do almoço. Não a madrugada vazia após o sexo tedioso, mecânico. Não os sonos conturbados dos primeiros dias de venda em São Paulo. É um descanso que já se apagava na memória, dos dias em que a rotina não batia ponto em seu peito a cada manhã. Lembra do rosto já borrado dela, sua graça e ruína, portadora de todos os dons e todos os males. Ela está vestindo um baby doll quase transparente. O corpo ainda nas primeiras curvas. Os olhos marcados pelas chamas vivas da juventude. Ela segura uma das caixas na mão, o primeiro lote que recebera. O papelão ainda rígido, quase brilhante. O adesivo de frágil luzindo o amarelo intenso. Olha o contorno rosado de seus seios e esquece tudo que deixou de lado para estar ali. Ela sorri. O sorriso que todo homem espera para saber que finalmente está feliz. O sorriso que quase nunca chega, e se afoga em frustração, em pornografia, em uma imaginação embaçada pelo vapor da água quente do chuveiro. “Já que agora você tem caixas de sobra, já que agora é o próprio Senhor das Caixas, eu também mereço um título, não acha?”. Disseram que era escapismo. Que era uma ilusão. Que era… errado. Longe da embriaguez da felicidade, amarrotado pela vida inteira que se interpôs entre ela e o céu que agora o cobria, talvez até concordasse. “Eu me proclamo, então, Pandora. Comporte-se, ou eu ABRO a minha caixa” A risada preenche o passado e o presente. Santos Passos espasma, trazido novamente a vida pelo voo noturno de um pássaro sem nome.

Pegaria o máximo de pacotes e latas que conseguisse, o suficiente para sumir uns dias, quem sabe acampar na floresta, ser tronco por um tempo. O muro baixo é decoração de um tempo esquecido pelo homem urbano, anterior às grades, aos cadeados, aos sonos conturbados pelos mínimos ruídos. Sobe sem dificuldade, permanecendo parado em seu topo, felino. Estaria a casa destrancada? Janelas abertas? E se ouvissem algo? E se fosse preso? Eles o encontrariam até lá, sabia. Não avança nem volta. Pura hesitação. Adrenalina varrendo a languidez do sono. Mas a fome não pede, ordena. O corpo pende, predatório, ao interior do terreno.

– É muita coragem de um cabra pensar em pular o muro da casa do Coronel.

Os olhos distantes, como o gato de Cheshire, flutuam entre os troncos, seguidos pelo igualmente arqueado sorriso. Quando, meses mais tarde, Santos Passos chorar a morte de Angélica no banheiro de um barco subindo o imponente Amazonas, essa será sua lembrança. O verdadeiro começo de um longo caminho.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 17

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A meia lua assomava no centro do céu. Brilhava escondida entre nuvens roxas. O jeito com que sorria causava certo desconforto a Santos Passos. Não se importava se amanhecia ou anoitecia. Mas não suportava aquela sensação. De ser perseguido. Observado. Ele não contava os dias desde a fuga do hotel. Entendia-se mais avesso aos olhares curiosos, e, na mesma medida, estava mais íntimo da estrada. Era sua melhor amiga. As costas doíam menos por dormir. Depois que tudo terminasse, pensava, poderia compor seu próprio Testamento em sua homenagem. “A fuga pela terra esquecida”, ou “O retorno ao paraíso perdido”. Entretanto, os olhares fustigavam como agulhas. Irritava. A sombra dos Onze ainda estava grudada na sola do seu sapato. Em cada esquina que virava, por cada carro que passava, sentia unhas raspando, subindo o calcanhar. No final da tarde, meteu-se no banheiro de um bar e abriu a sola por dentro do sapato. Não estava louco, afirmava. Mas tinha que ver. Ver se não enfiaram um daqueles rastreadores modernos. Arrebentou o couro em vão. Agora o calçado engolia as pedras no caminho, obrigando-o a parar constantemente para tirá-las do espaço entre os dedos. Mais olhares. Não conseguiria caminhar mais de um quilômetro.Precisava de um lugar seguro pra dormir. Às vezes tinha a impressão de ouvir um barulho gorgolejante de pigarro perseguindo-o. Igual ao que Ismael fazia para provocar. Ismael batia na porta. Dava para sentir o cheiro de cigarro entrando pela fresta. Santos Passos oferecia a mão, mas ele não cumprimentava. Sacava o certificado de recebimento. Santos assinava. Depois destacava o canhoto com o endereço para carregar o carro com a remessa de caixas. Mas isso fora há muito tempo. Há meses atrás. Não devia ter se metido com eles, resmungava tirando uma pedra do sapato. Os olhos pesavam e o corpo estava ficando dormente. Ainda tinha chance de chegar a algum lugar e roubar um pouco de comida. Adentrou uma área pouco movimentada.. Talvez um aglomerado de sítios, um ou outro casebre colonial protegido por muros baixos, alguns mais precários, ruínas de madeira e tijolos cercadas por arame farpado. Nada mais. Os pigarros ainda o perseguiam. Não haveria tempo. Escolheu a terceira residência. Uma casa grande, de fachada antiga, daquelas ornamentadas por santos em azulejo. Havia dois picapes, uma motocicleta e uma caminhonete próximos à porteira. Perfeito. Percorreu alguns metros pelo caminho de pedras que adentrava um bosque. Parou atrás de uma touceira densa que crescia num ajuntamento de salgueiros podres. Sentou-se num tronco morto sob as copas, e começou a contar os insetos que matava para se distrair. Esperaria ficar bem tarde. Não precisava olhar para o céu. Não queria encará-la nos olhos e ter que ver seu sorriso.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 16

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ponho o telefone no gancho, tenho a sensação de que todos os olhos do mundo estão sobre mim, saio dali como um bicho escorraçado, eles podem voltar, me perseguir, me atormentar, mas não são capazes de saber o que está acontecendo

dentro da minha cabeça

uma caixa, meu Cássio

sem Pandora, mais fácil

meus passos, passos pra trás

dois passos, passo a mais

Rubem não poupa ninguém

Simeão cara de cão

Judá morrer ou matar

digressão sem direção

doze menos passos são onze

sangue, unhas, vidro estilhaçado

carteira perdida, acidente na estrada

hotelzinho de merda, acabado

blowing in the wind

Sun Tzu nunca foi à guerra

Marlene e eu fomos

Marlene e eu

não devia ter ligado pra ele, devia ter ligado pra ela, em que eu estava pensando quando fiz esta ligação? meu pensamentos equivocados embaralham minhas pernas, tropeço como se estivesse aprendendo a andar, mas eu continuo, continuo andando, preciso me afastar dali, eles não são capazes de saber o que está acontecendo dentro da minha cabeça e às vezes nem eu sou.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 15

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Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/telephone-phone-call-old-black-164250/)

Por PublicDomainPictures. (Disponível em: https://pixabay.com/en/telephone-phone-call-old-black-164250/)

– (22:12) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:14) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:17) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:19) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:21) O número chamado não está disponível no momento.

– (22:23) Alô? Alô? É o Santos Passos. Por favor, não desliga. Por favor. Sou eu mesmo.  Eu… (pausa de quatro segundos) Cara, está acontecendo. Desculpa ligar, eu não queria ligar, eu sei que… Tá bom, eu tô calmo. (respiração ofegante) Eu estive por ali o tempo todo. Tentando vender aquilo. Anos e anos. Eu gastava um talento descomunal para esses joguinhos de convencimento. Ah, se eu tivesse usado essa inteligência para outra coisa, eu tava rico. Tipo o Silvio Santos, dono de metade do Brasil. Mas a gente escolheu aquilo. Eu fiquei quieto, fazendo o meu trabalho. É estranho porque parece que justamente quando abri mão de tudo, quando desisti de vender e resolvi fugir, eles vieram. Alô? Tá me ouvindo? Droga de telefone. O que eles têm na cabeça? Como? Não, não, eu estou bem. Não fizeram nada comigo, foi só o carro e… (respiração entrecortada) Você não imagina, cara… Não imagina o que eles fizeram naquele quarto de hotel… Sim. Sim, eu sabia do que eles eram capazes, e você também. Eu não tava duvidando. (pausa de 4 segundos) Tá, cara… tô calmo. Eu tô aqui numa cidadezinha, um buraco… na verdade acho melhor nem te dizer o nome. (pausa de seis segundos, baixa o tom de voz) Eu tô ficando louco. Cada vez que alguém passa na rua meu coração aperta… Não, não vou te dizer o nome da cidade! Esse telefone é duma padaria, eu entrei aqui e não tenho carteira pra pagar a conta, não tenho documento, deixei tudo lá… Cara… Não, não, eu vou me virar. Voltar pro hotel, sem chance. Não, eu nem tenho cartão do banco comigo. (resmungo abafado) Eu preciso da sua ajuda. Se eles souberem que você tá falando comigo… me desculpa… (tom ainda mais baixo, quase inaudível) Você acha que eles sabem da minha família? (silêncio de dois segundos) Se encontra comigo, cara. Não, não fala. Já disse que não confio nesse lugar. Minas Gerais? Esquece. Eu vou te ligar de novo de um número mais seguro. (respiração ofegante) Vou ter que dar um jeito de sair daqui. A gorda maldita tá me encarando de longe sem parar. Não, não dá pra ela ouvir. Eles estão querendo fechar. Eu vou correr pro carro e que se dane. A polícia deve tá vindo de qualquer jeito. Caramba… eu nem sei como vou fazer pra abastecer. Se a polícia rodoviária me parar? Eu não posso me preocupar com tudo. (chiado) O quê? Alô? Alô? Fala de novo. É, eu tô com uma caixa comigo. Está fechada. Cara, se eles te mandarem alguma coisa pelo correio, larga tudo e foge. Leva esse celular, é o único número seu que posso entrar em contato. Como isso foi terminar assim? Céus… Você sabe de mais alguém? Nunca mais teve notícias de nenhum deles? (pausa de oito segundos) Eu sei, cara, me desculpa por ligar, não queria envolver você nisso. (pausa de três segundos) Deixa comigo. Deixa comigo. Eu sei o que fazer.  A atendente tá olhando pra mim, e o gerente tá com ela. Cara, acho que eles estão ligando pra polícia. Eu entro em contato logo. (pausa de cinco segundos, vozes indistintas no fundo, e o telefone é desligado violentamente).

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 14

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Para onde iria não é uma questão de trajeto pontual, antecipadamente programado, esta situação obriga uma fuga, pelo retrovisor ainda vê a merda do hotel, ainda vê aquele idiota do recepcionista gesticular alguma coisa, não voltaria, tentaria escapar, talvez não fosse inteligente o bastante para denunciá-lo, que o denunciasse então, tudo em si já era denúncia, esta caixa ao lado, este carro que emite sons inefáveis, gravíssimo erro de confiar naquele mecânico, o acelerador não o faz ir além, que sorte a existência de civilização poucos metros adiante, cidade do interior, larga o carro próximo a uma padaria, é obrigado a não deixar a caixa no banco do carona, bom dia senhor, uma jovem de cerca de dezenove anos, bonita, lábios avermelhados, sorriso encantador, me dá uma média, vocês têm queijo prato aí, sim senhor, MÉDIA COM QUEIJO PRATO, senta numa cadeira velha de madeira, uma mosca grudada na mesa sugando farelos de pão, ei por favor tem como limpar isso aqui, uma senhora obesa sai da cozinha armada de um pano de prato imundo e um borrifador, jatos sobre o espaço, algumas gotículas vão sobre a mão que segura a caixa, o pano desliza, a mosca pousa no ombro da mão que segura a caixa, vocês não têm nenhum inseticida não, a obesa não responde, um grunhido junto com um olhar questionador para o objeto que segura, ei isso não é da sua conta, então não têm nada para matar a mosca, tudo bem, o pedido demora meia hora, vão entrando um casal de idosos, um grupo de adolescentes uniformizados pegam biscoitos Trakinas, um deles encara Passos, ei moço que tanto o senhor segura aí, tá se tocando é, em seguida a jovem atendente traz a média com queijo prato se desculpando pelo atraso, houve um probleminha com o gás e a torradeira estava com mal contato, Passos esquece a existência do adolescente, sua atenção é toda no café, o pão não aparenta estar quente, a mosca pousa sobre ele, suas patas se esfregam num desejo incalculável, sugar, sugar, que merda maldita, a mão que segura a caixa instantaneamente se joga sobre o pão-mosca, foi mais rápida, que merda nem café mais a gente pode tomar em paz, essa imundície aqui, a jovem atendente aparenta preocupação, ainda não tinha pagado o pedido, caberia à obesa a obrigação, o casal de idosos se vira para Passos, a idosa se levanta da mesa carregando algo que parecia um cordão, meu amado tome esse tercinho, carregue com você, você está precisando orar, Passos pega o terço com a outra mão, enrola sobre a caixa, quem sabe isso lhe traria algum livramento, a obesa, agora consegue perceber como era gigante, uns dois metros talvez, o encara com a mão aberta, vê também um movimento estranho da jovem atendente, ei está ligando para quem, um som gutural da obesa o intimida, merda a porra da carteira, suas mãos vasculham os bolsos da calça, merda,

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 13

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“Filhos da puta”. Santos Passos caminha de um lado para o outro na recepção apertada. A cada três passos uma volta. O recepcionista tremulava atrás do balcão na busca pelo livro de hóspedes.

– Deve estar aqui em algum lugar… meu primo vive usando pra anotar recados, sabe?

Tudo vinha à cabeça de Santos Passos como uma descarga de merda. O velho da recepção, a foto, a história do setor administrativo, o sumiço das caixas. Depois de todos aqueles anos, da saída às pressas de São Paulo, da vida sem celular, sem emprego fixo, sem casamento no papel, o menino registrado somente no nome da mãe, depois de tudo, o haviam achado.

– Aqui! – o garoto puxa um caderno “10 matérias”, papel amarelado, capa com jovens brancos saltando de paraquedas – Não sei como isso pode ajudar a resolver o que houve com o seu carro… você acha que tem alguém conhecido seu aqui?

A lista era amadora. Anotações em garranchos, nomes sem sobrenome, nenhum documento anotado. Folheou com rapidez, buscando o dia anterior. A maior parte dos registros indicava putas: nomes genéricos dando entrada pela noite para sair de manhã cedo. Alguns tinham cara de road trip: cinco entradas seguidas, todas de nomes que ninguém usava há vinte anos atrás, tipo Theo e Enzo. “Filhos da puta”. Santos Passos para em um ponto da lista. Três entradas seguidas: Rubem, Simeão e Judá. “Três dos outros onze…”.

– O vigia do turno anterior está aqui há quanto tempo?

– Eu e meu primo fomos contratados juntos, há mais ou menos seis meses.

Santos Passos coça o pulso com força. Checa novamente o carro do outro lado da rua.

– Não! Um velho… 60, 70 anos, sei lá, de óculos… – a expressão do recepcionista pendula entre confusão e medo.

– Vai desculpar, mas não trabalha ninguém assim aqui não. Só sou eu, meu primo, o cozinheiro e a dona.

“Filhos da puta”. Santos Passos agarra o braço do garoto e dispara em direção ao segundo andar. A idade cobra seu preço. As pernas fraquejam entre os degraus. “Eles queriam que eu visse isso. Como me acharam? Quando? Que merda foi aquela no carro?” Por um momento tudo escurece. “O senhor está bem?”. Não responde. Não para. Arrasta-se até seu quarto.

Vinte anos antes, Santos Passos usa um terno demasiado curto e já desbotado. Está em um escritório alugado na Rua Augusta. Os outros onze conversam entre si animadamente. Santos Passos está tenso. Checa as centenas de caixas que ocupam quase a totalidade do espaço. Peso. Tamanho. Tenta sacudi-las. Nada. “O que tem dentro delas?”. Judá ri. Os outros dez o acompanham.

Vinte anos mais tarde Santos Passos está sentado na cama do hotel. Os lençóis, outrora branco-cloro, estavam coloridos dos tons entre o vermelho sangue e o marrom coágulo. As caixas, espalhadas sobre a cama, abertas, expunham um mosaico feito com as partes do corpo do que provavelmente era o primo do recepcionista. Ou talvez o cozinheiro. O garoto está de boca aberta. Parece gritar. Ninguém ouve. Nem mesmo Santos Passos. “Deixaram uma caixa fechada”. Põe-na debaixo do braço. Autômato, cruza corredor, escadas, recepção, estacionamento. “Eles me acharam”. Liga o carro. Coloca a caixa do banco do carona. “Filhos da puta”.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 12

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Passos girou o pescoço de volta para o carro e olhou a coisa nojenta espalhada no interior. Cenas de crime de seriado eram parecidas com aquilo, pensou. A mão que segurava a lanterna tremeu. Usou a outra para o recepcionista não perceber. Depois apontou a luz amarelada para o banco traseiro. A visão turvou-se como se vislumbrasse um cadáver. Deveria haver uma pilha de caixas ali. Estava acostumado a conferir o estofado abarrotado pelo retrovisor. O perímetro vazio sacudiu o fundo de sua mente. No espaço continha apenas pedaços de papelão e farelo de isopor.

– Acalma, senhor, – repetiu o recepcionista, pondo a mão no ombro trêmulo. – Vamos ligar pra polícia. Não devem ter ido muito longe.

O toque o fez se encolher. Notou a roupa amarrotada, os botões ajustados uma casa acima da camisa. Apontou a luz para o rosto do jovem.

– E que inferno você estava fazendo?

O rapaz protegeu os olhos, ajeitou o cinto e pôs uma parte da camisa para dentro da calça com a outra mão.

– Problemas na cozinha. Precisavam da mim lá e me ausentei, – mexeu timidamente o cabelo. – Seja lá quem tenha sido, não fez barulho. Eu teria ouvido.

Santos Passos voltou a lanterna para o fundo e continuou a avaliação da perda. Não haviam deixado uma caixa sequer. Já não tinha mais o relógio, agora as caixas. O que mais perderia? Coçou ao redor do pulso e sua respiração começou a acelerar.

– O senhor está bem? Quer que eu chame a polícia? – perguntou o rapaz.

Piscou os olhos. Estavam ardendo de tanto tempo abertos.

– Não precisa chamar ninguém – respondeu oco, e devolveu a lanterna jogando-a no peito do homem. – Só preciso de uma coisa. Preciso ver a lista de hóspedes.

– E o sangue no carro? Alguém pode ter sido assassinado.

Encarou-o com as pálpebras em fenda. Massageou o pulso sem se dar conta que relaxara um pouco, mas sentia os músculos da face tesos, duros como corda de forca. Estava velho, finalmente. Vivera demais para dar ouvidos àquelas divagações sobre fotos, relógios e caixas. Insatisfação juvenil e questionamentos existenciais, algo do eco do que os professores de escola resmungavam. Nunca entendeu exatamente o que queriam dizer, e menos ainda como ele poderia se ter inclinado a tais tolices. Tinha um problema, precisava resolver o problema, e não criar outro como o idiota pretendia ali. Olhou para as impressões de sangue no vidro. Os músculos da bochecha estavam duros feito casca de noz.

Entrou no carro e apanhou a agenda com a lista de endereços, cobranças e dívidas. Folheou até encontrar páginas em branco.

– Você vai me ajudar, – rangeu o maxilar apontando o indicador para o garoto, – você vai ligar pra todos os quartos, e vai ver eles um por um.

– Mas senh-

– Acho melhor a gente se entender logo, amigo. O gerente não vai gostar de saber que teve problemas com um cliente porque você estava na cozinha ao invés de estar no seu posto…

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 11

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caixas

entregas

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não sabia que horas eram nem poderia saber, mas sentir o Cássio sem tê-lo no pulso era um aviso, dizendo pra mim que, mesmo que eu lutasse pra deixá-las pra trás, algumas coisas ainda permaneciam ali, agarrando meu braço, impedindo que eu avançasse, retardando meus passos, Passos sou eu, seria uma grande ironia se eu, tendo o nome que tenho, não conseguisse mais progredir, vesti a calça, a camisa, os sapatos, quem recebe um telefonema à essa hora da noite não pode agir como se nada estivesse acontecendo, eu não podia agir assim, sabia que algo acontecia, só não sabia o que era, fui enganado esse tempo todo, eu achando que caixa após caixa, entrega após entrega, meus passos estivessem me conduzindo pra frente, minha estupidez foi tão grande nesses anos todos que eu demorei a perceber que não era nada disso, não percebi que havia passado muito tempo e por causa disso o telefone tocou novamente e novamente o recepcionista me convocou, peguei a chave e saí.

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no saguão, quase nada do que eu ouvia fazia sentido, o recepcionista não quis explicar ou não sabia explicar, de onde eu estava, meu carro parecia do mesmo jeito, parado, estacionado, assim como eu, sem progredir, mas carros não conduzem, eles são conduzidos, que merda de vida era esta que eu não conduzia? que não me deixava dar mais um passo? eu estava andando pra trás sem ter a menor ideia disso, mas eu tinha que andar pra frente, sair do hotel e atravessar a rua, só assim eu pude ver o que tinha de errado com meu carro, o vidro do carona estava quebrado, com os estilhaços espalhados no asfalto e nenhum caco dentro do carro.

caixas

entregas

caixas

entregas

caixas

entregam

sangue

pedi que me trouxesse uma lanterna porque aquilo precisava ser explicado, o foco de luz percorreu todo o interior do carro, revelando restos de unhas, fios de cabelo e sangue, eu olhei para o recepcionista, ele olhou pra mim, eu sabia o que ele esperava de mim mas, como ele, eu não sabia explicar o que estava acontecendo.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 10

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– Estou delirando?

Eu digo em voz alta no chuveiro. Tudo o que eu queria, desde o acidente, desde os quilômetros perturbadores até a recepção desse hotel, era um banho quente de qualidade. Mas, por algum motivo, eu continuo sentindo a pulseira do velho Cássio no braço. Dizem que nosso cérebro se vicia nas coisas; ouvi dizer que pessoas que perderam membros do corpo ainda podem senti-lo muito tempo depois. Não importa. Eu sinto a água, sinto o calor. Agora, relaxado, percebo uma dor no ombro que antes não se manifestara. Fruto do acidente. Até a dor eu sinto com mais clareza. Vejo as cores melhor. Sinto prazer em respirar fundo. Antes, era como se todas essas coisas fossem condicionadas às caixas: ar dentro de caixas, dor sob o peso de caixas, cores em tom marrom. As caixas não estão mais aqui. Pela primeira vez, em muito tempo, eu percebo o mundo.

Depois de uma hora do banho, desligo e me seco. Todas as toalhas eram assim perfumadas? A comida, hoje, um simples pacote de tortilhas sabor queijo, me espera ali fora. Já imagino a intensidade do sabor. Toco o pulso, mas lembro-me de que o relógio não está lá. Sento, ligo a televisão, dou risadas com A Feiticeira.

– Esse programa ainda passa na TV? – digo em voz alta, pela segunda vez hoje.

Não me lembro de ter dado risadas tão sinceras alguma vez. Quando o programa termina, tão bobo, sinto vontade de assistir Chaves. Mudo os canais, passo por um canal esportivo, alguma notícia sobre atentado terrorista, um reprise de novela, mas não acho o Chaves. Pergunto-me que horas são, olho para o pulso, meu coração gela. Terceira vez hoje.

            Fecho os olhos e tento dormir. Sonho com a estrada, milhões e milhões de quilômetros, casas que passam como trovões. Então percebo que é como se eu a devorasse; o mundo mistura-se com meu corpo, e eu aprecio. Porém eu vejo, às minhas costas, longe como o diâmetro da Terra, uma silhueta. É meu filho. Ele chega em casa, dá um beijo na mãe e senta para jantar. Por mais que eu avance, ele está lá. Por mais que meus olhos estejam voltados para frente, eu vejo através de minha nuca, de montanhas, de cidades. Passos, você está brincando com algo sagrado.

Acordo com o telefone do hotel tocando.

– Boa noite, senhor Passos. – diz o recepcionista.

– Olha, eu já disse que você me confundiu com outra pessoa, nós nunca trabalhamos juntos…

– O pálio azul estacionado do outro lado da rua é seu?

Demoro um segundo para responder. Olho o pulso, e pela quarta vez percebo que não tem relógio.

– É sim, por quê?

– É melhor o senhor vir ver.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 09

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Faltam alguns quilômetros para chegar ao hotel e sente a mudança não apenas na estrada, não era a mudança do clima, não eram as constantes obras para melhoria das rodovias, algo nele se revolvia, sentia que algo iria lhe escapar caso não observasse com mais cuidado. Cuidado. O que significa isso? Cuidado com os pedidos que fazem a ele. Apenas consegue se aproximar de um sentido ao considerar as caixas que há anos, com cuidado, leva a cantos variados.

Começa a tocar no rádio uma batida conhecida. It’s no sacrifice at all… Subitamente os rostos da mulher e do filho se refletem no retrovisor. Era um sábado, na sua primeira semana de férias na empresa, após três anos de intenso trabalho, o garoto tinha uns quatro para cinco anos, estavam há quatro anos juntos, um relacionamento que prometia muitas alegrias. Naquele dia, levavam o menino ao zoológico. …two hearts living… Foi difícil acordar tão cedo, ajeitar o carro, preparar alguns sanduíches, separar uma quantia de dinheiro. Era um sacrifício necessário.

Aonde o levaria reviver tais acontecimentos passados? Nem sequer sabe que horas está durando a saída do posto até o hotel. Apenas sabe que isso tudo demora. Esse vácuo temporal, porém, é menor do que o abismo entre ele e o filho. Não esperava que fosse o filho a atender a ligação. Não estaria a caminho da escola? Estava matriculado em alguma? Suas narinas se movimentam aceleradas em busca de ar, seu ritmo cardíaco descompassado, olha para a estrada sem prestar atenção, suas mãos permanecem firmes no volante.

Apenas poucos metros para o hotel. Aloca o carro no estacionamento externo. Seu corpo, habituado ao contato com as caixas, tendo sofrido constantes acidentes, se vergava sob um sobrenatural peso. Encaminha-se à recepção. Um senhor de aparentes sessenta anos, barba falhada, terno gasto, o recebe.

– Bom dia! Em que posso ajudar?

– Tem algum quarto vago?

– Só um instante, que vou verificar… O senhor, por favor, aguarde na sala de espera, irão levá-lo até o quarto. O senhor tem malas ou qualquer objeto?… Ei… estou reconhecendo você…

O senhor tira os óculos do rosto, limpa as lentes com um paninho guardado no bolso da calça, repõe os óculos, ajeitando de maneira a não tocar as lentes nas pupilas.

– Sim… estou com certeza me lembrando de você… Não se chama…?

– Não devo ser quem o senhor está achando.

– Então é você mesmo… Você não trabalhava no setor administrativo da empresa do dr. Alvez Moreira?

– Olhe… Estou precisando…

– Mas como! E agora o que tem feito? Não está me reconhecendo, não é? Eu trabalhava como secretário do dr. Alvez… Não se lembra mesmo de mim? Olhe aqui esta foto… sempre a levo comigo… aqui está toda a equipe da época… sempre a levo comigo, sabe? Isso me dá um sentido para não desistir dos meus objetivos… Era uma frase que o dr. Alvez sempre usava no início das reuniões, não se lembra?

– Sem querer ser grosseiro…

Passos aperta a mão do senhor e se encaminha à sala de espera. Talvez fosse ele na foto, talvez alguém. Talvez nem ele fosse, talvez um ninguém, espaço que poderia ser ocupado por qualquer um. Só deseja retirar a roupa, entrar numa ducha quente, deixar escorrer a água sobre os ouvidos. Cuidar de si.

Gabriel Sant’Ana

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