Caixas de sobra – Ep. 08

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– O que é que tem nesse monte de caixa, aí, amigo?

O mecânico rodeia o carro, deslizando os dedos pela lataria avariada. Santos Passos responde no automático, sequer ouve sua própria voz. Sente a ausência do relógio no pulso, a sensação fantasmal da pulseira de plástico, o alarme ecoante na memória.

– Pra fazer a lataria e tudo mais, é trabalho pra mais de uma semana, amigão…

Algo mudou na estrada. O mundo foi substituído por um teatro caricato de si mesmo. O mecânico anda de um lado a outro tagarelando com uma boca de marionete, balançando toscamente seus braços e pernas de madeira. O céu, mais opaco que nunca, fundo tocável por trás das árvores intrigantemente uniformes de background genérico. Lembra de De volta para o futuro. Para viajar no tempo, era necessário acelerar a uma grande velocidade. Quando todo o público pensava que o acidente era iminente, Martin cruzava as teias de realidade em direção ao passado ou ao futuro.

– Agora se é só pra seguir caminho vai precisar dar um jeito no carburador, trocar uma das rodas da frente e verificar o óleo, até amanhã a gente resolve.

Algo mudou na estrada. O carro já está parado, mas Santos Passos continua acelerado. Seu coração roda a 200 km/h. Está na lanchonete do posto. Pela janela, o mecânico-marionete se enfia pelas entranhas do velho automóvel. O rádio canta Blowing in the wind entre chiados, enquanto o café desce quente por sua garganta. Uma mosca, único ser de fato vivo ali, cruza impune entre um caminhoneiro à beira da morte e seu flerte para a garçonete há pouco na vida.

– O senhor vai querer ketchup?

Santos Passos pergunta sobre o hotel mais próximo. “Lótus vermelha”. Três quilômetros à frente. Ao partir caminhando pela estrada, sente, mesmo sem olhar, que mecânico, caminhoneiro e garçonete se reúnem no pátio do posto para se despedir, como num fim de peça. O vento trafega pela via expressa e as caixas vão ficando pra trás. Pelo menos até a próxima manhã.

– Alô?

Sem o Cássio, o tempo, pouco a pouco, se desprende da mente, vai se tornando hábito pitoresco. Está deitado em uma cama redonda e vermelha, olhando para o mundo através do espelho do teto e o Santos Passos em tudo inverso que lá mora. Na TV, cientistas aventam a possibilidade da existência de aliens e há biscoito recheado no frigobar. A voz no outro lado do anacrônico fio é de quem acabou de acordar. Santos Passos dá bom dia.

– Pai?

É difícil explicar o que ele mesmo não entende. Precisar o momento exato de sua decisão ou seus motivos. Criar um discurso que não pareça tão ridiculamente teatral, artificioso. A própria voz do garoto, filtrada pelo fone de um milênio passado, soa a novela dos anos 80. É difícil não parecer mais um caso de abandono, uma fuga covarde ou qualquer outro clichê. Mas algo mudou na estrada. Pouco antes do acidente, o ponteiro do velocímetro tremendo, o vento sendo rasgado pelo metal. Santos Passos gritou pela primeira vez na vida. Não um grito instintivo, de medo. Mas um grito voluntário, despropositado, a simples afirmação de por primeira vez sentir o gosto da ausência de destino, de dever, de rotina. Santos Passos sentiu-se eclodir de uma caixa na qual havia entrado há muito tempo atrás. E o mundo fora dela era inteiramente novo e diferente.

– Avisa pra sua mãe que eu vou demorar a voltar…

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 07

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O carro abandonou a velocidade do motor para entrar em colisão com o acaso. Todos os dias de sua vida se uniram em um mesmo ponto. Futuro e passado convergiram para a duração infinita daquele momento. O ponteiro do velocímetro marcou instantaneamente o número zero. Por todo o corpo reverberou a onda de choque. Passos sentiu os ossos chacoalharem como se fossem de vidro. O para-brisas trincou, quebrando as luzes da estrada em mil pedaços. Seus ouvidos ensurdeceram num buraco negro. Outro segundo. O breve silêncio foi rompido pela queda do retrovisor. Ele ficou soterrado sob um monte de caixas.

Tentou gemer, mas o cinto de segurança esvaziara os pulmões. Os olhos estavam cobertos de fios de sangue. Tocou a ferida na testa e percebeu o pulso nu. A presilha do relógio havia se partido. Não tinha noção de que horas eram.

Os dedos trêmulos pressionaram a trava de segurança. A porta precisou de um empurrão para abrir. Desabou, caindo de joelhos no asfalto. Uma das caixas rolou para fora como se o perseguisse.

Passos levantou-se. Um chiado insistia por baixo do capô e o vento soprava vapor do sistema de resfriamento no rosto. Havia água vazando sem parar. Ele pôs as mãos na cabeça. A massa metálica da dianteira envolvia uma velha árvore à beira do acostamento. Seu tronco parecia um senhor de idade encarando-o com os olhos acusadores. O homem evitou-os e avaliou o estrago do veículo. Um dos faróis ainda funcionavam. Ajustou-o no lugar.

Ao longe, na direção para onde ia, notou luzes vermelhas piscarem na via oposta. Os automóveis abriam espaço para a ambulância passar. A garganta contraiu-se de vergonha. Os dentes rangeram e ele socou a lataria.

Voltou para o carro e tentou dar a partida uma, duas, três vezes. O sangue que escorrera da testa já estava coagulado, fazendo-o lacrimejar. Tinha chegado às portas do inferno, pensou, e Pandora não estava lá.

Tateou os bolsos do casaco. Não tinha cigarros. Tinha apenas um livro. O manual de Tzu poderia ter respostas para a guerra, mas não sabia nada sobre batidas carros, ou sobre homens comuns. Acendeu a luzinha e folheou as páginas. Lá pela página quarenta, no trecho em que Tzu ensina que na arte da guerra se deve potencializar os anseios do inimigo e usá-los contra os mesmos, Passos encontrou rabiscos irregulares de giz de cera. Um monte de círculos que não significavam nada, todos feitos por seu filho quando era pequeno. Ele tinha um filho. As lágrimas nasceram de algum rio escondido dentro de si e pingaram nas folhas. Secou os olhos. Estava escuro e era hora de ir. Jogou as caixas que atrapalhavam para o lado. Deu a partida pela quarta vez. O motor roncou como um moribundo, mas Passos persistiu. Pisou o acelerador até a queima de combustível estabilizar. Entendeu por que aquele carro era tão antigo.

– Você é um velho desgraçado… – disse, engatando a ré.

Os pneus rolaram o acostamento e esmagaram a caixa que havia caído, antes de continuar o caminho da estrada.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 06

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vou contar mais um segredo, não vou mais voltar para aqueles olhos cansados, se o velho Cássio diz que é hora de retornar para o brilho no fundo da boca, o hálito que sai dela confirma a repugnância que ela me tem causado, eu devia tê-la chamado de Pandora e não Marlene, se eu tivesse feito isso desde o início da história, eu poderia ter compreendido porque estas caixas são tão malditas, ainda sinto a língua de Pandora atacar os meus ouvidos mas suas palavras não me seduzem, o tanque cheio chama, a estrada à frente pesa, piso com força, o velocímetro marca mais números que o meu Cássio, o carro resmunga mas acelera, neste momento rapidez é palavra de ordem, quem ainda manda aqui sou eu, isso eu grito o mais alto que consigo, grito pra mim mesmo, em voz alta, em velocidade alta, em tom de escárnio, agarrado ao volante, nosso filho ou as caixas, foi o que ela disse, como se a escolha resolvesse todas as nossas diferenças, custei a perceber que nada havia que nos aproximasse, não tinha nada que nos fizesse felizes para sempre, meu erro não foi dar ouvidos à Pandora, meu erro foi acreditar que somente a morte poderia nos separar, piso com mais força e o carro resmunga como se a culpa fosse minha e não dela, o ponteiro atinge uma velocidade inédita, meu erro foi sempre voltar para aqueles olhos depois de um dia inteiro entre caixas e pedidos e reclamações, o combustível que me conduzia somente até o próximo posto me impediu de acelerar por dez anos e se agora eu decido fazê-lo é porque essa combustão está percorrendo o corpo todo, então eu corto um carro, corto outro, ziguezagueio na estrada numa guerra que me força a pisar mais forte, que Marlene vá pro inferno, que Pandora vá pro inferno, corto mais um carro, vencer o inimigo sem lutar é uma arte, Tsu fala pra mim, mas quando aquela que eu amava torna-se meu adversário, a luta passa a ser inevitável, eu falo pra ele, seguro firme o volante tentando estabilizar o carro, acho que nunca fui tão veloz quanto hoje, nem tão estúpido também, o carro resmunga, o freio falha e eu perco completamente a minha direção.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 05

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Car, por Jocelyn Maceachern. (Disponível em: http://jocemac.deviantart.com/art/car-84022774)

“O produto está errado.”

A frase ecoava na minha cabeça sem parar.  “O produto está errado”. Errado como? Com defeito? Não era isso que você queria? Eu devia ter perguntado por telefone, mas quanto menos se fala nessas circunstâncias, maiores são as chances do comprador desistir da devolução. Eu mal consigo bancar combustível para fazer vendas, quiçá para fazer trocas. O estômago chega a revirar.

“O produto está errado.”

Uma derrota, porque às vezes eu me sinto um mestre estrategista. Vender é um jogo, mas não um jogo comum. Eu não leio manuais de vendas, pois meu produto não é um produto qualquer. Eu leio A Arte da Guerra, de Sun Tsu. A edição de bolso já molhou, secou, descascou e a capa descoloriu. Mas é como um amuleto. A suprema arte da guerra é vencer o inimigo sem lutar. Alguém fez isso comigo, anos atrás. Torceu minha vontade, mudou as cores do mundo, me convenceu de que o que é não é.

“Não compra isso. Não compra. Você nem sabe se essa coisa vai vender. Quer pegar um empréstimo? Você é louco? Bem que minha mãe me avisou antes de eu casar. Se você insistir com isso eu vou embora. Vou levar nosso filho e você que fique com essas coisas.”

Sempre que lembro dessas palavras sinto dor. Mas hoje uma frase me causa dor maior:

“O produto está errado!”

Eu toquei a campainha e esperei. Toquei a segunda vez, sem esperar muito, pois torço para que ninguém atenda. Ouvi um assobio, mas fingi que não. Virei as costas para ir embora, e a porta se abriu.

– Ah… boa noite. Meu nome é…

O menino sequer abriu a boca, apenas estendeu a caixa como que para se livrar de um tesouro maldito.

– Bom… Não ficou claro qual é a reclamação. Seu pai está em casa?

O menino estendeu a outra mão.

– O dinheiro.

– Querem o dinheiro de volta? Imaginei que trocariam o produto… Neste caso, eu preciso fazer um relatório completo da reclamação, e…

Se você conhece ao seu inimigo e a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Meu inimigo, contudo, se escondia atrás de uma criança, e as crianças são difíceis de se conhecer. Se eu tivesse ao menos tido tempo de criar meu filho…

Dinheiro perdido. Voltei para o carro com duas caixas. Os faróis da frente pareciam olhos entristecidos, implorando para que não as pusesse de volta. Os pneus traseiros estavam murchos.

Vou contar um segredo. Nos últimos dez anos, eu sempre tivera a mania de abastecer pouquíssimo além da quantidade de combustível que gastaria até o próximo posto. É quase um jogo. O velho Cássio contava o tempo, eu ouvia o ronco do carro e calculava o consumo. Porém ali, devolvendo as duas caixas ao banco traseiro, senti-me sufocado. Sonhei com uma saída.

Naquela noite, completei o tanque do carro.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 04

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The blinds, por Rafal Mrozek. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/The-blinds-165280985)

Inescapável, é o que se diz de algo para o qual não há retornos ou contornos que possibilitem alternativa diferente. Apenas um único caminho. As blackouts estão alinhadas de forma a impossibilitar que me vejam. Apenas um único caminho pode trazê-lo aqui, e é pelo lado par da calçada. Mas tanto o par quanto o ímpar estão repletos de carros dos moradores. Como não observou isto? Teve de retornar e estacionar o carro na esquina próxima.

– Preste atenção ao que vou recomendar, filhinho. Existem regras básicas de convivência que você precisa gravar na alma. A principal é nunca falar com estranhos. Mesmo quando este estranho for reconhecido como vendedor, instalador de luz, presidente, vizinho… Se alguém lhe dirigir a palavra, não responda prontamente. O maior erro que se comete é não se atentar aos motivos e explicações que este alguém deve lhe dar após uma não resposta. Vou dar um exemplo. Mas preste muita atenção na história que tenho de contar. É curta. As consequências para qualquer ato que cometemos é algo inescapável. E não há escolha para isso. Eu pedi a troca de algo. Portanto estão me trazendo outro produto e eu devo devolver o que está em minha posse. Faltam apenas algumas casas para que a nossa campainha toque. Não posso sair daqui, em hipótese alguma, mas estou acompanhando tudo pelas câmeras e pela brecha das cortinas.

Meu andar descompassado, carregando algo desprezível certamente já deve estar sendo notado pelos vizinhos, mas não me importo com eles, quem se importa quando um motoboy vai fazer entrega de produtos da farmácia ou quando o caminhão descarrega geladeira e armários, é tudo isso muito naturalizado, mas quando um homem já desgastado estaciona na esquina próxima seu carro suspeito e se encaminha para uma das casas da rua carregando uma caixa imensa, apenas ele, sem nenhum ajudante, isso certamente é visto como suspeitíssimo, provavelmente alguém já está com o celular pronto para acionar a polícia, ou alguém já retira de sua gaveta um revólver, certamente, pois consigo perceber movimentos nas casas do lado ímpar, janelas que se fecham bruscamente, portas semiabrindo-se.

– Preste atenção, são as últimas recomendações. Deixe que toquem três ou quatro vezes. Na segunda, dê apenas um assobio e um grito de “ok” rápido. Traga-me agora a caixa que está dentro do meu armário.

O principal problema de compras feitas pelo telefone ou internet é a possibilidade do equívoco. Devemos confiar que os tamanhos dos produtos não vistos, não tocados, não apreciados correspondam ao que esperamos.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 03

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O velho Cássio marca 18:35. O Garçom entra. “Tudo bem, com o senhor?”. A porta do banheiro está entreaberta. A cabine vazia. Um grande pedaço de merda, disfarçado de gato de Cheshire, sorri na privada. O coração está acelerado. O corpo sua em regiões ignoradas por um corpo dez anos mais novo. Santos Passos, vendedor, idade indeterminada pelas rugas, passa água no rosto. Fede a enxofre. Para ele, toda água de bica fede a enxofre. Imagina os ratos mortos, os ovos de insetos, o lodo, tudo sendo mascarado pela pedra amarela. Os dedos acariciam incrédulos a pele curtida durante anos pelo Sol. Quando foi que eu envelheci?

O velho Cássio marca 18:42. Está na mesa. A sua volta todos são iguais: espantalhos de terno, mastigando a comida de gosto já gasto pela rotina, olhos vidrados nas cores rodopiantes da tela. O horário é o limbo que separa o fulgor de vida das crianças de escola e comerciantes de meio-dia e a beleza familiar dos jantares noturnos. O almoço das quatro é a reunião de todos os restos: sempre que os restos de uma opção começam a esfriar no mostruário, os garçons, para não travar o fluxo, despejam comida nova por cima, misturando-a com o resto da antiga. Às 16 horas, só permanece no restaurante aquilo que ninguém quis, aquilo que circula entre as remessas novas, esperando ter a sorte de acabar num prato, mas esfriando conforme só lhes resta contemplar o fundo da bandeja.

O velho Cássio marca 18:52. O garfo desenha um redemoinho no molho de salada. Subitamente pareidólico, o rosto do menino se esculpe no nervo de carne que restou. O sorriso debochado. A ponta de catarro quase alcançando os lábios. A camiseta regata dos odiosos cartoons pós-modernos. O corpo era tão frágil que facilmente romperia entre suas mãos. Seriam necessárias apenas quatro caixas para carregar os pedaços do corpo nos bancos traseiros do carro. Quando foi que eu deixei de gostar de crianças?

O velho Cássio apita às 19 horas. Nunca foi capaz de reprogramar o relógio. Há dez anos ouve, como os lamentos de um velho sino de igreja, o monofônico e estridente aviso de uma hora vazia. Nunca soube, tampouco, que botão – ou combinação – é capaz de fazer cessar aquele som. Há dez anos gasta dez ou mais segundos apertando as pequenas hastes de metal em busca do certo. Dez horas de vida gastas em alarme. A caixa recebe o cartão. Senha. Nota. Recibo. Comanda carimbada. Comprovante do estacionamento. Vazando papeis, segue para o carro. O que eu teria feito com essas dez horas se nunca comprasse o relógio?

O velho Cássio marca 19:10. O carro deixa a fila do estacionamento e entra para a grande fila chamada rush. O pequeno bibelô no retrovisor gira de um lado para outro. O coro de buzinas é um alarme Cássio em que milhares de pinos impedem seu desligamento. Um último cliente a ser visitado antes da cerveja na cadeira de praia do meio da sala. Antes dos olhos cansados da Marlene, seu hálito de shake alimentício e aquela sua prótese dentária que fica brilhando no fundo da boca.  Um cliente nas bordas da grande cidade, onde quase tudo fica para trás.

O velho Cássio cansado marca 19:45. Santos Passos na rodovia. A Lua é apenas uma fatia fina de luz ofuscada pelo brilho xenônico dos faróis.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 02

Coca cola, por Monika “Zi0oTo”. (Disponível em http://zi0oto.deviantart.com/art/Coca-cola-262887048)

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As nuvens estavam tão unidas que pareciam uma tampa branca fechando o céu. No rádio do carro nenhum anúncio de chuva. O vento soprava folhas secas pela janela do motorista. Desgraçado, pulsou a mente do homem enquanto girava a manivela para o vidro subir.

Quarenta e seis caixas ainda chacoalhavam. Não saberia dizer quantas casas visitou, quantos cães tentaram morder sua perna, quantas portas fecharam no seu nariz. Eram figuras anônimas em sua mente igual a uma lista telefônica.

Exceto uma.

– O que uma criança idiota sabe? – resmungou em voz baixa olhando para o retrovisor. O espelho estava tão deteriorado que ele mal via os contornos do rosto. Havia uma mancha cor de cobre bem suave que lembrava bastante o formato da Itália.

– Fechou a porta na minha cara? – continuou, esfregando inutilmente um trapo de camisa no espelho. – Um dia a casa pega fogo. E vai pedir ajuda pra quem? O primeiro estúpido que encontrar na rua. Moleque idiota.

O estômago apertava. Não conseguiu vender. Então insistiu, sacrificou o horário do almoço. E as caixas continuaram lá. Acenavam de um lado e para o outro no banco de trás. Só havia bebido uma lata de refrigerante. Sempre lhe disseram que coca ou café com estômago vazio causava úlceras. Devia ser lenda. Coisa de gente fresca.

Abriu outra lata de coca quente apoiando os cotovelos no volante e derramou pela boca seca. Sentiu o sangue fluir pelo pescoço e preencher a cabeça. A visão escureceu e voltou como tela de TV antiga.

– Precisamos comer alguma coisa, – disse encarando o vulto de caixas pelo retrovisor.

O carro atravessou uma alameda e virou para o estacionamento do primeiro restaurante que encontrou.

Entrou pela frente e sentiu uma lufada de ar frio. Havia telas de plasma penduradas em todas as paredes. As pessoas assistiam enquanto tilintavam os talheres nos pratos e tagarelavam. O garçom aproximou-se com um sorriso de apresentador de programa de auditório. Aqueles dentes brancos e rugas fechando os olhos o incomodavam.

– Boa tarde. O senhor vai querer mesa pra dois?

– Boa noite, – já passara das seis – Pra um.

A cara do atendente parecia couro curtido. Daqueles prensados que não enrugam. O sorriso persistiu até chegarem a uma mesa próxima à janela.

– Quero esse negócio aqui, – disse apontando uma fotografia qualquer do menu.

– Ok, senhor, – anotou no bloquinho. – Quer a entrada enquanto isso? Algo pra beber?

– Coca.

– Apenas isso, senhor?

– Só.

O garçom deu dois passos para trás e se virou graciosamente. Que bicho estranho, pensou.

A Coca ia ser servida num copo com gelo por outro garçom, mas ele interrompeu tocando-lhe o pulso. Bebeu no gargalo. Não confiava no gelo de restaurante.

Tomou metade em uma só golada. A garganta ficou dormente. Quando abaixou o copo sentiu a bexiga latejar.

A porta do único banheiro do restaurante estava trancada. A sombra de alguém caminhando fazia a luz por baixo da porta piscar. Ele franziu a testa. Parecia que estava correndo de uma ponta a outra.

Coçou debaixo do relógio no pulso. Conferiu quatro vezes seguidas que ainda eram dezoito horas e vinte minutos. Não suportou e bateu.

– Tudo bem aí dentro? – disse tentando parecer preocupado.

Não havia som. A sombra parou um segundo. Uma fresta se abriu, mas ele não notou nada até mirar por baixo.

A criança fechou rapidamente e girou a tranca. Tinha certeza. Era um garoto, o mesmo garoto que zombara dele mais cedo. Também ouviu um barulho metálico chacoalhar. Provavelmente um ferrolho. O homem tentou impedir com o punho fechado num reflexo retardatário e inútil.

– Moleque escroto, – disse, mas não baixo o suficiente. Sem perceber o som dos talheres e do burburinho diminuírem, bateu na porta contendo a força.

Jonatas Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 01

Penalty Box – Por John Dykstra. http://cameraguyy.deviantart.com/gallery/

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“vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e já nem sei mais, e aí tenho que contar tudo de novo porque perdi o fio da meada nesta jaula feita de caixas, elas não pesavam quando eu comecei, agora elas parecem feitas de puro concreto, o início parecia uma jornada que só quem tivesse culhões poderia aceitar a coisa, eu tinha culhões e tinha orgulho deles, tinha orgulho da minha sala cheia de caixas e eu pedindo mais e todo dia mais pra suprir a demanda, mais pro dia seguinte, mais ontem, mas hoje eu arrasto meu corpo até elas, não porque quero, sim porque preciso, papelão aprisiona mais que grilhões de ferro e meu dia só mostrou metade dos dentes, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, vou me livrar da trinta agora, rua Marta Vidal, duzentos e quarenta e seis, me arrastei até a entrada da casa, apertei a campainha e o que fiz foi esperar, uma criança abriu a porta, “boa tarde, posso falar com seu pai ou sua mãe?”, apenas me olhou, uns seis anos de idade talvez, resposta nenhuma, “seus pais estão em casa?”, continuou me olhando, “eu tenho uma entrega”, fechou a porta e minha frase ficou incompleta, saber que ainda tenho outras entregas pra fazer me atormenta, sufoca, como se estivesse apertado dentro de uma destas caixas, encolhido, esmagado, sendo transportado pra um lado e outro sem que pudesse reclamar do espaço de merda que me sobrou, apertei a campainha novamente e o que fiz foi esperar, a porta foi aberta pela mesma criança, o mesmo olhar, a mesma cena e eu igualmente fatigado, não conseguia lembrar quantas entregas ainda tinha que fazer, apesar de ter anotado minutos atrás, eu tinha fome, meu estômago estava embrulhado, minha língua dobrava como papelão dentro da boca, se eu estivesse de fato dentro de uma caixa, meus ossos estariam sendo comprimidos, “você está sozinho?”, porta fechada outra vez, frase completa pelo menos, o peso da caixa estava a ponto de se tornar insustentável, mas era preciso, dedo na campainha uma vez mais e o que fiz foi esperar”

Luciano Cabral

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Caixas de Sobra, uma introdução

Matryoshka, por Deborah. (Disponível em: http://xdeborahx.deviantart.com/art/Matryoshka-96310610)

“O mundo não seria o que é agora se eu tivesse rejeitado Pandora. Mas eu era pequeno. Há momentos em que uma data específica, as palmas, as músicas, os doces, os convidados e a inocência nos levam a abrir caixas. Naquele dia, não sei de quem ganhei o presente, não me recordo de todos que estavam lá. Quando eu menciono o episódio, não há quem se lembre. Inventar não é do meu feitio, mas comecei a duvidar desta lembrança. Parece que eu sou o único que consegue recapitular que havia um presente embrulhado, que chama minha atenção porque é uma caixa grande. Um papel brilhante que me atrai como mosca na luz. Eu voo até ela com toda a selvageria que eu posso juntar e que me faz reduzir o embrulho a pedaços. Avisto uma caixa de papelão por baixo daquilo tudo, rasgo o lacre que me atrapalha e Pandora não para de sussurrar no meu ouvido. A voz dela é tão encantadora e ordena que eu abra a caixa.

Mas o que eu encontro é outra caixa dentro da caixa. Pandora não desanima. Pressiona os lábios na minha orelha, mergulha a língua no meu ouvido e exige que eu continue. Rasgo mais um lacre e me deparo com outra caixa. A língua de Pandora ainda está no meu ouvido, mas vai perdendo o encanto. A terceira caixa já é do tamanho de uma criança do meu tamanho e tenho medo de abri-la e me dar conta de que eu estou indo em direção ao nada.

Isso faz tempo. Mas está tão vivo pra mim quanto estas caixas que me rodeiam agora. Quando penso nisso, o que vem logo depois é decepção. Construí um mundo feito de papelão, um mundo quadrado e sem conteúdo. Me espanta que apenas eu lembre desta história. Tanto que me pergunto se Pandora algum dia existiu.”

Caixas de Sobra é uma história sobre o meio. Escrita por cinco autores, mantém como princípio a liberdade criativa para que cada episódio seja não só uma surpresa para o leitor, mas também para o autor que lhe dará a sequência. Sem a possibilidade de um fim planejado, de um enredo harmônico, Caixas de Sobra acaba por imitar a vida: começa e termina em um ponto arbitrário de uma linha demasiado longa para deixar ver seu início ou fim.

Acompanhe conosco essa road trip que mostrará a jornada de um vendedor e seu interminável, indesejado e inseparável estoque de mercadorias contra a desesperadora falta de sentido da vida contemporânea. Veja como o protagonista tentará encontrar sentido nos lugares e fatos mais insólitos da vida.

Siga conosco Caixas de Sobra, todas as quartas-feiras, 20h, no Poligrafia.

Projeto Poliscrito

Typewriter, por Scott L. Kho. (Disponível em: http://scottkho.deviantart.com/art/Typewriter-18164671)

A ideia do Projeto Poliscrito funde dois princípios que inegavelmente fazem parte da produção contemporânea de ficção: a narrativa seriada, popularizada principalmente através das séries de tv (mas também populares na forma de novelas, quadrinhos e até alguns jogos narrativos modernos como Life is strange); e a narrativa coletiva, em que diferentes autores se intercalam na escrita de uma mesma obra, marcando-a com seus próprios estilos, enfoques e enredos.

Dessa forma, desejamos com o Projeto Poliscrito, produzir narrativas longas (sem um encerramento previsto) que serão semanalmente postadas no blog. Cada episódio dessa narrativa é escrito por um dos membros do blog, que se alternam em uma ordem estabelecida para manter a maior distância entre os estilos de escrita. Com o tempo, conhecendo como cada um de nós escreve, será possível ver formar-se um ritmo próprio da narrativa, que oscilará entre escritas memorialistas, fluxos de pensamento, ação, suspense e violência.