Quer uma dica sobre o que assistir neste fim de semana? Experimente “Ares”.

ARES

por Lucas Carvalho

As distopias têm passado por maus tempos. Com a recente popularização do gênero, inclusive entre o público adolescente, não surpreende nos depararmos com títulos que abordam “temas profundos”, mas não conseguem nem de longe causar o impacto que pretendem.

Na indústria estadonidense, por exemplo,  são poucas as produções de distopias que realmente valham a pena. Uma amostra dessas poucas é o magistral retorno de Mad Max, em 2015. Mas o que mais tivemos de realmente bom de lá pra cá?

Talvez por isso, os olhos do público voltem-se para filmes não-americanos, como o coreano-francês Expresso do Amanhã [Snowpiercer], ou filmes pelo menos baseados em premissas para além da terra do tio Sam, como O Vigilante do Amanhã [Ghost in the Shell]. A propósito, porque será que os tradutores brasileiros gostam tanto de colocar o termo “do amanhã” nos títulos?.

A verdade é que, no meio de algumas dessas produções, podemos encontrar verdadeiras pérolas. Creio que esse seja o caso do filme francês Ares.

Dirigido por Jean-Patrick Benes, e contando com a atuação de Ola Rapace e Micha Lescot, Ares foi capaz de criar um mundo futurista e pessimista surpreendentemente convincente.

Ares é o nome artístico de um decadente lutador de um show de televisão estilo UFC, que teve o fim de seus dias de glória há dez anos, após um AVC causado pelo efeito colateral de uma droga estimulante, da qual foi cobaia. Numa Paris arruinada, imersa em instabilidades políticas, onde um corporativismo desumano toma conta de tudo, Ares precisa lidar com problemas do cotidiano: familiares envolvidos em grupos revolucionários criminalizados, violência urbana, miséria. A solução para seus problemas surge quando uma nova droga, compatível apenas com seu sangue, faz com que o interesse de uma grande corporação recaia sobre sua carreira.

O background é perfeito. A cidade emana uma atmosfera que poucas distopias conseguiram atingir. Os personagens são persuasivos e cativantes. O enredo é bem amarrado, interessante, tenso e com boas cenas de ação. Em suma, Ares tem todos os ingredientes para ser um dos melhores filmes do gênero.

E, a boa notícia, pode ser facilmente encontrado no catálogo da Netflix.

“Desculpa a mão”, por Lucas M. Carvalho

“A troca de bala não findava. Precisou recarregar de novo, o som rangente do ferro roçando, as cápsulas em encaixe. Ramón Silva, cinco metros à frente, parecia ter acertado um deles. Flores quis avançar, mas uma bala ou outra passaram ferozes, o barro do chão arrancado, grama pelo ar. Mais atrás, o uruguaio travou em medo, sem avançar nem recuar. Cunha, homem quieto, mas melhor atirador do bando, estava ferido no braço. Dois ou três chimangos caíram, talvez mortos, talvez se fingindo de morto – mas outros surgiam sem parar. Sem parar. Flores sentiu um aperto no peito e um amargor nos lábios quando percebeu que uma comitiva inteira saía do esconderijo nas árvores pro confronto.”

Abandando o tranquilo litoral de “A pedra da tristeza”, viajamos até o sul do país, em plena Revolução Federalista no fim do século XIX. Com uma narrativa capaz de nos imergir nas práticas e expressões típicas do local, Lucas faz sua homenagem ao regionalismo sulista que tantos frutos rendeu à nossa literatura. Penetre as trincheiras inimigas conosco:

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“A pedra da tristeza”, por Luciano Cabral

“foi quando a mãe percebeu que no lugar onde o filho sempre sentava pra esperar o pai, tinha uma pedra, a pedra tinha a forma e o tamanho do menino dela como quando ele sentava bem ali, ninguém conseguiu arrancar a pedra de lá, era pesada, teimosa demais, batizaram de pedra da tristeza”

Houve um tempo em que descobrir o Brasil, na literatura, era olhar pro interior, pra onde as marés cosmopolitas não alcançavam a alma nacional. Lar de brasileiro em estado bruto, que aprendeu com a própria terra o significado do mundo. O tempo passa e cada vez mais o concreto vaza pelas frestas pavimentadas do país, levando mais e mais capital pro interior, lavando de franquias e multinacionais a singularidade captada pelas mãos sedentas de um Graciliano Ramos, de um Guimarães Rosa. O Poligrafia, neste ciclo, resolve homenagear essa visão encantada de um país “pra dentro”, que talvez nunca tenha existido se não nas memórias e invenções de uns quantos sonhadores; resolve falar desse Brasil que se desequilibra no fio fino da realidade e tropeça no folclore; desse povo que, sem nem saber o tamanho do Brasil, o inventou. E se inventou. Para a abertura, nada melhor que uma história de pescadores. Como diz o ditado, confie desconfiando dessa narrativa sobre o mar e o homem, a natureza e o além.

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“Um império cai, um soldado retorna”, de Pedro Sasse.

“Fileiras e fileiras preenchidas por iludidos. Iludidos que crescem e aprendem a apertar o gatilho e fazem o trabalho que antes as máquinas faziam… elas… elas e os clones tinham uma desculpa pelo menos, eram programados para aquilo… qual a sua desculpa pra puxar o gatilho, Nar? Que história bonita você conta pra si mesmo antes de dormir pra justificar a explosão de um planeta?”

Talvez não seja a franquia mais premiada. Talvez os filmes não sejam lá tudo isso. Tem gente que reclama do roteiro. Outros da direção. Mas a maioria, quando ouve a composição de John Willams, sente a mesma vontade de cruzar o espaço desconhecido na velocidade da luz. Seja nos sujos bares de Mos Eisley, nos saguões imperiais ou mesmo nos pântanos de Dagobah, a Força se move dentro daqueles que acompanharam a saga de George Lucas. Pedro Sasse, homenageando o universo de Star Wars, reflete sobre o que poderia acontecer durante a volta de um dos incontáveis (e descartáveis) Storm Troopers para casa após a queda do Império.

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“Jade não gosta de mentiras”, por Lucas M. Carvalho

“- Desde que larguei Hogwarts, no sexto ano, tenho dedicado minha existência a aplicar golpes. Digamos que eu tenha descoberto um talento peculiar para essas coisas. Atuei durante quase vinte anos. Juntei enormes fortunas, mas perdi tantas quantas, porque quando se escolhe essa vida, não é incomum nos metermos em terríveis enrascadas… Há quinze anos resolvi me concentrar num golpe derradeiro antes de minha aposentadoria.

– E esse golpe… seria contra mim?

– Sim”

Em um novo conto do ciclo Releituras, Lucas M. Carvalho resolve arriscar-se por um dos mais famosos becos da literatura fantástica contemporânea, mostrando um pouco do lado obscuro do mundo bruxo. O que aconteceria se os olhos dos leitores se afastassem dos prodigiosos heróis e observassem o submundo da sociedade de Potter? Como faz um golpista para sobreviver a feitiços de observação e poções da verdade?Em homenagem a saga que nos encantou quando menores e ainda hoje conquista as novas gerações, Poligrafia apresenta a intrigante aventura de “Jade não gosta de mentiras”.

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“Tentação”, por Luciano Cabral

“do lugar de onde eu tinha vindo, a temperatura não era como ali, nem a paisagem era tão bonita, por isso, eu me perdi em pensamentos, sentindo o vento, vendo aquilo tudo, era tão calmo e tão pacífico que eu peguei no sono ali mesmo, na grama”

Existe um conto japonês chamado “Dentro de um bosque”. Nele, um assassinato ocorre no bosque. Temos acesso apenas aos depoimentos. Todos contraditórios. Nenha prova, nenhum rastro, apenas vozes discordantes tensionando a realidade. Quando a verdade é completamente inacessível, o que resta? Muitas verdades ou nenhuma delas? Ou apenas escolhemos a narrativa mais confortável? Quem sabe deixamos que escolham uma delas para nós… “Tentação”, em poucas palavras, nos convida a refletir mesmo diante dos sólidos discursos da tradição ocidental…

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“Dupla Fenda”, por Lucas M. Carvalho

“Precisava decidir. Cabia a ele, o alfa, escolher se seguiriam para a terra verde ou se desceriam o rio. Em direção à terra verde poderiam desfrutar de animais e sombra. Pelo rio teriam água e peixes. Não sabia em qual dos dois haveria predadores. Não sabia em qual dos dois haveria bandos hostis. Neste momento, no instante imediato antes de tomar a decisão, cai o pano e a história termina”.

Um dos mais seduzentes poderes da histórias é a ideia da causalidade.  Ainda que hoje a disciplina venha mudando suas concepções, por muito tempo vimos o passado da civilização como uma narrativa bem encadeada, em que cada evento colaborou para a existência do seguinte, como uma grande trilha de peças de dominó. Mas, e se, de fato, toda nossa realidade dependesse de uma única decisão, de uma única bifurcação no caminho do homem certo no ponto certo da existência do universo? No conto de hoje, Lucas M. Carvalho explora as possibilidades da história da civilização, da história e do tempo.

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“Ainda não”, por Luciano Cabral

“(ele afasta a mão da prostituta mais uma vez) passei anos me tratando, um tempo depois, conheci Clarice, era escritora, de coração selvagem, muito inteligente, escrevia mal mas eu achava, eu achava que a gente podia se dar bem, a gente se dava bem, mas ela ficava olhando as estrelas à noite, dizia que estava esperando o filho voltar, que ele tinha fugido pra outro planeta, com medo dos baobás”.

Já ouvi dizer que toda prostituta precisa ter um quê de terapeuta. Na maré de fetiches sexuais sempre acaba entrando um caso de insegurança, uma alma solitária, alguém precisando de um abraço, gente buscando apenas um lugar pra não ser julgada. De fato, talvez sejam essas meninas que mais intimamente conheçam a alma humana, livre de todas suas barreiras, pura e profunda nudez. No conto de hoje, Luciano Cabral abre cortina dessa intimidade para revelar um caso de amor único: um homem e suas muitas amantes da papel.

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“Nunca se esqueça”, de Lucas M. Carvalho

A princípio, o tema Amor pode dar a impressão que o ciclo de contos será uma recorrência de relatos românticos, desses que nem os mais apaixonados amantes aguentam mais escutar. Uma de nossas premissas, contudo, é evitar o lugar-comum. Sendo assim, não espere, ao longo das próximas semanas, histórias convencionais de amor, pois ele surgirá onde menos se espera, das formas que menos se espera, com as resoluções que menos se esperam. É o que faz Lucas, ao começar o ciclo retratando o amor divino e o amor mortal numa releitura do Hino da Pérola, texto gnóstico do século  2º. Com ares de narrativa mítica, acompanhe a história de “Nunca se esqueça” tendo em mente que amor, ainda que universal, assume as mais distintas e peculiares expressões culturais.

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