“Polaroid”, por Pedro Sasse

“Vê-se, ainda que sem detalhes, uma família-filme-americano. Homem de avental e faca de churrasco conversando com homens de lata de cerveja na mão. Todos embalados em uniformes de gente bem sucedida fingindo estar a vontade. Mulheres, ao Sol, também seriadas, mínimos biquínis, máximos óculos escuros cobrindo um terço dos rostos brilhantes de protetor solar. Só uma criança, rodeada, soterrada em plásticos multicoloridos, pás, baldes, bolas, carros, flautas e boias. Brinca com um galho de árvore, apontando para o céu, como se fosse a mais forte das armas, capaz de matar o próprio firmamento que os abrigava”

Em uma de minhas idas a brechós, eu encontrei um quadro velho ainda com retrato. Não era nem tão velho para compreender apenas rostos desconfortáveis pela novidade da máquina, nem tão novo para dar manchar de duck face a aura da moldura. Algo anos 80, 90 talvez. Um casal no campo. Voltei pra casa (após a compra de dois ou três objetos completamente inúteis) me perguntando sobre a misteriosa felicidade por trás da anônima fotografia. Eram de fato um casal? Quanto tempo ficaram juntos? Quem tirou a foto? Foi no Brasil?

Muitas das boas histórias de amor podem estar pra sempre guardadas atrás do mistério de fotos perdidas em álbuns velhos no canto dos armários. Amores cujo nome já desgastou da memória. Amores dos quais só resta uma embaçada lembrança, uma impressão de sonho. Amores escondidos em rugas que já cansaram do girar da terra e vivem agora perdidas num passado que lentamente se amarela.

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“Ainda não”, por Luciano Cabral

“(ele afasta a mão da prostituta mais uma vez) passei anos me tratando, um tempo depois, conheci Clarice, era escritora, de coração selvagem, muito inteligente, escrevia mal mas eu achava, eu achava que a gente podia se dar bem, a gente se dava bem, mas ela ficava olhando as estrelas à noite, dizia que estava esperando o filho voltar, que ele tinha fugido pra outro planeta, com medo dos baobás”.

Já ouvi dizer que toda prostituta precisa ter um quê de terapeuta. Na maré de fetiches sexuais sempre acaba entrando um caso de insegurança, uma alma solitária, alguém precisando de um abraço, gente buscando apenas um lugar pra não ser julgada. De fato, talvez sejam essas meninas que mais intimamente conheçam a alma humana, livre de todas suas barreiras, pura e profunda nudez. No conto de hoje, Luciano Cabral abre cortina dessa intimidade para revelar um caso de amor único: um homem e suas muitas amantes da papel.

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“Nunca se esqueça”, de Lucas M. Carvalho

A princípio, o tema Amor pode dar a impressão que o ciclo de contos será uma recorrência de relatos românticos, desses que nem os mais apaixonados amantes aguentam mais escutar. Uma de nossas premissas, contudo, é evitar o lugar-comum. Sendo assim, não espere, ao longo das próximas semanas, histórias convencionais de amor, pois ele surgirá onde menos se espera, das formas que menos se espera, com as resoluções que menos se esperam. É o que faz Lucas, ao começar o ciclo retratando o amor divino e o amor mortal numa releitura do Hino da Pérola, texto gnóstico do século  2º. Com ares de narrativa mítica, acompanhe a história de “Nunca se esqueça” tendo em mente que amor, ainda que universal, assume as mais distintas e peculiares expressões culturais.

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Polistórias: Amor

Amor é uma questão, sem dúvida. Para os gregos, parecia ser fundamental, tanto que cunharam, logo de cara, quatro palavras diferentes (e eles tem mais) pra não faltar amor para ninguém. Aqueles que sempre estão por perto nos momentos de aperto, aqueles que abraçam apertado, que sempre aparecem nas fotos com grandes risos e grandes lágrimas, que abrem a geladeira sem precisar pedir, todos esses são do grupo da Philia. Para os beijos roubados debaixo de uma árvore, para o suor frio e o suor quente, para aquela mistura de dor e felicidade, para o acordar, olhar para o lado e sorrir, esses são o Eros. No Stergo ficam os incompreensíveis sentimentos de união entre o tio chato que pergunta sobre os namoros, a vó que dá meias de presente de natal, o insuportável irmão mais velho e aquele cachorro meio cego há treze anos na família. Agora, se a coisa vai além das idas e vindas do coração, se é aquele que nasce pequeno lá no fundo da alma e inunda a gente de um sei lá o quê que dá até calafrio, se o sentido é plena devoção, aí você está na sublime presença do Ágape, aquele que quebra a vontade do homem.

Para nós, novos latinos, a situação é menos conceitual e mais pragmática. Vamos usando a palavra conforme a necessidade, sem economia desnecessária. Num dia é eu amo chocolate quente, e no outro Como Deus amou o mundo de tal maneira. Dizemos eu te amo para o irmão, para a irmã, para a amigo, para a avó e para o amante. Sem perceber, sempre fomos um pouco afins ao poliamor, jogando nas mesmas quatro letras todo objeto de nossa afeição.

Não é de se estranhar, assim, que os poetas vivam ensaiando nos seus versos a definição sempre imprecisa desse metamorfo sentimento. Basta uma tentativa de apreensão para que surja, em um prédio cinza perdido na multidão de concreto da cidade, um coração solitário que resolva cair de amores pela Lua. Ou por um quadro. Ou por aquela pessoa que só vimos uma vez num sonho, ou à primeira vista, mas que nunca conseguimos esquecer. Aí já era. O sentido do amor fugiu outra vez.

Nesse ciclo do Polistórias, escreveremos tendo isso em mente. Da mais careta à mais inusitada situação, empreenderemos a frustrada missão de representar a pluralidade dessa gigantesca palavra chamada amor.