“Incidente Glória”, por Pedro Sasse.

“Eu não lembro qual foi a última vez que me senti assim. Me lembro de quando era criança e brincava de testar a coragem entrando em um porão, correndo por um salão mal iluminado, imaginando os monstros a ponto de me devorar. Lembro bem da pontada de medo no estômago, da adrenalina, dos sentidos aguçados pelo terror inventado e ainda assim tão real… É como se cada esquina da minha vida houvesse se tornado, de repente, um corredor escuro e eu, criança, fugisse de um monstro invisível sem jamais achar a porta de saída.”

Após os fragmentos recolhidos por fontes secundárias, como já havíamos mencionado, publicados o caderno de P. na íntegra. Relembramos que não é possível atestar a veracidade do evento. A própria existência do diário pode ser parte de um grande hoax. Muitas das informações nele contidas, contudo, mostraram-se verdadeiras após algumas pesquisas. Sem mais delongas, aproveitem o claustrofóbico relato de P.

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“Saída de emergência”, por Jonatas T. Barbosa

“O ruído das caixas de som dessa vez viera agudo, quase inaudível. Todavia, ele compreendera bem a mensagem, o sinal. Nada havia começado ainda. Era apenas um prelúdio. Um círculo familiar onde fim precedia o princípio. Um túnel aberto. Atravessava o tempo e o espaço, dentro e fora de sua mente. O caminho direto para seu próprio Inferno”.

O único corpo oficialmente encontrado nos trilhos do metrô na época do Incidente foi o de um jovem, entre os 20 e 30 anos, roupas simples, apenas o celular, uma carteira sem documentos e um isqueiro no bolso. O laudo da perícia médica indicou grandes doses de antidepressivo e outras drogas de uso controlado em seu sistema. Em comunicado oficial, o MetrôRio informou que o rapaz havia entrado na estação após o fechamento dos serviços,provavelmente sob o efeito de entorpecentes e morreu no meio dos túneis da linha 1. No Reddit, usuários não tardam em conectar o caso ao Incidente Glória, criando as mais diversas teorias. Jonatas Tosta, hoje, apresenta um conto baseado na possível experiência desse jovem durante o evento.

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“Momentos felizes que foram devorados”, de Luciano Cabral

“não lembro de alguém ter saído ou entrado no vagão quando o metrô parou no Catete, acho que eram os mesmos passageiros, o que me vem à mente são sempre os mesmos passageiros, os mesmos rostos, eles fingem que não lembram de mim mas eu lembro de cada um deles, daqueles que permaneceram até o fim como eu, mas também lembro dos rostos daqueles que foram devorados”

Um dos dois únicos relatos completos fora o caderno de P., o depoimento do músico Raul (o sobrenome foi omitido no documento original) é de interesse particular para o caso. Tanto ele quanto Patrícia, cantora e companheira de Raul, aparecem no diário de P. através de alguns relatos, ainda que não sejam nomeados. Enquanto alguns fatos entram em consonância, como os horários de alguns dos eventos do incidente, outros são drasticamente discrepantes das demais fontes.  Aqueles que defendem a veracidade do relato se apoiam no fato de ele ter circulado pela internet muito antes do achado do diário (e toda a atenção que a história ganhou recentemente), sendo, então, a primeira versão da história. Para esse grupo, o caderno de P. teria sido “sobrecarregado de cenas absurdas e diálogos demasiado bem encaixados”, o que daria ao caderno uma artificialidade a pesar contra sua autenticidade. Luciano Cabral, após ordenar os textos e editar as partes mais incompreensíveis, apresenta, hoje, o relato, sob o título não-oficial de “Momentos felizes que foram devorados”.

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“Fodase!”, de Gabriel Sant’Ana

“Palavrão arranhado no assento, próximo às pernas, sinal emblemático da posição em que o corpo tenta reorganizar suas forças desestabilizadas, nesta posição as mãos apoiam a cabeça para que não sofra tanto com a pressão da gravidade da situação, e também as mãos que se sustentam ao contato sofrível dos cotovelos sobre a calça, neste momento se amarrotando, e também a blusa perdendo o alinhamento dado previamente pela doméstica há tempos da família.”

Dr. Jorge Felipe foi uma figura central no incidente. Diversas vezes citado no caderno de P., não há contudo nenhum registro oficial de sua experiência durante o evento. Coletando as informações encontradas sobre o problemático ex-PM, tentamos reconstruir um pouco do que deve haver sido suas primeiras impressões da súbita parada do Metrô.

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“Quando eu contar até três”, de Lucas M. Carvalho

“Percebi que já era para estarmos em casa há muito tempo… Levantei a cabeça, as pessoas estavam nervosas. (suspiro) Perguntei pra minha mãe o que estava acontecendo. Ela disse que era só um problema no trem, e que logo voltaria a andar. (a voz falha, trêmula). Eu… Aconteceu tanta coisa. Sabe quando você sonha, sabe que sonhou, parece que foi ontem, mas não consegue lembrar direito? É como se tivesse uma névoa escurecendo a lembrança?  (respiração ofegante)(silêncio de oito segundos)”

Poucas semanas após a divulgação do caderno de P., um post de um usuário anônimo chamou à atenção no “Conspiracy”. Ele alegava trabalhar com seguros e disse que, havia sido convocado para inventariar um consultório que fora incendiado na Zona Sul do Rio. Livros, material eletrônico, móveis, tudo, segundo ele, estava em cinzas. Dentro, contudo, de um gravador algo obsoleto, ele encontrou uma fita intacta. O conteúdo, ele afirma, é uma sessão de terapia de uma das vítimas do “Incidente Glória” e foi transcrito na íntegra por Lucas M. Carvalho, dando início a série de relatos sobre o peculiar evento ocorrido nos metrôs cariocas há três anos.

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Polistórias: Confinamento

gloria-abreuadminDurante as nossas postagens de contos de Crime, convocamos nossos leitores para que nos ajudassem a eleger a temática do próximo ciclo. Agradecemos a todos que participaram e votaram. Mas, infelizmente, eventos recentes fazem alterar o nosso cronograma. Novas descobertas sobre um misterioso caso ocorrido há três anos no metrô carioca obrigam-nos a abordar o episódio que ficou conhecido como Incidente Glória.

UITP-Logo

No dia 28 de Janeiro de 2013, pela manhã, houve um apagão que paralisou boa parte do metrô carioca, mantendo diversos passageiros presos entre estações por mais de meia hora.  O caso, ainda que excepcional, não chamou muita atenção, uma vez que não causou maiores problemas. Na época, contudo, fóruns antimidiáticos e sites de credibilidade duvidosa começaram a divulgar um segundo evento no mesmo dia. Um trem teria ficado preso entre duas estações, a caminho da Glória, mantendo seus passageiros confinados por mais de dez horas seguidas. Ainda que os detalhes sobre o caso tenham sido discrepantes, ele se tornou um trend topic durante algum tempo.

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Uma vez que o incidente não foi publicado pelos grandes grupos jornalísticos (salvo certos indícios, como na foto abaixo, do G1), o tema caiu no esquecimento. Hoje a maior parte dos sites, que antes divulgavam a notícia, sequer existe mais. Um assassinato recente, no entanto, reavivou o caso.

Há um mês, a morte de uma jovem jornalista por causas misteriosas foi seguida pela publicação de um suposto caderno de anotações, com dados que apontam para o Incidente Glória – nome dado ao estranho evento no metrô. Sem acesso direto ao diário, tivemos que confiar no PDF enviado por um membro da comunidade Conspiracy, do Reddit. Nem mesmo ter acesso ao scan do caderno original foi possível, pois alegou-se que informações contidas ali (como a caligrafia da jovem assassinada) poriam em risco a família da jornalista.

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Entretanto, ainda que carecesse de credibilidade, o arquivo ganhou atenção dos mesmos grupos que antes espalharam a notícia do próprio evento. Caindo no gosto do público por seu conteúdo intrigante, ele se tornou recentemente uma espécie de bíblia underground das conspirações cariocas. Asssim, teorias para explicar o episódio proliferam. Grupos antigoverno veem no caderno do Incidente Glória a prova cabal dos desmandos do Estado e da manipulação midiática. Algumas comunidades falam em experiências militares. Até sites de ufologia estão interessados no assunto.

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Escavando os confins da internet, é possível encontrar não só teorias, mas também documentos: dados sobre a gigantesca UITP e a extensão de sua influência; as relações profundas da administração do MetrôRio com a política a nível nacional através da OAS; fotos que supostamente teriam sido tiradas dos próprios vagões; fotos do site da concessionária na hora do incidente, e de um importante portal de notícias na manhã seguinte (antes de ser retirado do ar). Somado a isso, há trechos de entrevistas compiladas pelo usuário Semperveritas, do Reddit. Segundo ele, foram gravações feitas por um dos passageiros do metrô que chegou a ver a situação do vagão na manhã seguinte ao evento (Clique aqui para ouvir o áudio compilado).

Sem querer atestar a veracidade da história, nem tampouco duvidando de sua possibilidade, nós decidimos recontar esse momento ímpar de mistério na cidade. O Poligrafia entrou em contato com alguns membros do Conspiracy e teve acesso aos trechos mais completos de algumas das supostas entrevistas transcritas (alguns fragmentos podem ser encontrados na versão em PDF do caderno).

Apresentaremos, então, durante cinco semanas, os contos produzidos sobre este incidente. Quatro de nossos membros, utilizando diferentes recursos narrativos, ficarão responsáveis por editar e organizar cada um dos depoimentos. Tentaremos, contudo, ser fiéis ao texto original.

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O quinto e último conto do ciclo será o aquivo PDF com o caderno transcrito. Ele servirá para que os leitores possam confirmar o rumo de nossas pesquisas. Com estas histórias, esperamos  trazer um pouco mais de luz ao misterioso caso do Incidente Glória.