“O mal da obviedade”, por Pedro Sasse

“Sabe, meu pai costumava dizer que o gosto pelo amargo é o que nos faz verdadeiramente diferente dos animais. Ele trabalhava em uma fazenda e passava o dia entre gado e galinha. Achava, lá pelos tantos da idade, que os animais tinham tudo para serem ótimos humanos: comiam, transavam, sabiam obedecer, gostavam de carinho e gritavam na hora da morte. ‘Mas nunca você vai ver um porco desses preferir um bom copo de doze anos em vez de um punhado de açúcar refinado, moleque’. Falava arrastando o bicho pros fundos da casa. O amargor, eu acho, faz parte do nosso instinto de autodestruição, de masoquismo, de aprender a negar o que o corpo realmente quer, Jessica”.

Os últimos casos não foram muito agradáveis pra você, eu imagino. Esse do vizinho que assassinou aquela família ainda ecoa na minha memória… Sabe que o criminoso ainda está foragido? Raramente são pegos, na verdade. Todo santo dia tem um homicídio novo na cidade. Todo santo dia um novo assassino não é capturado. Estão todos aí fora.  Se aglomerando… Uma bola de neve vermelha de sangue esperando para passar por cima de nós. Por isso eu só consigo dormir a base de muito remédio hoje em dia. Quem é que dorme tranquilo sabendo que há dezenas, centenas de monstros lá fora? Bom, não vou mais tomar seu tempo, você é alguém ocupado. Esse é o último caso, se serve de consolo. Mas fique atento, não é um caso fácil, não é trabalho de amador. Se descobrir algo me avise…

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Seção autoral de Pedro Sasse

“Ódio ao lado”, por Jonatas T. Barbosa

“Não devia ter reagido, sr. Lang. Não devia ter voltado pra casa. Não devia ter pego a arma escondida na sala. Deve ter se assustado com o sangue na soleira dando boas vindas. A natureza é simples. A natureza não usa fantasia de Deus. Ele não entendeu na primeira vez. Aquele cheiro de tripas assadas com merda dentro. Nem entendeu a segunda vez. Meu amigo Lang só ficava rindo e acenando do outro lado do muro. “Quer participar do nosso círculo de oração?”

Um bairro tranquilo, vizinhança aparentemente sempre alegre sorridente. Você passa de carro e acha que entrou em alguma cena de algum filme american way of life. Mas o cadáver no andar de cima é um lembrete que paz e harmonia é uma cortina frágil. Assim que o mais leve vento sopra, a verdade surge. E ela fede à decomposição e ódio. Quer mesmo saber a história desse corpo aí? Pegue algo para beber antes, relaxe um pouco a cabeça. Está bem? Você que sabe… Aqui estão as palavras do assassino:

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“Eu Sei Que Não”, por Luciano Cabral

“nós não temos muito tempo, então saiba que é um privilégio estar aqui conversando comigo, não posso te soltar, não posso abrir as janelas mas posso abrir sua cabeça, você apanha e entende, assim é o que a vida faz com todos nós, quem não entende tem que apanhar mais, o que você precisa saber é que baixar a cabeça não é desistir, é obedecer e obedecer é dizer não ao caos e sim à harmonia”

Eu sei que não foi agradável o caso M.N., acredite. Mas é preciso ser forte, ter um pouco mais de estômago. Ainda falta bastante lama para ser desenterrada e eu não quero que você abandone o caso… Hoje, tenho que confessar, a coisa toda é ainda pior. Ouça essa gravação e me diga se não eu estou certo quando digo que não é mais possível ter fé na humanidade…

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“M.N.”, por Gabriel Sant’Ana.

“Uma forte emoção faz vibrar Manuela. As imagens borradas de sua infância vão se desembaraçando. Inconsciente, sua mão desliza sobre as cicatrizes da nuca e das costas. Não foram pela queda da bicicleta ou do balanço quando tia Ilda a levava ao parquinho da praça… Não poderiam ser.”

Após o intrigante caso conspiratório alemão de “Deutsch Geister“, nossas investigações nos trazem de volta ao Brasil. Entre cartas antigas, recortes de jornal e segredos de família, Manuela revela um passado cada vez mais perturbador.

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“Deutsch Geister”, por Lucas M. Carvalho

“Não foi difícil encontrar Hadrian nas notas de óbito dos jornais locais. 38 anos, morto dia 02 de Maio de 1974, há onze dias. Causa mortis: intoxicação alimentar. As ruas de Berlim podiam até ser insalubres no pós-guerra, mas hoje o próprio Exército Popular Nacional pode tomar medidas radicais contra desleixo e sujeira. Não compete a mim questionar, porém pela honra de meu trabalho eu realmente desejo que Hadrian tenha sido assassinado.”

Abrindo os arquivos criminais do Poligrafia, Lucas M. Carvalho nos leva à Berlim dos anos 70. Através da reconstituição dos arquivos do Agente Heinz Forkel, desvela-se o mistério em torno da suspeita morte do agente Ulbiricht.

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Polistórias: Crime

Um dia desses, dei por abrir meu Capão pecado, do Ferréz. Logo no início, tem uma espécie de prelúdio feito pelo Mano Brown e uma frase chamou minha atenção:

“Aqui as histórias de crime não têm romantismo e nem heróis.”

Ele estava falando de São Paulo, do Capão Redondo mais especificamente. Mas a máxima poderia, sem dificuldade, ser aplicada ao Brasil como um todo. E principalmente à literatura brasileira. Num mundo de Dupins, Holmes, Poirots, Spades e Marlowes, o Brasil sempre pareceu um pouco desamparado. Com tentativas tímidas ilhando-se na história, a verdade é o crime, aqui, sempre falou mais alto que seus combatentes.

No começo do mês, após decidirmos, entre as sugestões enviadas, o tema “romance policial”, pensei que talvez as coisas estivessem mudando no país. Se até a Patrícia Melo de O matador tinha se rendido e criado uma detetive para salvar o dia, quem sabe todos nós não pudéssemos dar uma chance à ordem e à justiça…

Todos ao trabalho e semanas mais tarde a conclusão: é, Mano Brown, você continua certo. Os heróis ainda são escassos por aqui. Com uma abundância de textos focados nos criminosos, o Poligrafia, esse mês, será sequestrado e, cabe ao leitor seguir as pistas que semanalmente deixaremos.

Assim, como ninguém iria escrever romances e o “policial” não cola muito por aqui, apresentamos na terceira edição de nosso projeto, o Polistórias: Crime. A partir de segunda-feira, cinco semanas de assassinatos, pistas, depoimentos e psicopatas vos esperam. Prontos pra desvendar esse crime?

Boa leitura!