Polistórias: Amor

Amor é uma questão, sem dúvida. Para os gregos, parecia ser fundamental, tanto que cunharam, logo de cara, quatro palavras diferentes (e eles tem mais) pra não faltar amor para ninguém. Aqueles que sempre estão por perto nos momentos de aperto, aqueles que abraçam apertado, que sempre aparecem nas fotos com grandes risos e grandes lágrimas, que abrem a geladeira sem precisar pedir, todos esses são do grupo da Philia. Para os beijos roubados debaixo de uma árvore, para o suor frio e o suor quente, para aquela mistura de dor e felicidade, para o acordar, olhar para o lado e sorrir, esses são o Eros. No Stergo ficam os incompreensíveis sentimentos de união entre o tio chato que pergunta sobre os namoros, a vó que dá meias de presente de natal, o insuportável irmão mais velho e aquele cachorro meio cego há treze anos na família. Agora, se a coisa vai além das idas e vindas do coração, se é aquele que nasce pequeno lá no fundo da alma e inunda a gente de um sei lá o quê que dá até calafrio, se o sentido é plena devoção, aí você está na sublime presença do Ágape, aquele que quebra a vontade do homem.

Para nós, novos latinos, a situação é menos conceitual e mais pragmática. Vamos usando a palavra conforme a necessidade, sem economia desnecessária. Num dia é eu amo chocolate quente, e no outro Como Deus amou o mundo de tal maneira. Dizemos eu te amo para o irmão, para a irmã, para a amigo, para a avó e para o amante. Sem perceber, sempre fomos um pouco afins ao poliamor, jogando nas mesmas quatro letras todo objeto de nossa afeição.

Não é de se estranhar, assim, que os poetas vivam ensaiando nos seus versos a definição sempre imprecisa desse metamorfo sentimento. Basta uma tentativa de apreensão para que surja, em um prédio cinza perdido na multidão de concreto da cidade, um coração solitário que resolva cair de amores pela Lua. Ou por um quadro. Ou por aquela pessoa que só vimos uma vez num sonho, ou à primeira vista, mas que nunca conseguimos esquecer. Aí já era. O sentido do amor fugiu outra vez.

Nesse ciclo do Polistórias, escreveremos tendo isso em mente. Da mais careta à mais inusitada situação, empreenderemos a frustrada missão de representar a pluralidade dessa gigantesca palavra chamada amor.

“Ovelhas elétricas”, por Luciano Cabral

“é possível notar alterações na cor da pele do rosto e do pescoço principalmente, o corpo humano também produz secreções, a mais importante a se imitar, porque mais visível, é o suor, que comprova o esforço físico dispensado ao ato, o suor é o elemento que atesta a veracidade da energia dispensada, a quantidade e facilidade com que é  produzido sofre variações mas deve-se fazer com que gotas escorram pelos poros para que o esforço seja considerado significativo”

Escrito por Philip K. Dick em 1968, Do Androids Dream of Electric Sheep? foi, sem dúvida, um marco para a ficção científica, sendo responsável por fornecer as bases do eterno Blade Runner. Em um mundo em que a tecnologia foi capaz de reproduzir cada detalhe do corpo e da pisque humana, ainda há uma fronteira entre homens e máquinas? Com o aumento exponencial do uso de IAs no dia-a-dia, o problema da consciência robótica e o abalo ontológico do homem está cada vez mais presente na ficção e nos debates filosóficos.  Bebendo dessas questões e em homenagem à obra de K. Dick, o poligrafia oferece hoje “Ovelhas elétricas”, de Luciano Cabral.

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“Alice, ou a breve existência do universo”, por Pedro Sasse

“Eu não sou capaz de responder isso, Sara. Mesmo vocês não sabem exatamente o que é um sentimento. Um conjunto de interações neurológicas? Bioquímica? Uma alma imaterial que os faz diferentes, especiais? Sempre me disseram que eu emulo as emoções dos seres humanos, mas que é apenas um teatro. Mas sempre disseram que o teatro é algo voluntário. Você precisa querer fingir. Eu não quero parecer triste. Eu não gosto disso. Como pode ser isso um teatro?”

Já ouviu aquela velha história sobre a enorme semelhança entre o cérebro humano e o espaço sideral? Ou aquela que em cada célula humana pode haver um universo?  Pode parecer papo alternativo, mas suponhamos o seguinte: dispondo de uma infinita quantidade de papel, lápis e tempo, dispensando qualquer necessidade fisiológica e escrevendo sem parar, conseguiríamos nós escrever uma trama tão complexa e rica quanto o próprio universo ou em algum ponto a criatividade humana encontraria seu fim? Se de fato, fosse possível, o resultado não seria um universo saído inteiramente da nossa cabeça? Mantenha a questão em mente enquanto nos acompanha nessa curiosa história.

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“I.H.P.I.H.P”, por Gabriel Sant’Ana

“As atuais pesquisas do Instituto de Progressos Educativos determinam que sejam desenvolvidas competências cognitivas e socioemocionais, sendo necessária uma reformulação dos currículos, grades de horários, arquitetura físico-mental dos equipamentos escolares.

Fica determinado o fim do uso da palavra “escola”. Todos os espaços deverão ser responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos cidadãos, de acordo com suas especificidades. ”

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As distopias, principalmente as clássicas, são caracterizadas por sociedades autoritárias, em que há um grande controle sobretudo da língua, e consequentemente do pensamento. A novilíngua para Orwell, a restrição à literatura em Huxley, qualquer expressão não ordenada logicamente em Zamyatin. Gabriel Sant’Ana, com grande apreço por uma literatura fragmentária, traz um recorte dessas regras por trás de uma sociedade regida por curiosos princípios. Dando ao leitor acesso apenas a uma pequena fresta desse mundo, cabe a nós o trabalho de recheá-lo, ou explorar sua, ainda que breve, complexa superfície.

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“Tesseract”, por Jonatas T. Barbosa

“Não consegue ver bem o próprio rosto. Respira fundo. Conduz a navalha, observando os borrões de pasta de dente. Encosta o fio à altura da garganta. Quando eleva o pulso, a lâmina escorrega. Ele ajustou mal o barbeador. A navalha está solta. Não sente dor a princípio. Mas se assusta quando põe o dedo e nota o fluido vermelho pingando no chão”.

O tesseracto, também conhecido como hiper cubo, é um polícoro. Isso significa que ele é um objeto tetradimensional. Da mesma forma que uma sucessão de quadrados perpendiculares é capaz de formar um cubo, uma série de cubos perpendiculares é capaz de formar um tesseracto.  Enquanto seres da terceira dimensão, não podemos mais que fingir que imaginamos um tesseracto, uma vez que sua real forma, disposta ordenadamente pela quarta dimensão, nos escapa à representação visual. Resistindo, assim, ao sensível, o tessaracto apenas pode ser capturado de duas formas: através da rede rígida da matemática ou da movediça areia da literatura. Uma vez que nos foge o domínio das regras geométricas, oferecemos aos leitores, hoje, um hiper cubo de letras.

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“Jogos mentais”, de Lucas M. Carvalho

“Certo filósofo fala sobre um gênio maligno. É basicamente aceitar a existência de uma divindade que orquestra toda a realidade, mas considerar que ela é má. Ou seja, a motivação de tudo é maliciosa, um jogo sádico. As cores, os cheiros, o calor, o céu e a terra são ilusões feitas por ela. E se nós formos apenas joguetes desse ser?”

Você monta um quebra-cabeça. “Falta um pedaço dessa nuvem”, pensa. Vasculha entre as centenas de fragmentos até encontrar as curvas suaves e esbranquiçadas. É peça é perfeita. Mas não encaixa. Chega bem perto de se acomodar entre as frestas do todo. Mas não encaixa. Nessa hora, todos nos deparamos com o dilema: aceitar sua ineficácia em achar a peça certa ou acreditar que é o jogo que está errado. O conto de hoje me lembra essa situação. As peças parecem certas. Por que, então, não encaixam? Acompanhe conosco “Jogos mentais”, de Lucas M. Carvalho.

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Polistórias: Sci Fi

“A escuridão aumentava rapidamente. Um vento frio começou a soprar do leste em lufadas enregelantes, enquanto os flocos de neve caíam com maior intensidade. O mar se encrespou levemente, com um murmúrio longínquo. Afora esses ruídos da natureza, tudo era silêncio. Silêncio? Difícil descrever a profundíssima quietação que pesava sobre o mundo. Todos os rumores da humanidade, o balido dos rebanhos, o canto dos pássaros, o zumbido dos insetos, a agitação que forma como que a música de fundo de nossas vidas – tudo calara.”

A máquina do tempo (1895), de H. G. Wells.

Como leitor do século XXI, sinto que a ficção científica, cada vez mais, tem dificuldades de tocar a sensibilidade do leitor. Muitas delas são e sempre serão interessantíssimas, com enredos sólidos, abordagens inovadoras e construções de ambientes complexos e ricos em detalhes. Mesmo diante da exuberância de assistir Prometheus (2012), do veterano Ridley Scott, em um cinema IMAX 3D com Dolby Digital 7.1 – o que já soa, por si só, um aparato de ficção científica –, não pude sentir o aperto no peito diante da magnitude esmagadora do universo, de suas forças insondáveis, da presença ínfima do homem nesse colossal vazio. Foi bonito, interessante mas lhe faltava o Sublime.

Acredito que parte do problema seja o excesso de informação. Lovecraft já dizia que o maior temor do homem é o desconhecido. E dizia isso em um tempo no qual se começava a construir as noções modernas da real dimensão do universo. Às vésperas dos 80 anos de sua morte, está cada dia mais difícil dar de cara com o desconhecido. Uma rápida passagem pelo google me permite explorar cada centímetro da Terra, da Lua ou de Marte. Saber a distância de qualquer Sol. Ter acesso a qualquer idioma conhecido. Observar qualquer rua de qualquer grande cidade. Ver documentários sobre milhares de temas.  O problema, nesse cenário, já é outro: diante de tanta informação, muitas vezes conflitante, como escolher sua pauta para a realidade?

Outra questão é o próprio vigor do gênero. Após mais de um século de ficção científica, em que foram explorados planetas distantes, viagens no tempo, clonagem, o centro da Terra, o fundo do mar, dinossauros ressuscitados, alienígenas, vírus mortais, meteoros, mudanças climáticas catastróficas, inteligência artificial e um sem-fim de outros temas, há ainda como, de fato, surpreender o leitor ao ponto de abalar suas convicções, de maravilhá-lo ou aterrorizá-lo diante de uma nova visão da realidade?

A citação que abre esse breve ensaio foi a última vez em que eu pude sentir essa fagulha do sublime. A maior parte de A máquina do tempo, acredito eu, para um leitor contemporâneo, se enquadra no problema geral: é muito interessante, mas incapaz de surpreender. Lendo sem grandes expectativas, contudo, me deparei com um final surpreendente para aquela viagem (spoiler alert): o protagonista, após sua longa jornada pelo futuro, não retorna simplesmente ao passado. Ele continua avançando na ânsia humana de presenciar o próprio crepúsculo da existência terrestre. Conforme o Sol morre, o planeta se torna gelado e escuro, e toda vida se extingue, a máquina continua acelerando, até que não sobre mais que o silêncio aterrorizante em consonância com o frio universo que nos rodeia. Nesse momento, eu pude me ver no lugar do personagem. Em pé, contemplando o último sopro de vida rastejar por uma desolada rocha gélida orbitando os momentos finais do mesmo Sol que banhou toda a história da humanidade. A sensação é aniquiladora. Faz você fechar o livro e respirar fundo. Faz você estranhar o próprio cotidiano durante algum tempo, como uma espécie de efeito retardado. Tudo parece alheio. Frágil. Tudo parece ter um pouco menos de importância.

Se eu pude sentir isso em pleno século XXI, imagine como deve ter sido a experiência para um leitor nos momentos finais do século XIX. Esse é o sentimento de que, creio, um bom sci fi deva transmitir. Ainda que seja difícil, não afirmo que seja impossível. Claramente, mesmo hoje alguns conseguem chegar lá (ou bem perto): 2001: uma odisseia no espaço (1968), Contato (1997) ou  Inception (2010), por exemplo.

Depois de uma apresentação assim, acabo criando expectativas difíceis de cumprir. Caso consigamos, contudo, ainda que uma fração desse impacto, que consigamos alguns minutos de reflexão, com sorte alguns leitores viajando em sua própria mente, expandindo as ideias propostas nesses contos, consideraremos um bom trabalho.

Dessa forma, apresentamos a vocês leitores o quinto ciclo de nosso projeto de contos, o Polistórias: Sci Fi. Embarque conosco em cinco viagens pelos confins da realidade e explore livremente os cinco universos criados pela colisão da ciência com o lado mais selvagem da imaginação.

“Saída de emergência”, por Jonatas T. Barbosa

“O ruído das caixas de som dessa vez viera agudo, quase inaudível. Todavia, ele compreendera bem a mensagem, o sinal. Nada havia começado ainda. Era apenas um prelúdio. Um círculo familiar onde fim precedia o princípio. Um túnel aberto. Atravessava o tempo e o espaço, dentro e fora de sua mente. O caminho direto para seu próprio Inferno”.

O único corpo oficialmente encontrado nos trilhos do metrô na época do Incidente foi o de um jovem, entre os 20 e 30 anos, roupas simples, apenas o celular, uma carteira sem documentos e um isqueiro no bolso. O laudo da perícia médica indicou grandes doses de antidepressivo e outras drogas de uso controlado em seu sistema. Em comunicado oficial, o MetrôRio informou que o rapaz havia entrado na estação após o fechamento dos serviços,provavelmente sob o efeito de entorpecentes e morreu no meio dos túneis da linha 1. No Reddit, usuários não tardam em conectar o caso ao Incidente Glória, criando as mais diversas teorias. Jonatas Tosta, hoje, apresenta um conto baseado na possível experiência desse jovem durante o evento.

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“Momentos felizes que foram devorados”, de Luciano Cabral

“não lembro de alguém ter saído ou entrado no vagão quando o metrô parou no Catete, acho que eram os mesmos passageiros, o que me vem à mente são sempre os mesmos passageiros, os mesmos rostos, eles fingem que não lembram de mim mas eu lembro de cada um deles, daqueles que permaneceram até o fim como eu, mas também lembro dos rostos daqueles que foram devorados”

Um dos dois únicos relatos completos fora o caderno de P., o depoimento do músico Raul (o sobrenome foi omitido no documento original) é de interesse particular para o caso. Tanto ele quanto Patrícia, cantora e companheira de Raul, aparecem no diário de P. através de alguns relatos, ainda que não sejam nomeados. Enquanto alguns fatos entram em consonância, como os horários de alguns dos eventos do incidente, outros são drasticamente discrepantes das demais fontes.  Aqueles que defendem a veracidade do relato se apoiam no fato de ele ter circulado pela internet muito antes do achado do diário (e toda a atenção que a história ganhou recentemente), sendo, então, a primeira versão da história. Para esse grupo, o caderno de P. teria sido “sobrecarregado de cenas absurdas e diálogos demasiado bem encaixados”, o que daria ao caderno uma artificialidade a pesar contra sua autenticidade. Luciano Cabral, após ordenar os textos e editar as partes mais incompreensíveis, apresenta, hoje, o relato, sob o título não-oficial de “Momentos felizes que foram devorados”.

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“Fodase!”, de Gabriel Sant’Ana

“Palavrão arranhado no assento, próximo às pernas, sinal emblemático da posição em que o corpo tenta reorganizar suas forças desestabilizadas, nesta posição as mãos apoiam a cabeça para que não sofra tanto com a pressão da gravidade da situação, e também as mãos que se sustentam ao contato sofrível dos cotovelos sobre a calça, neste momento se amarrotando, e também a blusa perdendo o alinhamento dado previamente pela doméstica há tempos da família.”

Dr. Jorge Felipe foi uma figura central no incidente. Diversas vezes citado no caderno de P., não há contudo nenhum registro oficial de sua experiência durante o evento. Coletando as informações encontradas sobre o problemático ex-PM, tentamos reconstruir um pouco do que deve haver sido suas primeiras impressões da súbita parada do Metrô.

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