“Quando eu contar até três”, de Lucas M. Carvalho

“Percebi que já era para estarmos em casa há muito tempo… Levantei a cabeça, as pessoas estavam nervosas. (suspiro) Perguntei pra minha mãe o que estava acontecendo. Ela disse que era só um problema no trem, e que logo voltaria a andar. (a voz falha, trêmula). Eu… Aconteceu tanta coisa. Sabe quando você sonha, sabe que sonhou, parece que foi ontem, mas não consegue lembrar direito? É como se tivesse uma névoa escurecendo a lembrança?  (respiração ofegante)(silêncio de oito segundos)”

Poucas semanas após a divulgação do caderno de P., um post de um usuário anônimo chamou à atenção no “Conspiracy”. Ele alegava trabalhar com seguros e disse que, havia sido convocado para inventariar um consultório que fora incendiado na Zona Sul do Rio. Livros, material eletrônico, móveis, tudo, segundo ele, estava em cinzas. Dentro, contudo, de um gravador algo obsoleto, ele encontrou uma fita intacta. O conteúdo, ele afirma, é uma sessão de terapia de uma das vítimas do “Incidente Glória” e foi transcrito na íntegra por Lucas M. Carvalho, dando início a série de relatos sobre o peculiar evento ocorrido nos metrôs cariocas há três anos.

Ler “Quando eu contar até três”

Mais sobre o autor

Polistórias: Confinamento

gloria-abreuadminDurante as nossas postagens de contos de Crime, convocamos nossos leitores para que nos ajudassem a eleger a temática do próximo ciclo. Agradecemos a todos que participaram e votaram. Mas, infelizmente, eventos recentes fazem alterar o nosso cronograma. Novas descobertas sobre um misterioso caso ocorrido há três anos no metrô carioca obrigam-nos a abordar o episódio que ficou conhecido como Incidente Glória.

UITP-Logo

No dia 28 de Janeiro de 2013, pela manhã, houve um apagão que paralisou boa parte do metrô carioca, mantendo diversos passageiros presos entre estações por mais de meia hora.  O caso, ainda que excepcional, não chamou muita atenção, uma vez que não causou maiores problemas. Na época, contudo, fóruns antimidiáticos e sites de credibilidade duvidosa começaram a divulgar um segundo evento no mesmo dia. Um trem teria ficado preso entre duas estações, a caminho da Glória, mantendo seus passageiros confinados por mais de dez horas seguidas. Ainda que os detalhes sobre o caso tenham sido discrepantes, ele se tornou um trend topic durante algum tempo.

Subway-Construction-site

Uma vez que o incidente não foi publicado pelos grandes grupos jornalísticos (salvo certos indícios, como na foto abaixo, do G1), o tema caiu no esquecimento. Hoje a maior parte dos sites, que antes divulgavam a notícia, sequer existe mais. Um assassinato recente, no entanto, reavivou o caso.

Há um mês, a morte de uma jovem jornalista por causas misteriosas foi seguida pela publicação de um suposto caderno de anotações, com dados que apontam para o Incidente Glória – nome dado ao estranho evento no metrô. Sem acesso direto ao diário, tivemos que confiar no PDF enviado por um membro da comunidade Conspiracy, do Reddit. Nem mesmo ter acesso ao scan do caderno original foi possível, pois alegou-se que informações contidas ali (como a caligrafia da jovem assassinada) poriam em risco a família da jornalista.

MEtroG1

 

Entretanto, ainda que carecesse de credibilidade, o arquivo ganhou atenção dos mesmos grupos que antes espalharam a notícia do próprio evento. Caindo no gosto do público por seu conteúdo intrigante, ele se tornou recentemente uma espécie de bíblia underground das conspirações cariocas. Asssim, teorias para explicar o episódio proliferam. Grupos antigoverno veem no caderno do Incidente Glória a prova cabal dos desmandos do Estado e da manipulação midiática. Algumas comunidades falam em experiências militares. Até sites de ufologia estão interessados no assunto.

Figura1

 

Escavando os confins da internet, é possível encontrar não só teorias, mas também documentos: dados sobre a gigantesca UITP e a extensão de sua influência; as relações profundas da administração do MetrôRio com a política a nível nacional através da OAS; fotos que supostamente teriam sido tiradas dos próprios vagões; fotos do site da concessionária na hora do incidente, e de um importante portal de notícias na manhã seguinte (antes de ser retirado do ar). Somado a isso, há trechos de entrevistas compiladas pelo usuário Semperveritas, do Reddit. Segundo ele, foram gravações feitas por um dos passageiros do metrô que chegou a ver a situação do vagão na manhã seguinte ao evento (Clique aqui para ouvir o áudio compilado).

Sem querer atestar a veracidade da história, nem tampouco duvidando de sua possibilidade, nós decidimos recontar esse momento ímpar de mistério na cidade. O Poligrafia entrou em contato com alguns membros do Conspiracy e teve acesso aos trechos mais completos de algumas das supostas entrevistas transcritas (alguns fragmentos podem ser encontrados na versão em PDF do caderno).

Apresentaremos, então, durante cinco semanas, os contos produzidos sobre este incidente. Quatro de nossos membros, utilizando diferentes recursos narrativos, ficarão responsáveis por editar e organizar cada um dos depoimentos. Tentaremos, contudo, ser fiéis ao texto original.

metrorio2-848x500

O quinto e último conto do ciclo será o aquivo PDF com o caderno transcrito. Ele servirá para que os leitores possam confirmar o rumo de nossas pesquisas. Com estas histórias, esperamos  trazer um pouco mais de luz ao misterioso caso do Incidente Glória.

“O mal da obviedade”, por Pedro Sasse

“Sabe, meu pai costumava dizer que o gosto pelo amargo é o que nos faz verdadeiramente diferente dos animais. Ele trabalhava em uma fazenda e passava o dia entre gado e galinha. Achava, lá pelos tantos da idade, que os animais tinham tudo para serem ótimos humanos: comiam, transavam, sabiam obedecer, gostavam de carinho e gritavam na hora da morte. ‘Mas nunca você vai ver um porco desses preferir um bom copo de doze anos em vez de um punhado de açúcar refinado, moleque’. Falava arrastando o bicho pros fundos da casa. O amargor, eu acho, faz parte do nosso instinto de autodestruição, de masoquismo, de aprender a negar o que o corpo realmente quer, Jessica”.

Os últimos casos não foram muito agradáveis pra você, eu imagino. Esse do vizinho que assassinou aquela família ainda ecoa na minha memória… Sabe que o criminoso ainda está foragido? Raramente são pegos, na verdade. Todo santo dia tem um homicídio novo na cidade. Todo santo dia um novo assassino não é capturado. Estão todos aí fora.  Se aglomerando… Uma bola de neve vermelha de sangue esperando para passar por cima de nós. Por isso eu só consigo dormir a base de muito remédio hoje em dia. Quem é que dorme tranquilo sabendo que há dezenas, centenas de monstros lá fora? Bom, não vou mais tomar seu tempo, você é alguém ocupado. Esse é o último caso, se serve de consolo. Mas fique atento, não é um caso fácil, não é trabalho de amador. Se descobrir algo me avise…

Ler “A obviedade do mal”

Mais sobre o autor

Seção autoral de Pedro Sasse

“Ódio ao lado”, por Jonatas T. Barbosa

“Não devia ter reagido, sr. Lang. Não devia ter voltado pra casa. Não devia ter pego a arma escondida na sala. Deve ter se assustado com o sangue na soleira dando boas vindas. A natureza é simples. A natureza não usa fantasia de Deus. Ele não entendeu na primeira vez. Aquele cheiro de tripas assadas com merda dentro. Nem entendeu a segunda vez. Meu amigo Lang só ficava rindo e acenando do outro lado do muro. “Quer participar do nosso círculo de oração?”

Um bairro tranquilo, vizinhança aparentemente sempre alegre sorridente. Você passa de carro e acha que entrou em alguma cena de algum filme american way of life. Mas o cadáver no andar de cima é um lembrete que paz e harmonia é uma cortina frágil. Assim que o mais leve vento sopra, a verdade surge. E ela fede à decomposição e ódio. Quer mesmo saber a história desse corpo aí? Pegue algo para beber antes, relaxe um pouco a cabeça. Está bem? Você que sabe… Aqui estão as palavras do assassino:

Ler “Ódio ao lado”

Mais sobre o autor

 

“Eu Sei Que Não”, por Luciano Cabral

“nós não temos muito tempo, então saiba que é um privilégio estar aqui conversando comigo, não posso te soltar, não posso abrir as janelas mas posso abrir sua cabeça, você apanha e entende, assim é o que a vida faz com todos nós, quem não entende tem que apanhar mais, o que você precisa saber é que baixar a cabeça não é desistir, é obedecer e obedecer é dizer não ao caos e sim à harmonia”

Eu sei que não foi agradável o caso M.N., acredite. Mas é preciso ser forte, ter um pouco mais de estômago. Ainda falta bastante lama para ser desenterrada e eu não quero que você abandone o caso… Hoje, tenho que confessar, a coisa toda é ainda pior. Ouça essa gravação e me diga se não eu estou certo quando digo que não é mais possível ter fé na humanidade…

Ler “Eu Sei Que Não”

Mais sobre o autor

“M.N.”, por Gabriel Sant’Ana.

“Uma forte emoção faz vibrar Manuela. As imagens borradas de sua infância vão se desembaraçando. Inconsciente, sua mão desliza sobre as cicatrizes da nuca e das costas. Não foram pela queda da bicicleta ou do balanço quando tia Ilda a levava ao parquinho da praça… Não poderiam ser.”

Após o intrigante caso conspiratório alemão de “Deutsch Geister“, nossas investigações nos trazem de volta ao Brasil. Entre cartas antigas, recortes de jornal e segredos de família, Manuela revela um passado cada vez mais perturbador.

Ler “M.N.”

Mais sobre o autor

“Deutsch Geister”, por Lucas M. Carvalho

“Não foi difícil encontrar Hadrian nas notas de óbito dos jornais locais. 38 anos, morto dia 02 de Maio de 1974, há onze dias. Causa mortis: intoxicação alimentar. As ruas de Berlim podiam até ser insalubres no pós-guerra, mas hoje o próprio Exército Popular Nacional pode tomar medidas radicais contra desleixo e sujeira. Não compete a mim questionar, porém pela honra de meu trabalho eu realmente desejo que Hadrian tenha sido assassinado.”

Abrindo os arquivos criminais do Poligrafia, Lucas M. Carvalho nos leva à Berlim dos anos 70. Através da reconstituição dos arquivos do Agente Heinz Forkel, desvela-se o mistério em torno da suspeita morte do agente Ulbiricht.

Ler “Deutsch Geister”

Mais sobre o autor

Polistórias: Crime

Um dia desses, dei por abrir meu Capão pecado, do Ferréz. Logo no início, tem uma espécie de prelúdio feito pelo Mano Brown e uma frase chamou minha atenção:

“Aqui as histórias de crime não têm romantismo e nem heróis.”

Ele estava falando de São Paulo, do Capão Redondo mais especificamente. Mas a máxima poderia, sem dificuldade, ser aplicada ao Brasil como um todo. E principalmente à literatura brasileira. Num mundo de Dupins, Holmes, Poirots, Spades e Marlowes, o Brasil sempre pareceu um pouco desamparado. Com tentativas tímidas ilhando-se na história, a verdade é o crime, aqui, sempre falou mais alto que seus combatentes.

No começo do mês, após decidirmos, entre as sugestões enviadas, o tema “romance policial”, pensei que talvez as coisas estivessem mudando no país. Se até a Patrícia Melo de O matador tinha se rendido e criado uma detetive para salvar o dia, quem sabe todos nós não pudéssemos dar uma chance à ordem e à justiça…

Todos ao trabalho e semanas mais tarde a conclusão: é, Mano Brown, você continua certo. Os heróis ainda são escassos por aqui. Com uma abundância de textos focados nos criminosos, o Poligrafia, esse mês, será sequestrado e, cabe ao leitor seguir as pistas que semanalmente deixaremos.

Assim, como ninguém iria escrever romances e o “policial” não cola muito por aqui, apresentamos na terceira edição de nosso projeto, o Polistórias: Crime. A partir de segunda-feira, cinco semanas de assassinatos, pistas, depoimentos e psicopatas vos esperam. Prontos pra desvendar esse crime?

Boa leitura!

“Retorno para ti”, de Gabriel Sant’Ana

portrait-734904_1280

“Sr. Banvu, demonstrações de nervosismo, mesmo para pessoas da sua idade, são um sério sinal. Seria melhor, para o próprio encaminhamento das investigações, que o senhor cooperasse, inicialmente se acalmando. Os mais nervosos são sempre mais difíceis e nos forçam ao que não seria necessário. Veja estas fotos. Consegue nos dizer o que o senhor conversava com este homem? Ou se lembrar do que conversavam?”

Após uma longa jornada de cinco semanas pelo globo, enfim pousamos em Cabinda, Angola, nosso destino final. Gabriel Sant’Ana traz, em “Retorno para ti” a imagem de um país marcado pela violência, um conto sobre poder e impunidade.

Ler “Retorno para ti”

Mais sobre o autor

“O barqueiro de Vostok”, de Pedro Sasse

“O vento anuncia o fim da contemplação. Traz consigo os setenta graus negativos que se estenderão ao longo dos meses seguintes, podendo piorar. Na minha frente, a única luz acesa na estação parece perder força diante da escuridão, como se a lâmpada, de súbito, houvesse virado uma chama fraca de lampião. O frio inunda meus pulmões enquanto me apresso em direção aos alojamentos. As instalações, antes mínimas, espremidas entre a vastidão de um continente vazio, agora se avolumam conforme o mundo perde seus limites, conforme a caixa termina de se fechar.”

Ainda em clima gelado, saímos do norte de “Mikhail recebe uma carta” em direção ao extremo sul do planeta. Na pequena e isolada estação de pesquisa soviética na Antártida, Pedro Sasse contará a história d’O barqueiro de Vostok.

Ler “O barqueiro de Vostok”

Mais sobre o autor