“A arte de manipular o voo da borboleta”, por Pedro Sasse.

“Não espero que você entenda do todo, Laio, mas, sinceramente, suas formas de penitência não significam nada para mim, assim como não mais significa sua moral. Esses foram meus primeiros anos assim. Outras centenas vieram. Eu vivi cada pecado e virtude do homem em busca de significado. Demorou muito até perceber que tudo isso que vocês têm é um frágil castelo de cartas no grande tornado do universo. O maior pensador da humanidade em qualquer uma de suas ramificações nunca foi mais do que uma poeira no caminho inexoravelmente simples e grandioso do universo.”

Para encerrar o ciclo de histórias sobre perspectivas, voltamos ao tema do tempo. Existem formas de encarar o fluxo do tempo que teorizam que, para cada encruzilhada no caminho da existência há um universo em que o viajante toma uma das rotas. Nessa rota outras encruzilhadas surgirão, em que outros universos espreitam. No fim, todas as combinações possíveis são contempladas por um sem fim de combinações de escolhas. Quer visualizar isso de forma bem clara? Em dia de sol, um domingo talvez, desses que o tempo passa lento e os pés pedem um passeio na calçada, anote seis destinos em um papel. Depois, com o auxílio de um dado, decida ao azar seu destino. Pronto. Antes da rolagem do dado, sete universos estão diante de ti. Um para cada caminho que pode ser tomado e um último para quando você não ouve as sandices dessas palavras e, em vez disso, vai à boa e velha padaria em busca de um sorvete de flocos.  Agora, se você pudesse navegar pelos destinos nunca tomados, se você estivesse plenamente consciente da existência de todas as possibilidades simultaneamente no universo, a jornada ainda faria sentido?

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“Tentação”, por Luciano Cabral

“do lugar de onde eu tinha vindo, a temperatura não era como ali, nem a paisagem era tão bonita, por isso, eu me perdi em pensamentos, sentindo o vento, vendo aquilo tudo, era tão calmo e tão pacífico que eu peguei no sono ali mesmo, na grama”

Existe um conto japonês chamado “Dentro de um bosque”. Nele, um assassinato ocorre no bosque. Temos acesso apenas aos depoimentos. Todos contraditórios. Nenha prova, nenhum rastro, apenas vozes discordantes tensionando a realidade. Quando a verdade é completamente inacessível, o que resta? Muitas verdades ou nenhuma delas? Ou apenas escolhemos a narrativa mais confortável? Quem sabe deixamos que escolham uma delas para nós… “Tentação”, em poucas palavras, nos convida a refletir mesmo diante dos sólidos discursos da tradição ocidental…

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“Dupla Fenda”, por Lucas M. Carvalho

“Precisava decidir. Cabia a ele, o alfa, escolher se seguiriam para a terra verde ou se desceriam o rio. Em direção à terra verde poderiam desfrutar de animais e sombra. Pelo rio teriam água e peixes. Não sabia em qual dos dois haveria predadores. Não sabia em qual dos dois haveria bandos hostis. Neste momento, no instante imediato antes de tomar a decisão, cai o pano e a história termina”.

Um dos mais seduzentes poderes da histórias é a ideia da causalidade.  Ainda que hoje a disciplina venha mudando suas concepções, por muito tempo vimos o passado da civilização como uma narrativa bem encadeada, em que cada evento colaborou para a existência do seguinte, como uma grande trilha de peças de dominó. Mas, e se, de fato, toda nossa realidade dependesse de uma única decisão, de uma única bifurcação no caminho do homem certo no ponto certo da existência do universo? No conto de hoje, Lucas M. Carvalho explora as possibilidades da história da civilização, da história e do tempo.

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