“O que vem à nossa rede”, por Pedro Sasse.

“A imensidão impressiona os olhos desacostumados. O barco mínimo arrasta sua madeira pelas veias enormes do rio. Tudo é um silêncio que avulta a escuridão das águas. Nas margens, a selva estende seus dedos, chamando num sussurro de folhas ao vento o viajante incauto. A Amazônia é o antideserto. É ermo de tanta vida. Milhões de criaturas debatendo-se dentro da jaula verde, devorando e sendo devoradas, a mais tempo do que a humanidade pode testemunhar.”

(Disponível em: http://imgur.com/azQEu76)

Deixamos o sul do país, retratado por Lucas M. Carvalho em “Desculpa a mão”, e atravessamos toda a extensão desse país continental até seu norte inexplorável, desconhecido até hoje pela maioria. Que tipo de segredo é guardado no coração da floresta amazônica? Fechando o ciclo de contos regionalistas, Pedro Sasse faz uma homenagem a obras como Inferno VerdeContos amazônicos, mostrando os perigos e mistérios da Amazônia.

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“Desculpa a mão”, por Lucas M. Carvalho

“A troca de bala não findava. Precisou recarregar de novo, o som rangente do ferro roçando, as cápsulas em encaixe. Ramón Silva, cinco metros à frente, parecia ter acertado um deles. Flores quis avançar, mas uma bala ou outra passaram ferozes, o barro do chão arrancado, grama pelo ar. Mais atrás, o uruguaio travou em medo, sem avançar nem recuar. Cunha, homem quieto, mas melhor atirador do bando, estava ferido no braço. Dois ou três chimangos caíram, talvez mortos, talvez se fingindo de morto – mas outros surgiam sem parar. Sem parar. Flores sentiu um aperto no peito e um amargor nos lábios quando percebeu que uma comitiva inteira saía do esconderijo nas árvores pro confronto.”

Abandando o tranquilo litoral de “A pedra da tristeza”, viajamos até o sul do país, em plena Revolução Federalista no fim do século XIX. Com uma narrativa capaz de nos imergir nas práticas e expressões típicas do local, Lucas faz sua homenagem ao regionalismo sulista que tantos frutos rendeu à nossa literatura. Penetre as trincheiras inimigas conosco:

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“A pedra da tristeza”, por Luciano Cabral

“foi quando a mãe percebeu que no lugar onde o filho sempre sentava pra esperar o pai, tinha uma pedra, a pedra tinha a forma e o tamanho do menino dela como quando ele sentava bem ali, ninguém conseguiu arrancar a pedra de lá, era pesada, teimosa demais, batizaram de pedra da tristeza”

Houve um tempo em que descobrir o Brasil, na literatura, era olhar pro interior, pra onde as marés cosmopolitas não alcançavam a alma nacional. Lar de brasileiro em estado bruto, que aprendeu com a própria terra o significado do mundo. O tempo passa e cada vez mais o concreto vaza pelas frestas pavimentadas do país, levando mais e mais capital pro interior, lavando de franquias e multinacionais a singularidade captada pelas mãos sedentas de um Graciliano Ramos, de um Guimarães Rosa. O Poligrafia, neste ciclo, resolve homenagear essa visão encantada de um país “pra dentro”, que talvez nunca tenha existido se não nas memórias e invenções de uns quantos sonhadores; resolve falar desse Brasil que se desequilibra no fio fino da realidade e tropeça no folclore; desse povo que, sem nem saber o tamanho do Brasil, o inventou. E se inventou. Para a abertura, nada melhor que uma história de pescadores. Como diz o ditado, confie desconfiando dessa narrativa sobre o mar e o homem, a natureza e o além.

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