Fantástico é Desafiar a Realidade

Bestiario Julio Cortazar Poligrafia

No filme Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância (2014), Riggan Thomson é um diretor de teatro que, no passado, ganhou fama no papel do super heroi “Birdman”. Assombrado pelo ostracismo e amedrontado por sua estreia no teatro, Riggan, num dado momento, decide pular de um prédio. Mas, pra nossa surpresa, ele não despenca. Ele voa como um pássaro.

A cena em que Riggan voa sobre a cidade, tal qual o pássaro que o fez famoso, é compreensível. Mas, ainda assim, surpreendente. Como humanos não voam, precisamos suspender nossa descrença pra poder embarcar na cena.

É desse jeito que a ficção fantástica nasce: um acontecimento impossível  interferindo no mundo natural que conhecemos. Numa das obras mais conhecidas deste gênero, Cem Anos de Solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez, a personagem Remedios ascende aos céus e Aureliano nasce com rabo de porco pra logo depois ser devorado por formigas.

Outro nome conhecido da ficção fantástica é o argentino Julio Cortázar. Em seu conto “Bestiário”, por exemplo, há um tigre perambulando de cômodo em cômodo numa casa. Os personagens agem como se a presença do animal fosse algo natural e nada é explicado sobre ele.

“Passou algum tempo até que um peão veio avisar que o tigre estava no jardim dos trevos, então Rema pegou as crianças pela mão e foram todos comer. Nesse dia as batatas estavam secas, mas só Nené e Nino protestaram”.

O fantástico desafia a realidade ao inserir elementos impossíveis. Uma boa narrativa fantástica faz com que justamente estes elementos, ainda que impossíveis, tornem-se plausíveis dentro do universo literário.

Essa é uma ótima técnica pra escritora ou escritor que quiser fugir das amarras que o mundo natural impõe.

por Luciano Cabral.

“Tollebat citharam (I Sm 16, 23)”, por Gabriel Sant’Ana

dedilhava delicadamente
de Saul a cítara e o sentimento
recedendo o outro espírito
ressentido
rasgando ao sair com garras
a pele pelo sumo divino esquecida

leves ficando os humores
por dedos leves
assovios harmônicos

impaciente e grave rosto
brando e suave formando

antipático demônio
de traços grosseiros
incitando à diva aversão cítara
pesado corpo real sacoleja
babas expelindo esverdeadas
revirando seus olhos
grossa voz sair da boca faz
impropérios e ameaças e gritos

dedilha mais suave
ao ouvido quase inaudível
seu corpo e suas mãos
em dança angelical
do possuído se afastam

a cair pelo próprio
nó das pernas difusas

um novo hino sai da minha boca
para enaltecer tua vitória
sobre toda força brusca e animal.
não precisas a esta ser igual.
basta a ti a leveza inaudível
de harmoniosos instrumentos.
a ti bastam mãos delicadas
dedilhando por tua inspiração

o silente som

Eu sou

Eu sou

“outra vez bolo de nozes”, por Gabriel Sant’Ana

insistentemente bate com o martelinho a noz para fazer o esperado bolo de nozes deste natal com nosso punho fortemente mãos seguras firmemente estraçalhando em miúdos pedaços as nozes repete as batidas em agressividade crescente constantemente daqui algumas horas virão nossa sogra nossos sobrinhos com seus sorrisinhos felizes de uma felicidade oca e transparente seus presentes empacotados tão belos quebrando minha expectativa porque não irei ganhar aquela roupa que vi na loja quando estava em madureira hoje mais cedo porque não fica bem para tac tac rude esfrangalhar nossos dedos mais vermelhos palmas das mãos avermelhando no martelo alguns pedaços vão para longe no chão do lado de fora da casa tô com fome mãe vem logo o que tem pro almoço ô garoto se vira anda logo pega um biscoito aí dentro do armário parece estar se rachando mais forte com força viril animal estranhamente humana húmus em terra em noz misturando carne pele sangue arenitos nozes para o bolo tradicional da noite natalina no ambiente familiar agradável quero mesmo triturar quero muito mesmo porque mas naquela loja a roupa não estava na promoção vi a mesma roupa em outra loja mais barato que absurdo já veio a fatura do mês merda de brinquedinhos que tive que comprar pra essas crianças que não fazem nada o ano todo aumenta o suor seu rosto pingando indo para a boca entreaberta não sentimos sede apesar do sol das onze horas da manhã de dezembro plena sexta quando deveria estar à beira da praia tomando minha cervejinha me jogando no mar pedindo as bênçãos tirando todo fardo de mim com a água salgada mas não isso não posso porque o bolo deve estar pronto para quando chegarem porque se não estiver irão perguntar cadê o seu delicioso bolo de nozes ficarão espantados quando mandar todos à merda se foda esse bolo de merda de areia misturada sangue dos meus dedos nossos triturando mais nozes quase todo o saco que comprou ontem no mercadinho da esquina animal suando olhos inflamados o garoto não voltou a perguntar pelo almoço se dane a hora do almoço batendo no chão com o martelinho movimento máximo da mais pura manifestação martela agora as paredes da varanda ficaria melhor assim repete mais vezes o filho ouve o barulho corre para ver ela corre atrás dele se tranca no banheiro não mãe não faz isso por favor cala a boca merda quebra os vidros da sala tritura os restos de nozes que tinham se espalhado pelo bater desenfreado não queremos mais parar as marteladinhas não mais desejamos deixar unidas as coisas mas separar destruir os pratinhos que os familiares irão trazer esta noite serão deliciosos titia o frango assado meu avô o velho vinho tinto tudo perfeitinho e lá vai mais uma noz parar longe havia errado a mira sentimos o estômago doer a cabeça um tanto corre até a cozinha para pegarmos a vassoura juntaremos todos os cacos e nozes e sangue e pele e areia e concreto depois do almoço e do cochilo irá preparar como há mais de vinte e cinco anos

Dizer muito ou dizer pouco?

Por Luciano Cabral

 

Há duas semanas, postei uma reflexão sobre o estupro como tema literário (clique para ler). Defendi então que a literatura, sendo inerentemente avessa à censura, não pode se restringir ficcionalmente, sob pena de se tornar insubordinada e, em última instância, esvaziada de sua função de expor as fraquezas humanas. Tal reflexão levou-me a uma outra questão, um pouco mais técnica, voltada mais especificamente para os escritores: no momento da elaboração da trama, o que é necessário deixar de fora e o que é preciso revelar? Ou melhor: as histórias devem dizer muito ou dizer pouco?

Tipicamente, em uma trama detetivesca, o crime é revelado, mas o assassino só será descoberto nas últimas páginas. Em tramas de horror, o monstro revela-se aos poucos e a história revolve em torno de sua descoberta e posterior eliminação. Em intrigas políticas, os protagonistas precisam desmascarar corruptos e defender-se das ameaças de morte constante que sofrem. 

Mas há obras que quebram estas tipicalidades e apresentam outras soluções. Mais recentemente, os enredos de crime tem-se voltado para o criminoso (dando, inclusive, voz a este) e o detetive acaba sendo incapaz de resolver o caso. Histórias de horror não eliminam o monstro, fazendo-o perpetuar para além dos protagonistas. Muitos thrillers de conspiração desmascaram a corrupção mas permitem que os corruptos escapem.

Estes são, obviamente, alguns exemplos de gêneros que lidam com a tarefa de ter que escolher o que dizer e o que não dizer na hora de compor a trama. Mas a estratégia vale para qualquer outra escrita ficcional.

Há quem diga que a literatura contemporânea não conhece o meio termo. Ela ou diz muito ou diz muito pouco. Do primeiro, fica a sensação de total onisciência do narrador por conta de um leitor que não sabe ligar os pontos. Do segundo, fica a impressão de que não revelar é deixar a história incompreensível.

Certa vez, li que a elegância da ficção do russo Isaac Babel está justamente em dizer pouco. Dar poucos subsídios convidaria o leitor a participar da trama, preenchendo lacunas e construindo interpretações, “implicando o leitor na continuação da escritura e responsabilizá-lo através do pensamento”. Entretanto, não é fácil saber o que revelar e o que não revelar. 

E vocês?

Quando vocês escrevem, como lidam com esta estratégia? Vocês dizem muito ou dizem pouco? Compartilhe sua opinião conosco.

 

 

A literatura deve falar de estupro?

Por Luciano Cabral

“[…] Pereba desceu as escadas sozinho.

Cadê as mulheres?, eu disse.

Engrossaram e eu tive que botar respeito.

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de frozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as joias […]”.

O recente caso do estupro coletivo ocorrido em Jacarepaguá, contra uma jovem de 17 anos, mobilizou muitos. O repúdio ao ato foi gigantesco, como deveria ser. Crimes contra a mulher são frequentes e, de acordo com o documentário Filhas da Índia, são globais. O caso instigou também comentários no Wattpad Brasil. Compreensível, pois o crime é hediondo. Entretanto, a discussão (como não poderia deixar de ser) girou em torno das obras literárias que tematizavam este ato. A questão é polêmica e pode ser resumida nesta pergunta: A literatura deve falar de estupro?

O excerto que abre esta postagem é um fragmento do conto Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. Esta narrativa é dada sob a perspectiva do criminoso que, certamente, não demonstra qualquer compaixão pela vítima. As histórias de Fonseca dão conta de um Brasil violento, mas que não se reconhece como tal (elas motivaram, inclusive, a criação do termo literário brutalismo). Recolhido pelo Departamento de Polícia Federal em 1976, o livro de contos foi proibido de circular por “exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes”.

O romance American Psycho, do estadunidense Bret Easton Ellis, é outro exemplo de censura por narrar a violência contra mulheres. A história de Patrick Bateman, um rico homem de negócios que não esconde de seu leitor sua misoginia, racismo e seus crimes, foi rechaçada por colunistas de jornal e organizações em favor da mulher. Por conta disso, seu contrato com a editora foi quebrado antes mesmo de sua publicação.

Ainda que alguns argumentem que ela de nada serve, acredito que a literatura tem suas funções. Ela não deve panfletar, tomar partido ou ser submissa. Todos os temas devem ser possíveis dentro da estética narrativa de seu espaço.Em outras palavras, ela não deve ser inocente. Daí, o estupro tornar-se um de seus temas.

A literatura deve falar esteticamente de estupro para que nossas fraquezas humanas sejam expostas, para que nossos comportamento sociais sejam rediscutidos. Certos livros são censurados por atentar aos bons costumes. Certos costumes são naturalizados porque censuramos quem fala sobre eles. O estupro, que muitos já alegam ser uma cultura, deve permanecer nas histórias para que a História seja outra.

A política brasileira hoje e Machado de Assis

Neste momento de instabilidade política no país, uma figura literária do século XIX parece ter percebido o que nós ignoramos. Se a direita e a esquerda são antagônicas fora do planalto, dentro dele as coisas parecem seguir o rumo da conveniência. E eis que Machado de Assis, o bruxo do Cosme Velho, brinda-nos com seu sempre ironicamente ácido comentário sobre o cenário brasileiro (de outrora e de agora). Estas palavras estão no livro “Machado de Assis, um gênio brasileiro”, de Daniel Piza:

“O conselheiro representa uma elite antiquada, mais preocupada com suas fofocas e fortunas do que com o coletivo. Tristão, no outro pólo, representa uma nova geração que se aproxima da política para ascender socialmente, que defende uma ideologia em cada ambiente em que está, que tem caráter volátil e ganancioso. Em outras palavras, eles são muito diferentes e muito parecidos. Quando cronista da vida parlamentar, Machado sempre mostrava que os liberais e os conservadores usavam estes rótulos de acordo com suas conveniências, e que a diferença era estar ou não no poder […].”

E não esqueçam de intrometer-se em nossas histórias. É só clicar!

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