Altergrafia apresenta: “O rei de número quatro”, de Marcelo Alves

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Por Geralt. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/cruz-p%C3%B4r-do-sol-nascer-do-sol-66700/)
Por Geralt. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/cruz-p%C3%B4r-do-sol-nascer-do-sol-66700/)

“Diziam que o místico estava propagando antes uma canção desprovida de conceitos do que uma fé. E jesus lhe teria perguntado quais eram as portas diagonais que dariam precisamente nas veias da velha História. Mas as montanhas trincavam internamente, ressoavam gritos, os mais diversos, os de desespero, os de paixão, os de pele arregaçada, os de morte-de-mãe.”

Não espere que a verdade surja diante dos olhos no Altegrafia de hoje. Em “O rei de número quatro”, Marcelo Alves cria um labirinto místico, lírico e metafísico, em que a melhor forma de se achar é perdendo-se por entre seus herméticos corredores. Se você sente que está andando em círculos, talvez seja momento de se questionar: na arte, há de fato uma saída?

Leia “O rei de número quatro”

Saiba mais sobre o autor

Autor convidado: Marcelo Alves

alvesMarcelo Alves é professor formado em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Reside no Rio de Janeiro e sua obra abrange ensaios, poesia e prosa que vão do lírico afinado ao acadêmico conciso. Seu interesse abarca desde os temas da cultura clássica às perspectivas da dinâmica na vida contemporânea. Todavia, sua arte não se limita à literatura, mas estende-se na forma de curiosidade pela música, pintura, escultura e dança. Você poderá apreciar outras obras do autor nos blogs:

https://ruinasartificiais.wordpress.com/

http://apreciacoescriticas.blogspot.com.br/

Caixas de sobra – Ep. 06

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Por Pexels. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/luz-cidade-estrada-luzes-noite-1283279/)

vou contar mais um segredo, não vou mais voltar para aqueles olhos cansados, se o velho Cássio diz que é hora de retornar para o brilho no fundo da boca, o hálito que sai dela confirma a repugnância que ela me tem causado, eu devia tê-la chamado de Pandora e não Marlene, se eu tivesse feito isso desde o início da história, eu poderia ter compreendido porque estas caixas são tão malditas, ainda sinto a língua de Pandora atacar os meus ouvidos mas suas palavras não me seduzem, o tanque cheio chama, a estrada à frente pesa, piso com força, o velocímetro marca mais números que o meu Cássio, o carro resmunga mas acelera, neste momento rapidez é palavra de ordem, quem ainda manda aqui sou eu, isso eu grito o mais alto que consigo, grito pra mim mesmo, em voz alta, em velocidade alta, em tom de escárnio, agarrado ao volante, nosso filho ou as caixas, foi o que ela disse, como se a escolha resolvesse todas as nossas diferenças, custei a perceber que nada havia que nos aproximasse, não tinha nada que nos fizesse felizes para sempre, meu erro não foi dar ouvidos à Pandora, meu erro foi acreditar que somente a morte poderia nos separar, piso com mais força e o carro resmunga como se a culpa fosse minha e não dela, o ponteiro atinge uma velocidade inédita, meu erro foi sempre voltar para aqueles olhos depois de um dia inteiro entre caixas e pedidos e reclamações, o combustível que me conduzia somente até o próximo posto me impediu de acelerar por dez anos e se agora eu decido fazê-lo é porque essa combustão está percorrendo o corpo todo, então eu corto um carro, corto outro, ziguezagueio na estrada numa guerra que me força a pisar mais forte, que Marlene vá pro inferno, que Pandora vá pro inferno, corto mais um carro, vencer o inimigo sem lutar é uma arte, Tsu fala pra mim, mas quando aquela que eu amava torna-se meu adversário, a luta passa a ser inevitável, eu falo pra ele, seguro firme o volante tentando estabilizar o carro, acho que nunca fui tão veloz quanto hoje, nem tão estúpido também, o carro resmunga, o freio falha e eu perco completamente a minha direção.

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

“Mosaico”, por Lucas M. Carvalho

Por Simone Saponetto. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/marrocos-antigos-ora%C3%A7%C3%A3o-musulmamo-344824/)
Por Simone Saponetto. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/marrocos-antigos-ora%C3%A7%C3%A3o-musulmamo-344824/)

“Larguei o livro. Olhei para a coluna em frente, perguntando-me se cada uma daquelas pedras seriam a própria totalidade da coluna, ou toda casa, ou toda Fez, ou o Marrocos, a África, o mundo. Se seria eu. Se seria eu em todos os lugares e em todos os tempos, e se eu estaria em cada uma daquelas peças, ou nos universos menores dentro delas.”

Estreando o Polistórias: Lugares, um colecionador de mosaicos perdido entre as páginas do enigmático Almakan nos conduzirá às ruas estreitas de Fez, Marrocos. Contemple conosco esse complexo Mosaico, de Lucas M. Carvalho, e não deixe de compartilhar suas experiências de viagem!

Ler “Mosaico”

Mais sobre o autor

Polistórias: Lugares

Vale da Morte, por Esudroff. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/vale-da-morte-calif%C3%B3rnia-1372714/)
Vale da Morte, por Esudroff. (Disponível em: https://pixabay.com/pt/vale-da-morte-calif%C3%B3rnia-1372714/)

Uma das vantagens da literatura é, definitivamente, seu poder de imersão. Sentir o vento frio das estepes de Tchekhov, o cheiro forte da fumaça industrial de Dickens, os encantos da corte japonesa em Murasaki Shikibu. Defensor de uma arte cada vez mais ofuscada pelos brilhos sedutores da mídia visual – ainda que um defensor suspeito –, digo que, se o cinema e TV tem o poder de mostrar a superfície do mundo, só a literatura é capaz de resgatar, ainda que seja um fragmento, da experiência de viver: por trás da chuva fina, as memórias; por trás da velha cozinha, os cheiros; por trás da imensidão da natureza, o profundo silêncio.

O mundo é pequeno perto daquele que construímos em nossa imaginação. Para um grande sertão, quantas veredas não se abrem em nossas leituras? Quantas Esquérias cabem nas odisseias da fantasia? Que lugares constituem a geografia da imaginação?

Nessa segunda edição do projeto Polistórias, buscamos explorar o distante. Oferecer ao leitor – e a nós mesmos – um pouco desse mundo que só a literatura é capaz de expressar. Cinco contos ambientados em cinco países distantes do globo, com suas próprias histórias e culturas, suas próprias formas de ver o mundo e expressá-lo. Sob o título de Lugares, buscamos que essa edição conte histórias em que o espaço assume um papel crucial, tão ou mais protagonista que os próprios personagens. Siga conosco essa jornada e não deixe de compartilhar suas experiências nesse grande mundo cujo chão é decorado de palavras.

Boa leitura!

Poligrafia Revista – Ed. 01

Tendo em vista que nem todos podem acompanhar nossas postagens no blog ao longo do mês, resolvemos criar a Poligrafia Revista,  uma forma de compilar todos os textos que se encontram em nosso site. As edições seguirão sempre as novas temáticas do Polistórias, nosso projeto com maior quantidade de texto. Dessa forma, a primeira edição abrangerá todos os textos desde o lançamento do primeiro conto do tema Terror até o quinto e último. Isso não significa, contudo, que a revista será constituída apenas por eles. Junto aos textos temáticos estarão os últimos cinco capítulos do Caixas de sobra, nossa web série literária, e as obras de nossos autores convidados.

Esperamos que esta seja uma forma de facilitar a leitura para aqueles que preferem ter versões offline do texto  (seja para ler em aparelhos portáteis ou para imprimir). Poupamos, assim, o leitor do trabalho de reunir todos os textos não lidos e oferecemos como adicional esse lindo layout (ou ao menos nos deixe pensar assim…). Boa leitura!

Ver Poligrafia Revista Ed. 01

O que nos faz escrever bem: inspiração ou técnica?

Blank Pages, por “Andrahilde”. (Disponível em: http://andrahilde.deviantart.com/art/Blank-Pages-182674359)

por Luciano Cabral

 

A pergunta que faço hoje tem origem numa dicotomia instigante, embora espinhosa: escrever bem é fruto de inspiração ou técnica? Ou posso perguntar, mais filosoficamente, deste modo: nascemos escritores ou nos tornamos escritores?

No poema Theogonia, de Hesíodo, as Musas são personificações da memória absoluta (por transmitirem o passado) e da criatividade e imaginação (por conhecerem o futuro). Por esta razão, elas eram constantemente invocadas pelos poetas em suas narrativas, pois tinham o poder de inspirá-los e fazê-los produzir belos poemas.  Em A Odisséia, Homero abre seu poema épico pedindo à Musa que reconte os feitos de Odisseu e Camões, em Os Lusíadas, pede ajuda às ninfas do Rio Tejo, as Tágides (por ele assim nomeadas), para que possa contar as peripécias lusitanas. Notemos que a invocação é por inspiração. Nada se fala de técnica.

Quem falou de técnica literária, de forma objetiva (e creio eu, bem feita) foi Edgar Allan Poe, em 1846. Ele não invocou a técnica em poesias, mas tratou dela em um ensaio sobre um poema seu bem conhecido, O Corvo. No ensaio, Poe revela cada passo que deu ao escrever seu poema e defende que produzir literatura é uma questão de escolha (leia-se, técnica) e não de inspiração: “Dentre os inúmeros efeitos ou impressões a que são suscetíveis o coração, a inteligência ou, mais geralmente, a alma, qual irei eu, na ocasião atual, escolher?”.

Alguns de nós podem dizer que a inspiração per se não traz benefícios. Outros que inspiração é tudo o que há no momento de criação literária. Há ainda os que alegam que a disciplina substitui a inspiração. Há outros de nós ainda que pensam que a técnica per se é fria e dada a fórmulas que, ao invés de inovar, promove repetições insossas e infinitas.

Se escrever literatura for consequência de uma genialidade (como pensavam os poetas românticos), então, aos que acham que não nasceram escritores, eu tenho um conselho: nem tentem. Mas se o fazer literário for mais do que ser inspirado por musas, então temos a chance de adentrar o mundo literário. Talvez não seja nem inspiração nem técnica. Ou  talvez seja os dois.

O que você acha? Intrometa-se.

Caixas de sobra – Ep. 05

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Car, por Jocelyn Maceachern. (Disponível em: http://jocemac.deviantart.com/art/car-84022774)

“O produto está errado.”

A frase ecoava na minha cabeça sem parar.  “O produto está errado”. Errado como? Com defeito? Não era isso que você queria? Eu devia ter perguntado por telefone, mas quanto menos se fala nessas circunstâncias, maiores são as chances do comprador desistir da devolução. Eu mal consigo bancar combustível para fazer vendas, quiçá para fazer trocas. O estômago chega a revirar.

“O produto está errado.”

Uma derrota, porque às vezes eu me sinto um mestre estrategista. Vender é um jogo, mas não um jogo comum. Eu não leio manuais de vendas, pois meu produto não é um produto qualquer. Eu leio A Arte da Guerra, de Sun Tsu. A edição de bolso já molhou, secou, descascou e a capa descoloriu. Mas é como um amuleto. A suprema arte da guerra é vencer o inimigo sem lutar. Alguém fez isso comigo, anos atrás. Torceu minha vontade, mudou as cores do mundo, me convenceu de que o que é não é.

“Não compra isso. Não compra. Você nem sabe se essa coisa vai vender. Quer pegar um empréstimo? Você é louco? Bem que minha mãe me avisou antes de eu casar. Se você insistir com isso eu vou embora. Vou levar nosso filho e você que fique com essas coisas.”

Sempre que lembro dessas palavras sinto dor. Mas hoje uma frase me causa dor maior:

“O produto está errado!”

Eu toquei a campainha e esperei. Toquei a segunda vez, sem esperar muito, pois torço para que ninguém atenda. Ouvi um assobio, mas fingi que não. Virei as costas para ir embora, e a porta se abriu.

– Ah… boa noite. Meu nome é…

O menino sequer abriu a boca, apenas estendeu a caixa como que para se livrar de um tesouro maldito.

– Bom… Não ficou claro qual é a reclamação. Seu pai está em casa?

O menino estendeu a outra mão.

– O dinheiro.

– Querem o dinheiro de volta? Imaginei que trocariam o produto… Neste caso, eu preciso fazer um relatório completo da reclamação, e…

Se você conhece ao seu inimigo e a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Meu inimigo, contudo, se escondia atrás de uma criança, e as crianças são difíceis de se conhecer. Se eu tivesse ao menos tido tempo de criar meu filho…

Dinheiro perdido. Voltei para o carro com duas caixas. Os faróis da frente pareciam olhos entristecidos, implorando para que não as pusesse de volta. Os pneus traseiros estavam murchos.

Vou contar um segredo. Nos últimos dez anos, eu sempre tivera a mania de abastecer pouquíssimo além da quantidade de combustível que gastaria até o próximo posto. É quase um jogo. O velho Cássio contava o tempo, eu ouvia o ronco do carro e calculava o consumo. Porém ali, devolvendo as duas caixas ao banco traseiro, senti-me sufocado. Sonhei com uma saída.

Naquela noite, completei o tanque do carro.

Lucas M. Carvalho

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“Espiral amarela”, por Pedro Sasse

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Spiral, por Mazzicc. (Disponível em: http://mazzicc.deviantart.com/art/Spiral-9862567)

“Seus dedos ingênuos passeiam pelo material orgânico, deixando marcas no chão. Aquilo lhe dá enorme prazer. A descoberta do poder criativo. Faz sucessivos riscos no chão. É capaz de romper a uniformidade do mundo com apenas um dedo. Alguém chega e carrega-o para longe de sua obra. Mas está consumado. Refinou por anos seu prazer. A grande virada foi descobrir o sangue. Ocorrera há poucos meses. Um dos funcionários, em surto, morde o próprio punho até arrancar a carne. O sangue flui, colorindo com intensidade e eficácia o tom uniforme do mundo. Com seu dedo traça um círculo, a figura proibida, só presente em perfeição nos olhos.”

Após quatro semanas aterrorizantes, chegamos por fim à última edição do Polistórias de Terror. Nesse encerramento do tema, prepare-se para aventurar-se pelo mundo geométrico de SS e sua intrigante fixação pela espiral amarela.
Se você não viu os anteriores, atualize-se, clique aqui para aproveitar as cinco histórias desse tema fascinante. Se já viu, é uma oportunidade de reler ou mostrar para os amigos.

A partir da próxima segunda teremos o lançamento de nosso segundo tema e a chamada para que vocês nos ajudem a decidir qual será a terceira temática de nosso projeto.

 

Ler “Espiral Amarela”

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