Caixas de sobra – Ep. 01

Penalty Box – Por John Dykstra. http://cameraguyy.deviantart.com/gallery/

Não viu a introdução ainda? Clique aqui para saber mais sobre Caixas de Sobra

“vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, trinta, trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e já nem sei mais, e aí tenho que contar tudo de novo porque perdi o fio da meada nesta jaula feita de caixas, elas não pesavam quando eu comecei, agora elas parecem feitas de puro concreto, o início parecia uma jornada que só quem tivesse culhões poderia aceitar a coisa, eu tinha culhões e tinha orgulho deles, tinha orgulho da minha sala cheia de caixas e eu pedindo mais e todo dia mais pra suprir a demanda, mais pro dia seguinte, mais ontem, mas hoje eu arrasto meu corpo até elas, não porque quero, sim porque preciso, papelão aprisiona mais que grilhões de ferro e meu dia só mostrou metade dos dentes, vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, vou me livrar da trinta agora, rua Marta Vidal, duzentos e quarenta e seis, me arrastei até a entrada da casa, apertei a campainha e o que fiz foi esperar, uma criança abriu a porta, “boa tarde, posso falar com seu pai ou sua mãe?”, apenas me olhou, uns seis anos de idade talvez, resposta nenhuma, “seus pais estão em casa?”, continuou me olhando, “eu tenho uma entrega”, fechou a porta e minha frase ficou incompleta, saber que ainda tenho outras entregas pra fazer me atormenta, sufoca, como se estivesse apertado dentro de uma destas caixas, encolhido, esmagado, sendo transportado pra um lado e outro sem que pudesse reclamar do espaço de merda que me sobrou, apertei a campainha novamente e o que fiz foi esperar, a porta foi aberta pela mesma criança, o mesmo olhar, a mesma cena e eu igualmente fatigado, não conseguia lembrar quantas entregas ainda tinha que fazer, apesar de ter anotado minutos atrás, eu tinha fome, meu estômago estava embrulhado, minha língua dobrava como papelão dentro da boca, se eu estivesse de fato dentro de uma caixa, meus ossos estariam sendo comprimidos, “você está sozinho?”, porta fechada outra vez, frase completa pelo menos, o peso da caixa estava a ponto de se tornar insustentável, mas era preciso, dedo na campainha uma vez mais e o que fiz foi esperar”

Luciano Cabral

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

Caixas de Sobra, uma introdução

Matryoshka, por Deborah. (Disponível em: http://xdeborahx.deviantart.com/art/Matryoshka-96310610)

“O mundo não seria o que é agora se eu tivesse rejeitado Pandora. Mas eu era pequeno. Há momentos em que uma data específica, as palmas, as músicas, os doces, os convidados e a inocência nos levam a abrir caixas. Naquele dia, não sei de quem ganhei o presente, não me recordo de todos que estavam lá. Quando eu menciono o episódio, não há quem se lembre. Inventar não é do meu feitio, mas comecei a duvidar desta lembrança. Parece que eu sou o único que consegue recapitular que havia um presente embrulhado, que chama minha atenção porque é uma caixa grande. Um papel brilhante que me atrai como mosca na luz. Eu voo até ela com toda a selvageria que eu posso juntar e que me faz reduzir o embrulho a pedaços. Avisto uma caixa de papelão por baixo daquilo tudo, rasgo o lacre que me atrapalha e Pandora não para de sussurrar no meu ouvido. A voz dela é tão encantadora e ordena que eu abra a caixa.

Mas o que eu encontro é outra caixa dentro da caixa. Pandora não desanima. Pressiona os lábios na minha orelha, mergulha a língua no meu ouvido e exige que eu continue. Rasgo mais um lacre e me deparo com outra caixa. A língua de Pandora ainda está no meu ouvido, mas vai perdendo o encanto. A terceira caixa já é do tamanho de uma criança do meu tamanho e tenho medo de abri-la e me dar conta de que eu estou indo em direção ao nada.

Isso faz tempo. Mas está tão vivo pra mim quanto estas caixas que me rodeiam agora. Quando penso nisso, o que vem logo depois é decepção. Construí um mundo feito de papelão, um mundo quadrado e sem conteúdo. Me espanta que apenas eu lembre desta história. Tanto que me pergunto se Pandora algum dia existiu.”

Caixas de Sobra é uma história sobre o meio. Escrita por cinco autores, mantém como princípio a liberdade criativa para que cada episódio seja não só uma surpresa para o leitor, mas também para o autor que lhe dará a sequência. Sem a possibilidade de um fim planejado, de um enredo harmônico, Caixas de Sobra acaba por imitar a vida: começa e termina em um ponto arbitrário de uma linha demasiado longa para deixar ver seu início ou fim.

Acompanhe conosco essa road trip que mostrará a jornada de um vendedor e seu interminável, indesejado e inseparável estoque de mercadorias contra a desesperadora falta de sentido da vida contemporânea. Veja como o protagonista tentará encontrar sentido nos lugares e fatos mais insólitos da vida.

Siga conosco Caixas de Sobra, todas as quartas-feiras, 20h, no Poligrafia.

Projeto Poliscrito

Typewriter, por Scott L. Kho. (Disponível em: http://scottkho.deviantart.com/art/Typewriter-18164671)

A ideia do Projeto Poliscrito funde dois princípios que inegavelmente fazem parte da produção contemporânea de ficção: a narrativa seriada, popularizada principalmente através das séries de tv (mas também populares na forma de novelas, quadrinhos e até alguns jogos narrativos modernos como Life is strange); e a narrativa coletiva, em que diferentes autores se intercalam na escrita de uma mesma obra, marcando-a com seus próprios estilos, enfoques e enredos.

Dessa forma, desejamos com o Projeto Poliscrito, produzir narrativas longas (sem um encerramento previsto) que serão semanalmente postadas no blog. Cada episódio dessa narrativa é escrito por um dos membros do blog, que se alternam em uma ordem estabelecida para manter a maior distância entre os estilos de escrita. Com o tempo, conhecendo como cada um de nós escreve, será possível ver formar-se um ritmo próprio da narrativa, que oscilará entre escritas memorialistas, fluxos de pensamento, ação, suspense e violência.

Auspício, por Lucas M. Carvalho

Temple, por Dan Filimon. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/Temple-46180688)

“Um rio sem nome cruzava nossa frente e descia em cachoeiras por plataformas circulares que se repetiam. A correnteza vinha do flanco de uma montanha que mal se via no horizonte. Descemos pelas pedras escorregadias, nível por nível, e Alfredo da Cunha notou tal uniformidade que não poderia ser feita pela natureza: era um templo, ruínas que imitavam alguma estrutura cósmica que nos escapava à percepção.”

Ler o conto

Mais sobre o autor

Polistórias: Terror

Terror – por R-Y-A. Disponível em: http://r-y-a.deviantart.com/gallery/

A noite caiu sobre o Poligrafia, e as sombras de nossos pesadelos espreitam as janelas.  O medo inaugura nossa sessão temática, homenageando o gênero que, seja através de Poe, Lovecraft ou Stephen King, foi capaz de permanecer no imaginário popular por mais de um século. O tema: terror. A única regra: evitar o óbvio, o lugar comum, os monstros de sempre, os lugares de sempre. Da proposta nascem cinco contos estranhos, explorando as mais heterogêneas possibilidades de amedrontar (ou ao menos relembrar os bons tempos de Mestre dos Desejos nas madrugadas da TV aberta).

Boa leitura!

Projeto Polistórias

The power of writing, por Sara Gray. (Disponível em: http://saragray.deviantart.com/art/The-power-of-writing-500539959)

Cinco autores explorando os mais diversos recantos do universo ficcional, aventurando-se entre temas que os farão buscar soluções criativas para fornecer, a cada semana um novo conto para o Poligrafia. O conceito-chave do Projeto Polistórias é inovação. A cada mês criaremos, com a ajuda de nossos leitores, uma proposta de escrita diferente que terá como resultado um conto. As propostas podem variar desde mudanças de gênero (terror, policial, sci fi) até severas – e divertidas – restrições na forma (um spin off de um conto famoso, uma história sem utilizar diálogos, uma história centrada em fatos/elementos escolhidos ao azar, desafios do público etc.). Enquanto divulgamos os contos da primeira proposta (5 contos, um para cada autor do blog), nos preocupamos em escrever os textos do mês seguinte, mantendo sempre contos novos para o assíduo leitor do blog. Sintam-se a vontade para sempre comentar, nos posts relacionados à temática do mês, ideias para serem trabalhadas no mês seguinte.

Boa leitura!

Contagem regressiva

Time, por Martybell. (Disponível em: http://www.deviantart.com/art/time-41340729)

O Poligrafia preparou sua grande estreia para segunda-feira, dia 11 de Abril, às 20h. Estamos ansiosos para dividir com vocês todo o material que viemos planejando ao longo dos últimos meses. Se você está curioso com o que virá por aí, por que não vai conferindo um pouco sobre a escrita de cada um de nossos autores?

“Porta giratória”, de Gabriel Sant’Ana.

“Distração”, de Jonatas T. Barbosa.

Um trecho do livro Abaixo das nuvens, de Lucas M. Carvalho.

“O Grande Desastre”, de Luciano Cabral.

“Gêmeos”, de Pedro P. Sasse

E não esqueçam de conferir toda Segunda, 20h, um novo conto em Polistórias e Quarta, 20h, um novo episódio de Caixas de Sobra.

Boa leitura!