O Surreal Faz, Não Faz, Faz, Não Faz Sentido

a lua vem da asia poligrafia campos de carvalho

por Luciano Cabral

Quando chamamos algo de surreal costumamos associá-lo ao bizarro, ao incomum, ao estranho e ao incoerente. Olhamos, muitas vezes, de modo torto para narrativas que não possuem uma sequência lógica. E o próximo passo é, quem sabe, deixar o texto de lado.

Acontece que certos escritores, principalmente no início do século passado, exploraram esse tipo de narrativa, e produziram coisas bem interessantes.

O movimento Surrealista tem seu início oficial a partir do manifesto escrito pelo francês Andre Breton, em 1924. Sua proposta, muito calcada nos achados de Sigmund Freud, era difundir uma arte que não passasse pelo crivo da organização, da lógica ou da razão, que fosse produzida da exata maneira como aparece no pensamento: caótica, ilógica e tendendo ao onírico.

Aqui no Brasil, algumas obras flertaram com esse gênero. É o caso de Macunaíma, de Mário de Andrade, e de poemas de Murilo Mendes (que abraçou, como ele próprio diz, um “surrealismo à moda brasileira”). Mais tarde, Campos de Carvalho é o que, talvez, melhor abarcará o gênero com seus romances A Lua Vem da Ásia (1956), Vaca de Nariz Sutil (1961), A Chuva Imóvel (1963), e O Púcaro Búlgaro (1964).

“Chuva, chuva, chuva.

É a primeira chuva a que assisto da minha janela de hóspede – neste verão que bem pode ser a primavera, pois não tenho noção do tempo nem disponho de bússola para me guiar entre as horas do dia ou da noite. Ontem o deputado que se senta ao meu lado na mesa garantiu-me que estávamos em agosto, a até fez o sinal-da-cruz sobre o peito para demonstrar-me que não estava mentindo; mas eu tenho minhas dúvidas a respeito, e continuo acreditando que não estamos sequer em janeiro ou em março, pois o rio que ouço a distância continua a caminhar para a direita e só com a chegada da primavera é que ele se volta para a esquerda e se torna realmente belo.

Presumo que aqui me encontro aproximadamente há uns vinte anos, ou uns cinco pelo menos, pois já me habituei com a cama, as cadeiras e a mesinha-de-cabeceira, e não sou de me habituar muito depressa com as coisas. Eu poderia, bem sei, perguntar ao criado ou à criada que me servem todos os dias, ou mesmo ao próprio gerente do hotel, ou ainda à sua jovem esposa tão louçã e já tão vesga, o tempo exato em que aqui me encontro e o mês e o ano em que porventura estamos vivendo nesta fria noite de chuva; mas tenho receio de que eles me tomem por um maníaco que está sempre a querer saber as coisas, eu que tenho fama de tão discreto de tão educado, e prefiro morrer sem saber o dia da minha morte a ter que causar-lhes tamanha decepção.”

Este trecho é o início da segunda parte do romance A Lua Vem da Ásia. Este capítulo é intitulado “Capítulo 18º” (ainda que não tenhamos lido 17 partes anteriormente). O mais interessante desta narrativa surrealista é a presença da coesão, mas a pouca coerência, o que torna a leitura, de fato, caótica – mas não totalmente. É possível encontrar um crescendo, uma sequência de acontecimentos.

Aqui, o que é interessante é nós leitores ligarmos o caótico e o não-caótico, achando lógica no que é, aparentemente, ilógico. Ou melhor, encontrando sentido em algo que, num primeiro momento, parece não ter. Mostrando como o surreal é, muitas vezes, uma faceta da realidade.

É de certa forma um trabalhoso exercício de leitura e um igualmente trabalhoso exercício de escrita. Mas o estilo debochado, por vezes coloquial e em tom de conversa leva-nos a seguir em frente.

Vale a pena dar atenção ao Surrealismo, que me parece hoje, bem pouco difundido ultimamente – tanto ao leitor quanto ao escritor.

O começo da história: a primeira impressão é a que fica

por Luciano Cabral

O título deste pequeno texto talvez fale mais para o leitor do que para o escritor. Porque, quase sempre, a primeira frase que lemos não é a que o autor tinha em mente quando pensou sua história. Há começos de histórias que não cativam (embora não signifique que o que virá não cative). Mas há começos que ficam. Alguns são uma óbvia apresentação, como em Moby Dick, Chamem-me simplesmente Ismael. Daqui há uns anos não me peçam para ser mais preciso. Outros apóiam-se em frases bem conhecidas, como em O Psicopata Americano, “Perca toda a esperança aquele que aqui entrar” está rabiscado em letras com de sangue na parede no edifício do Chemical Bank. Há outros ainda que optam por confundir o relato, como faz o narrador em A Lua Vem da Ásia, Aos 16 anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa – e qual defesa seria mais legítima? Logrei ser absolvido por 5 votos a 2, e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. E há, além disso, aqueles que se dirigem a nós leitores, como Dom QuixoteDesocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar.

Mas estes exemplos são de frases de abertura de obras já acabadas, prontas. Quando a história ainda é apenas um emaranhado de ideias na cabeça, vale a pena se perguntar: como começar a história?

Começar uma história não é uma decisão banal. Muitas vezes, a primeira impressão é a que fica. Pode-se escolher por começar do começo, ou seja, abrir a narrativa com algo que lembre princípio, origem, início – o nascimento, a infância, as primeiras horas de um dia, o dizer o nome, o acordar pela manhã. Por falar nisso, deste último temos A Metamorfose, Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intran­quilos, em sua cama meta­morfo­seado num inseto monstruoso. Ou pode-se preferir começar do meio, deixando várias pistas que serão desvendadas (ou não) no recorrer da leitura. Cem Anos de Solidão é assim, Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. E pode-se até começar pelo fim, daí termos como melhor exemplo, Memórias Póstumas de Brás CubasAlgum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte.

As opções são muitas e variadas para quem escreve. A decisão requer, acima de tudo, saber qual o efeito que se busca ao se eleger esta ou aquela frase inicial. Começar pelo começo é uma boa estratégia para quem quer que o leitor crie intimidade com o personagem. Por outro lado, começar pelo meio aguça a curiosidade, uma vez que pistas serão deixadas logo nas primeiras páginas. Por último, começar pelo fim obriga o leitor a acompanhar o personagem até que o ciclo se feche, quando a história é concluída e tudo faz mais sentido.

Para mim, uma boa história deve começar com uma boa frase. Do contrário, não me cativa. O resto da narrativa pode ser excelente. Contudo, sem um começo cativante, sempre fica a sensação de que algo está fora dos eixos. Saber como alcançar o efeito desejado pode fazer toda a diferença. Pode fazer com que a primeira impressão fique.