“Ainda não”, por Luciano Cabral

“(ele afasta a mão da prostituta mais uma vez) passei anos me tratando, um tempo depois, conheci Clarice, era escritora, de coração selvagem, muito inteligente, escrevia mal mas eu achava, eu achava que a gente podia se dar bem, a gente se dava bem, mas ela ficava olhando as estrelas à noite, dizia que estava esperando o filho voltar, que ele tinha fugido pra outro planeta, com medo dos baobás”.

Já ouvi dizer que toda prostituta precisa ter um quê de terapeuta. Na maré de fetiches sexuais sempre acaba entrando um caso de insegurança, uma alma solitária, alguém precisando de um abraço, gente buscando apenas um lugar pra não ser julgada. De fato, talvez sejam essas meninas que mais intimamente conheçam a alma humana, livre de todas suas barreiras, pura e profunda nudez. No conto de hoje, Luciano Cabral abre cortina dessa intimidade para revelar um caso de amor único: um homem e suas muitas amantes da papel.

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Mais do autor

“Nunca se esqueça”, de Lucas M. Carvalho

A princípio, o tema Amor pode dar a impressão que o ciclo de contos será uma recorrência de relatos românticos, desses que nem os mais apaixonados amantes aguentam mais escutar. Uma de nossas premissas, contudo, é evitar o lugar-comum. Sendo assim, não espere, ao longo das próximas semanas, histórias convencionais de amor, pois ele surgirá onde menos se espera, das formas que menos se espera, com as resoluções que menos se esperam. É o que faz Lucas, ao começar o ciclo retratando o amor divino e o amor mortal numa releitura do Hino da Pérola, texto gnóstico do século  2º. Com ares de narrativa mítica, acompanhe a história de “Nunca se esqueça” tendo em mente que amor, ainda que universal, assume as mais distintas e peculiares expressões culturais.

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Mais sobre o autor

Polistórias: Amor

Amor é uma questão, sem dúvida. Para os gregos, parecia ser fundamental, tanto que cunharam, logo de cara, quatro palavras diferentes (e eles tem mais) pra não faltar amor para ninguém. Aqueles que sempre estão por perto nos momentos de aperto, aqueles que abraçam apertado, que sempre aparecem nas fotos com grandes risos e grandes lágrimas, que abrem a geladeira sem precisar pedir, todos esses são do grupo da Philia. Para os beijos roubados debaixo de uma árvore, para o suor frio e o suor quente, para aquela mistura de dor e felicidade, para o acordar, olhar para o lado e sorrir, esses são o Eros. No Stergo ficam os incompreensíveis sentimentos de união entre o tio chato que pergunta sobre os namoros, a vó que dá meias de presente de natal, o insuportável irmão mais velho e aquele cachorro meio cego há treze anos na família. Agora, se a coisa vai além das idas e vindas do coração, se é aquele que nasce pequeno lá no fundo da alma e inunda a gente de um sei lá o quê que dá até calafrio, se o sentido é plena devoção, aí você está na sublime presença do Ágape, aquele que quebra a vontade do homem.

Para nós, novos latinos, a situação é menos conceitual e mais pragmática. Vamos usando a palavra conforme a necessidade, sem economia desnecessária. Num dia é eu amo chocolate quente, e no outro Como Deus amou o mundo de tal maneira. Dizemos eu te amo para o irmão, para a irmã, para a amigo, para a avó e para o amante. Sem perceber, sempre fomos um pouco afins ao poliamor, jogando nas mesmas quatro letras todo objeto de nossa afeição.

Não é de se estranhar, assim, que os poetas vivam ensaiando nos seus versos a definição sempre imprecisa desse metamorfo sentimento. Basta uma tentativa de apreensão para que surja, em um prédio cinza perdido na multidão de concreto da cidade, um coração solitário que resolva cair de amores pela Lua. Ou por um quadro. Ou por aquela pessoa que só vimos uma vez num sonho, ou à primeira vista, mas que nunca conseguimos esquecer. Aí já era. O sentido do amor fugiu outra vez.

Nesse ciclo do Polistórias, escreveremos tendo isso em mente. Da mais careta à mais inusitada situação, empreenderemos a frustrada missão de representar a pluralidade dessa gigantesca palavra chamada amor.

Altergrafia apresenta: “Elle”, de Aretha V. Guedes

46219767-208-k281591“Olho para o céu e noto que não há estrelas esta noite. Está escuro e um vento frio bate em meu rosto. Tenho uma sensação ruim, então me encolho entre as flores do quintal da minha casa.”

Para aqueles que, como eu,  não estão habituados ao mundo das comunidades virtuais de literatura, o primeiro contato estranha. Milhares de histórias, milhões de leitores, um mar literário heterogêneo e dinâmico que segue sua própria corrente, ora convergindo ora divergindo das tendências de papel. Ainda que se encontre de tudo por lá – de fantasia a literatura erótica, de mistério a autoajuda – , os destaques de leitura revelam que a inovação estética, o experimentalismo e os temas eruditos lá não encontram muita vez. Milhões de leitores se deliciam entre páginas de enredos populares desde o século XIX. Mudam-se as peças e o tabuleiro, mas as jogadas repetem-se à exaustão. E não devemos achá-lo ruim. Influenciados pelo padrão da vanguarda,  esquecemos que a arte nem sempre precisa ser transgressora ou inovadora, às vezes, precisa apenas agradar.

Para apresentar esse mundo aos leitores do Poligrafia que ainda não o conhecem, ou para possibilitar mais uma de suas incontáveis facetas, trazemos essa semana um altergrafia diretamente importado dos populares romances do Wattpad. Aretha V. Guedes nos fornece um pouco de sua trilogia virtual Elle, uma história sobre música, amor e amizade.

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Sobre o autor

Altergrafia apresenta: “Tempos de brisa (ou a partilha do gato)”, por Leonardo M. A. Pinheiro

Cat at the window, por “Seb-Z”. (Disponível em: http://seb-z.deviantart.com/art/Cat-at-the-window-33031597)

“Essa energia que já anda tão parada, tão carregada de uma nostalgia de fotos
empoeiradas, me dá um sono danado, ainda mais com esse friozinho… Se bem que
dormir é mesmo a melhor opção. Até porque a brisa não cessava de cruzar por entre
as frestas e, insistindo em uivar, fazia o que Joana deveria fazer, anunciava a chuva
que já se mostrava perto demais.”

Dando sequência a nossa coluna de autores convidados, apresentamos hoje um conto do autor Leonardo M. A. Pinheiro.  Pernambucano radicado em Brasília, Leonardo é a prova que o Altergrafia está conseguindo cumprir um de seus objetivos: colocar em diálogo as produções literárias de autores contemporâneos em diferentes partes do Brasil.

Em “Tempos de brisa (ou a partilha do gato)”, temos um conto muito bem equilibrado entre a temática complexa – que envolve amor e morte, perda, solidão e recomeço – e a simplicidade para trabalhar tais temas sem soar obscuro ou pedante. O que se sobressai no conto, contudo, é a peculiar perspectiva em que é narrado. Deixo, assim, vossa curiosidade como parte do convite para a leitura de mais um Altergrafia.

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