Caixas de sobra – Ep. 03

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O velho Cássio marca 18:35. O Garçom entra. “Tudo bem, com o senhor?”. A porta do banheiro está entreaberta. A cabine vazia. Um grande pedaço de merda, disfarçado de gato de Cheshire, sorri na privada. O coração está acelerado. O corpo sua em regiões ignoradas por um corpo dez anos mais novo. Santos Passos, vendedor, idade indeterminada pelas rugas, passa água no rosto. Fede a enxofre. Para ele, toda água de bica fede a enxofre. Imagina os ratos mortos, os ovos de insetos, o lodo, tudo sendo mascarado pela pedra amarela. Os dedos acariciam incrédulos a pele curtida durante anos pelo Sol. Quando foi que eu envelheci?

O velho Cássio marca 18:42. Está na mesa. A sua volta todos são iguais: espantalhos de terno, mastigando a comida de gosto já gasto pela rotina, olhos vidrados nas cores rodopiantes da tela. O horário é o limbo que separa o fulgor de vida das crianças de escola e comerciantes de meio-dia e a beleza familiar dos jantares noturnos. O almoço das quatro é a reunião de todos os restos: sempre que os restos de uma opção começam a esfriar no mostruário, os garçons, para não travar o fluxo, despejam comida nova por cima, misturando-a com o resto da antiga. Às 16 horas, só permanece no restaurante aquilo que ninguém quis, aquilo que circula entre as remessas novas, esperando ter a sorte de acabar num prato, mas esfriando conforme só lhes resta contemplar o fundo da bandeja.

O velho Cássio marca 18:52. O garfo desenha um redemoinho no molho de salada. Subitamente pareidólico, o rosto do menino se esculpe no nervo de carne que restou. O sorriso debochado. A ponta de catarro quase alcançando os lábios. A camiseta regata dos odiosos cartoons pós-modernos. O corpo era tão frágil que facilmente romperia entre suas mãos. Seriam necessárias apenas quatro caixas para carregar os pedaços do corpo nos bancos traseiros do carro. Quando foi que eu deixei de gostar de crianças?

O velho Cássio apita às 19 horas. Nunca foi capaz de reprogramar o relógio. Há dez anos ouve, como os lamentos de um velho sino de igreja, o monofônico e estridente aviso de uma hora vazia. Nunca soube, tampouco, que botão – ou combinação – é capaz de fazer cessar aquele som. Há dez anos gasta dez ou mais segundos apertando as pequenas hastes de metal em busca do certo. Dez horas de vida gastas em alarme. A caixa recebe o cartão. Senha. Nota. Recibo. Comanda carimbada. Comprovante do estacionamento. Vazando papeis, segue para o carro. O que eu teria feito com essas dez horas se nunca comprasse o relógio?

O velho Cássio marca 19:10. O carro deixa a fila do estacionamento e entra para a grande fila chamada rush. O pequeno bibelô no retrovisor gira de um lado para outro. O coro de buzinas é um alarme Cássio em que milhares de pinos impedem seu desligamento. Um último cliente a ser visitado antes da cerveja na cadeira de praia do meio da sala. Antes dos olhos cansados da Marlene, seu hálito de shake alimentício e aquela sua prótese dentária que fica brilhando no fundo da boca.  Um cliente nas bordas da grande cidade, onde quase tudo fica para trás.

O velho Cássio cansado marca 19:45. Santos Passos na rodovia. A Lua é apenas uma fatia fina de luz ofuscada pelo brilho xenônico dos faróis.

Pedro Sasse

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“Carne de Bicho, Carne de Gente”, por Luciano Cabral

Kissing me like benzocaine, de Bailey Elisabeth. (Disponível em: http://bailey–elizabeth.deviantart.com/art/kissing-me-like-benzocaine-117556905)

“Rebeca nota o rosto úmido do filho, “Davi estava chorando?”, seca suas lágrimas com a bainha da blusa, “estava”, “por quê?”, “fome, como todos nós”, as duas entram na cozinha, Bartolomeu pega o cachimbo que havia deixado na poltrona, dá uma tragada e vai sentando vagarosamente na poltrona, “eles vão dar um jeito, como sempre, meu avô contava, e disso eu lembro, ele contava que, quando a carne dos bichos acabou, teve briga, teve revolta, teve incêndio, mas acharam como conseguir outra carne”

O que estão achando das polistórias de terror? Os pesadelos já começaram? Se não, talvez Rebeca e sua família possam te ajudar com isso… Sucedendo o “Cuidado, piso molhado!”, de Gabriel Sant”Ana, acompanhe conosco “Carne de Bicho, Carne de Gente”, um conto para abrir o apetite.

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Caixas de sobra – Ep. 02

Coca cola, por Monika “Zi0oTo”. (Disponível em http://zi0oto.deviantart.com/art/Coca-cola-262887048)

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As nuvens estavam tão unidas que pareciam uma tampa branca fechando o céu. No rádio do carro nenhum anúncio de chuva. O vento soprava folhas secas pela janela do motorista. Desgraçado, pulsou a mente do homem enquanto girava a manivela para o vidro subir.

Quarenta e seis caixas ainda chacoalhavam. Não saberia dizer quantas casas visitou, quantos cães tentaram morder sua perna, quantas portas fecharam no seu nariz. Eram figuras anônimas em sua mente igual a uma lista telefônica.

Exceto uma.

– O que uma criança idiota sabe? – resmungou em voz baixa olhando para o retrovisor. O espelho estava tão deteriorado que ele mal via os contornos do rosto. Havia uma mancha cor de cobre bem suave que lembrava bastante o formato da Itália.

– Fechou a porta na minha cara? – continuou, esfregando inutilmente um trapo de camisa no espelho. – Um dia a casa pega fogo. E vai pedir ajuda pra quem? O primeiro estúpido que encontrar na rua. Moleque idiota.

O estômago apertava. Não conseguiu vender. Então insistiu, sacrificou o horário do almoço. E as caixas continuaram lá. Acenavam de um lado e para o outro no banco de trás. Só havia bebido uma lata de refrigerante. Sempre lhe disseram que coca ou café com estômago vazio causava úlceras. Devia ser lenda. Coisa de gente fresca.

Abriu outra lata de coca quente apoiando os cotovelos no volante e derramou pela boca seca. Sentiu o sangue fluir pelo pescoço e preencher a cabeça. A visão escureceu e voltou como tela de TV antiga.

– Precisamos comer alguma coisa, – disse encarando o vulto de caixas pelo retrovisor.

O carro atravessou uma alameda e virou para o estacionamento do primeiro restaurante que encontrou.

Entrou pela frente e sentiu uma lufada de ar frio. Havia telas de plasma penduradas em todas as paredes. As pessoas assistiam enquanto tilintavam os talheres nos pratos e tagarelavam. O garçom aproximou-se com um sorriso de apresentador de programa de auditório. Aqueles dentes brancos e rugas fechando os olhos o incomodavam.

– Boa tarde. O senhor vai querer mesa pra dois?

– Boa noite, – já passara das seis – Pra um.

A cara do atendente parecia couro curtido. Daqueles prensados que não enrugam. O sorriso persistiu até chegarem a uma mesa próxima à janela.

– Quero esse negócio aqui, – disse apontando uma fotografia qualquer do menu.

– Ok, senhor, – anotou no bloquinho. – Quer a entrada enquanto isso? Algo pra beber?

– Coca.

– Apenas isso, senhor?

– Só.

O garçom deu dois passos para trás e se virou graciosamente. Que bicho estranho, pensou.

A Coca ia ser servida num copo com gelo por outro garçom, mas ele interrompeu tocando-lhe o pulso. Bebeu no gargalo. Não confiava no gelo de restaurante.

Tomou metade em uma só golada. A garganta ficou dormente. Quando abaixou o copo sentiu a bexiga latejar.

A porta do único banheiro do restaurante estava trancada. A sombra de alguém caminhando fazia a luz por baixo da porta piscar. Ele franziu a testa. Parecia que estava correndo de uma ponta a outra.

Coçou debaixo do relógio no pulso. Conferiu quatro vezes seguidas que ainda eram dezoito horas e vinte minutos. Não suportou e bateu.

– Tudo bem aí dentro? – disse tentando parecer preocupado.

Não havia som. A sombra parou um segundo. Uma fresta se abriu, mas ele não notou nada até mirar por baixo.

A criança fechou rapidamente e girou a tranca. Tinha certeza. Era um garoto, o mesmo garoto que zombara dele mais cedo. Também ouviu um barulho metálico chacoalhar. Provavelmente um ferrolho. O homem tentou impedir com o punho fechado num reflexo retardatário e inútil.

– Moleque escroto, – disse, mas não baixo o suficiente. Sem perceber o som dos talheres e do burburinho diminuírem, bateu na porta contendo a força.

Jonatas Barbosa

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“Cuidado, piso molhado!”, por Gabriel Sant’Ana

Dubai Mall, por Kris K.G. (Disponível em: http://lostknightkg.deviantart.com/art/Dubai-Mall-172455252)

“(…) Existem várias formas, maneiras de se matar alguém. Não perderia tempo estudando medicina, de que adianta saber os nomes dos músculos, ossos, veias, se o que importa mesmo é o sofrimento da vítima? Aquele shopping, aquelas pessoas, aquela situação, aquele ar condicionado, aquele médico, aquele trem, aquela sua casa, aqueles seus parentes, seus vizinhos.”

Dando continuidade ao tema Terror iniciado na semana passada com Auspício, de Lucas M. Carvalho, o Poligrafia traz uma perturbadora história pelas mãos de Gabriel Sant’Ana. Depois de ler “Cuidado, piso molhado!”, as praças de alimentação e banheiros de shopping centers com certeza não serão vistos da mesma maneira…

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