Caixas de Sobra – Ep. 37

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São Paulo surgiu como uma nuvem confusa. Lembrança. Tráfego. Luzes borrando o céu cinza. Do povoado à mata, da mata à capital das fachadas de vidro. Concreto. Buzinas. Entre a Ipiranga e a Avenida São João apenas as memórias dolorosas dos sorrisos dela. Santos Passos tentava se acomodar no sedan preto que substituíra as motos enquanto o passado arranhava as grades de sua mente.

Naquela noite ela era um cervo entre a folhagem de outono. Em suas mãos, maleta pequena, das que indicam volta rápida ou nova vida. A voz mecânica do aeroporto indicava voo pra Manaus. “Mas lá dentro só tinha…”. Os dedos de Santos Passos selaram os lábios, sua pele estremeceu diante do tato que se perderia entre quilômetros de um Brasil eterno para todos os lados. O destino era o Norte. A última barreira contra a civilização. Entre as esquinas de cimento e luz, toda sombra era um braço dos onze tateando por Pandora, pela responsável por toda aquela ruína. O Norte a protegeria, entre seus caudalosos cachos de rio, dentro de seu cavernoso estômago de madeira e mato. “Eu te busco quando isso tudo acabar. É questão de meses. Eu preciso conversar com eles. Quitar essa merda dessa dívida. Eu só preciso de mais alguns compradores. Ouvi dizer que a baixada fluminense é um bom lugar pra encontrar o tipo de gente que eu preciso…”. O cervo parte para a impenetrabilidade da selva. Só seu aroma perdura no saguão de embarque. “Mas lá dentro só tinha…”.

“Vem pro Rio, Santos, é a melhor opção agora. Eu consigo algo pra você… Você fica com algumas das minhas caixas em troca. Enquanto você continuar mandando dinheiro, eles não vão gastar muito tempo correndo atrás disso. Talvez até esqueçam dela. Chegando na rodoviária liga pra minha prima Marlene, ela te abriga uns dias”. Santos Passos sente a chuva no rosto ao embarcar na rodoviária Tietê. Santos Passos sente o Sol lamber seu rosto ao desembarcar na rodoviária Novo Rio. Nova vida. Santos Passos bebe cerveja no sítio de Judas em Xerém. “Você acha que os outros onze do Rio não vão ficar sabendo que você me ajudou a sumir de São Paulo?”. Judas ri. Parece que sob a sombra da jaqueira o mundo é mais simples.

Dez anos de uma paz pastosa. Dez anos de calor carioca cozinhando a alma. Dez anos de total silêncio na floresta. O tempo é longo. O sentimento é úmido, mofa com o tempo. Santos Passos se acostuma. Cochila no carro desgovernado de sua existência. Esquece dela. Do passado. Até que um despertador toca num restaurante qualquer da estrada. E as caixas, de súbito, parecem pesadas demais.

“Acorda, Ben. Seu problema é passar tempo demais dentro da sua cabeça. Aí dentro não tem muita coisa que preste. Relaxa que a gente costura sua amiga caipira. Vai lá ter a conversa que você tanto pediu. E aproveita, pode ser sua última…”. Desperta do transe diante do local que deu início a tudo. Atravessa o saguão da empresa. Piso, vidros, funcionários. Tudo são tentáculos de um passado que tenta arrastá-lo para dez anos atrás.

Pedro Sasse

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Caixas de Sobra – Ep. 35

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As luzes de onze lanternas oscilantes não estavam na mata, mas impressas em sua vista. Os calafrios talvez acusassem uma queda na pressão. A dor na palma da mão era grave, pulsando junto com a vida enraizada naquela terra, junto com a dor de Angélica.

– Quantos estão aqui? Todos?

– Você sabe que não.

– Pensei ter visto…

Angélica cai. Passos não tem vontade de socorrê-la, mas de cair junto. Lembrou-se do dia em que jurou, olhando o registro de Simeão, que ele nunca lhe poria as mãos vivo. Por muitos anos carregou uma Taurus 85S .38 milímetros com uma única bala na cintura. Sentia que este era seu maior segredo, confidenciado apenas àquele projétil de liga de chumbo. Sentia que, se houvessem outros, o poder do segredo seria diluído. A bala não era para Simeão, era para ele próprio, um último deboche à corporação. Porém, um dia, há muitos anos, pouco antes do casamento, lançou a arma ao mar.

– Porque as coisas, na vida real, não são tão simples…

Ajudou Angélica a levantar. Ela soluçava.

– Quem são eles, Passos?

– Me perdoa, meu anjo. Me perdoa.

O sangue esfriando, a dor aumenta, a escuridão parece mais terrível. Lembrou-se de que alguém da comunidade, certa vez, comentou que essas florestas são infestadas de cobras. Logo chegaram à trilha mais aberta, e viram, ao lado duma moto tombada, a figura estática como a silhueta do ceifador. Issacar ou Zebulom?

– Ele quer negociar. – disse Simeão.

– Não sabia que negociávamos. Você nos decepcionou, Benjamin.

Passos sentiu um fraquejar, quase implorou, mas cerrou os dentes de raiva e não baixou a cabeça. Agora, mais do que nunca via os mínimos detalhes da bela taurus: o tambor prateado, o gatilho, o punho em polímero. A corrosão implacável da água.

– Suba na moto comigo. Ela vai com Simeão.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 33

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É uma terça de tarde. Santos caminha junto a Simeão pelo acostamento. “Uma lição importante do trabalho. Eu já consegui mais clientes que uns três de vocês juntos, que porra de lição é essa que se aprende depois de já estar cascudo?” Simeão não responde. Seus lábios sussurram Blue Moon enquanto o dedo com o grande anel de prata batuca a lateral da pasta.

18 anos mais tarde o rio arrasta o sangue de Angélica, e Santos Passos é apenas uma sombra debatendo-se contra a natureza. Os tiros, antes cantando de tronco em tronco dão lugar a um silêncio de caça. Cada moita guarda seu possível predador a espera de um galho quebrando num lugar qualquer da floresta. Santos Passos sente que, há demasiado tempo, nada no sangue dos outros, sente que é hora de nadar em seu próprio sangue.

É uma terça à noite. Um português de camisa branca manchada os conduz aos fundos do armarinho. A funcionária sorri para Santos Passos. Ele pergunta o preço do relógio de pulso. O português balança a cabeça e gesticula. Uma das Caixas está vazia sobre a mesa. Simeão abre as travas da maleta. “A última lição é a mais importante, Ben. É o pilar de todo o esquema. É uma lição ancestral. Os gregos já a conheciam…”. Ele termina de colocar suas luvas de couro e retira uma lâmina fina da maleta. Cabo de marfim. Geburah. “Uma vez a caixa é aberta, Ben, a morte é liberada no mundo”.

O corpo de Angélica está sobre uma pedra. A água circunda os joelhos de um Santos gasto. A lua cria as curvas da estátua estoica que ela mesma se tornou. Os olhos buscam entre as gotas da chuva o rosto do algoz. “É isso que você quer?”.  A voz é pura alma escapando do corpo cansado. “É isso? Não vou mais correr! Eu quero que você olhe na minha cara. Eu quero ver sua cara e sentir seu cheiro enquanto você me mata…”. O lobo sai das sombras. Pelo eriçado. Passo a passo vence o rio até que entre os rostos de presa e predador fique apenas a espessura da tensão. Nada em Simeão mudou em duas décadas de perseguição. Talvez apenas estivesse mais oco. Menos humano. Menos mortal. Talvez fosse apenas um pesadelo. “Você conhece a lição, Ben…”. A Geburah cruza o ar como um fogo fátuo piscando na mais solitária noite. Apenas diante da morte a total clareza da última lição atinge sua mente. A lâmina é freada atravessando sua mão. “Espera! Eu… eu… eu sei onde achar ela. Eu cansei disso. Eu não vou mais… eu… porra, Simeão, eu vou cumprir esse jogo doentio de vocês. Mas primeiro eu quero falar com o chefe… e… e a garota na pedra precisa sobreviver”.

É uma terça e um gordo treme em passos lentos de recuo. Há dois furos delicados transpassando pele, gordura e órgãos. Pinga menos sangue do que Passos poderia esperar. A porta dos fundos se abre. Um gordo trôpego dispara pela viela. Simeão gosta. Sente o cheiro da noite. O sabor do medo no ar. “Vamos dar a ele uns segundos de vantagem. Se não perde a graça…”

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 32

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A mata se adensa. Não é a primeira vez. As folhas cortantes dão lugar a um ajuntamento de copas baixas e retorcidas. Não ouve mais o barulho de motor. As pernas bambeiam. Há desníveis do solo coberto por folhas secas e frutas podres. Os insetos revoam. Relutam. Invadem o nariz, os olhos, os ouvidos. A estradinha de terra batida está longe. Não há sinal da trilha em meio aos troncos estrangulados por cipós. Em suas costas, o peso de Angélica é o mesmo de todos os pecados do mundo. Enquanto as vozes formigam e ficam para trás, Santos Passos ouve um resmungo de bolhas. Seus pés tropeçam. O som de línguas d’água lambendo as pedras se intensifica.

– Rio – sussurra Angélica com voz de vapor em seu ouvido. O hálito está frio.

Atiraram uma vez. As lanternas iluminaram o nada. Onze pontinhos fragmentados na distância. Nenhum ruído. Até feras temem o furor desprendido no cheiro daqueles que vem atrás. Alguém liga uma caixa de som. Não dá para saber qual música, mas é Elvis. Com certeza é Elvis. Simeão gosta de ouvir no máximo. Na última vez foi Love me tender. Pôs Elvis alto no rádio e afundou o crânio de um amigo com uma garrafa de whisky. Mas desta, provavelmente, é My way, Santos tem certeza.

Outro disparo, oco.

Tenta por um segundo ouvir a respiração enfraquecida. Não ouve nem sente nada, mas não interrompe a marcha. As costas estão empapadas de sangue. Escorrendo pelas nádegas e fazendo as coxas colarem na calça. Se ainda escorre é porque está viva, pensa.

O chamado das águas se intensifica. Pronunciam a primeira letra do seu nome. Ele sibila como uma cobra dormente. Santos atinge uma ladeira que antecede a margem do rio. Santos desce a ladeira coberta por raízes e sente a lama grudar nas canelas. Segue o contra fluxo das águas ignorando os galhos de plantas subaquáticas que perfuram as panturrilhas. Não olha para trás. Ignora a ausência de ruídos e o sangue frio de Angélica. Poderia descobrir que está morta. A margem se torna completamente íngreme. Não há outro caminho além da água. Não há como ignorar o seu chamado. Seguir pela água até a cintura. Enfrentar a correnteza até sabe lá São Cristóvão lhe permitiria. Não será a primeira vez.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de Sobra – Ep. 29

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Passado e presente se confundiam em um espiral de vozes e imagens. A fogueira e cantoria da vila. O dia das crianças no shopping. A primeira entrega. Pandora e sua mania de conversas com os personagens da TV. Os pedaços de corpo no hotel. Os gemidos abafados atrás da porta. O jagunço sem fôlego que cruza a entrada correndo.

– Acertaram o Das Dores lá perto do riacho, chefe. Ou tem milico atrás do equipamento ou é o tal delegado que tá no pé do Caixa.

A tropa, como esteira de produção, põe-se em marcha: embala, guarda, arma, veste, vigia. Na coreografia precisa da empiria, apenas o líder mantém-se estático. Seus olhos captam cada tremor na carne de um Santos Passos em desespero contido.

– Ainda estou esperando uma história, senhor Caixa. Os homens estão subindo e vamos você e eu pro inferno juntos se ela demorar.

Angélica tenta falar. É dissuadida pela sutil tensão no dedo do gatilho. Do lado de fora, os pássaros noturnos alertam no revoar de suas asas o avanço de corpos estranhos arrastando-se pela sombra.

– Você vai confiar em mim porque eu estou desesperadamente mais fodido que você… chefe.

A fala de Passos é puro reflexo medular. Uma nascente de palavras surge em sua boca, longe de qualquer reflexão prévia. Apenas descobre o que fala quando ouve a voz distante. Memória e pensamento, agora, dão lugar a um chiado agudo que se sobrepõe a todos os sentidos.

– Você vai confiar em mim porque a última coisa que eu preciso é de mais gente atrás de mim. Quem tá subindo não é a polícia, nem o exército, nem nenhuma força com que vocês estão acostumados a lidar. Estou tentando avisar desde que você chegou. Os onze estão vindo pra recuperar o décimo segundo. É possível sentir na tensão da mata. Eu não estou fugindo da polícia por medo de ser preso, você entende? A prisão seria um lugar de paz. De descanso. Mas quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em me fazer acordar com doze furos nas costas no pátio de uma penitenciária. Quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em invadir uma área tomada por forças armadas nem em mandar pelos ares esse barraco. Eles não estão interessados em dinheiro, nem poder, nem prestígio, nem sexo. É uma ideia. Inabalável. Incansável. Me perseguindo em cada pesadelo, atropelando essa realidade de papelão em que vocês vivem. Foi o que fizeram no hotel. E antes disso em São Paulo, quando ela abriu a… É por isso que você vai confiar em mim. Você vai querer me lançar como um pedaço de carne quando os cachorros avançarem raivosos na sua direção. Você vai querer que eu seja um problema distante quando eles chegarem aqui.

A arma passa da mesa para o coldre. Os olhos, antes focos fixos, são agora pequenas redes tentando captar no ar o perigo que pressentem. Com certa resistência, o dito chefe estende uma maleta metálica para Angélica.

– Cachorro louco esse aí. Tenho certeza que vai se dar bem com o Pablo.

Tiros ao longe indicam a hora de partir.

Pedro Sasse

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Caixas de Sobra – Ep. 28

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O rosto de Passos estava emoldurado por suor. A testa estava tão quente que mal ouvia as palavras de Angélica. Ele não compreendeu bem o que pretendia, mas funcionou. Era só manter a calma. O chefe se inclinou para frente exalando um cheiro de Leite de Rosas.

– Mataram um dos nossos, é?

– Sim. Não teve o que fazer. Mas a gente-

– Cala a boca, piranha. Deixa o amigo caixa falar.

 

O suor brotou abundante na testa e caiu no olho. Passos respirou fundo e começou. A ponta dos dedos tremiam. Abriu a boca e falou. Cada som atropelava o seguinte, como se vomitasse. Outra gota pingou do queixo e se avolumou na superfície de madeira. Mais algumas e a poça encostaria no cano da arma. Ao terminar, o chefe girou a arma e disse:

– Senhor caixa, você vai ter que contar tudo de novo. Não tô entendo nada.

– Desculpa.

– Não precisa ficar nervoso. É só falar uma coisa de cada vez.

Santos enxugou a testa com a mão trêmula e engoliu o resto de saliva na boca. Olhou de soslaio. O rosto de Angélica era impenetrável. Não havia rastro de piedade nos olhos. O chefe estalou a unha no coldre da arma. O buraco escuro apontado para o peito de Passos esfriava o sangue.

– Vai por mim, caixa. Se tivesse que passar você, já teria passado.

Santos encolheu na cadeira como uma lesma coberta de sal. Ia meter a mão no bolso. Não o fez. Podiam entender mal. O chefe passava legítima sensação de tranquilidade. Mas o dedo indicador de cada um dos capangas estava no gatilho. Alguns pressionavam até a folga de segurança. A maioria deles estava ali não por necessidade, mas pelo hábito de matar. Começava com um gato, depois um primo numa briga. Não conseguiam parar. Poderiam disparar ao som de uma tosse. Encherem seu corpo de buraco.

Não havia nada no bolso além dos restos de Tzu, lembrou. Uma página riscada com o desenho de giz de cera.

Santos respirou fundo e abriu a boca. Agora foi pior. As palavras não saíam. Pareciam ter entupido a garganta.

– E-E-Eles. Sã-sã-

– Não tô entendendo porra nenhuma.

O chefe pegou a arma como se fosse feita de papel.

– São onze.

– Que onze? De que porra ele tá falando, Angélica?

O suor se misturou com as lágrimas que se acumulavam no canto dos olhos.

– Agora vai chorar?

Passos deslizou os dedos para debaixo da mesa. A mão se encaixou nos bolsos. Havia alguma coisa embolada num monte de contas. Um terço. Ele lembrou. A velhinha falou rápido. Só deu tempo de envolver a caixa e ir embora. Nunca rezou um terço. Passos ia à igreja durante a infância. Nunca gostou de rezar. Inclinava a cabeça. Pensava no jogo de futebol ou na menina que estava no banco lá trás. Só gostava das vezes que o sermão era sobre milagres. Os mártires e profetas pareciam super-heróis.

O cano encostou na testa. Santos espremeu o cordão entre os dedos. O fio se arrebentou.

– Se não vai falar, vou te ajudar. Vou desentupir sua garganta.

Sentiu o ferro descer ´pelo nariz e tocar a ponta do lábio.

– Os onze – engolindo lágrimas, falou.

O canto de Dona Tereza lá fora deu lugar uma turba de pernas. Uma sucessão de armas engatilhadas. O murmúrio dos homens engolido pelo gemido das mulheres lá fora.

Os olhos de Passos ardiam afogados no escuro. Ele se recusou a abri-los.

Jonatas Tosta

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Caixas de sobra – Ep. 25

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O chefe não chega. O sol se esgueira por traz da folhagem densa, deixando raios esparsos serpenteando pelo chão. As aves de canto trocam turno com as de rapina e o assobio relaxante do vento se enche de frio. Chegar. Entregar. Sair. A quebra de planos era uma quebra na própria espinha de Santos Passos. Escorre pela cadeira distraindo-se no ir e vir do grupo armado. Nem um único som de Angélica. Está em sua pose de bicho noturno, toda olhos brilhando na escuridão, encurvada, como se a qualquer momento fosse rasgar a jugular de qualquer coisa que cruzasse o seu caminho. Santos e ela se entendiam melhor assim. No mesmo silêncio que se encontraram, há uma vida atrás, no muro do Coronel. E se nunca houvessem se encontrado? Visualiza sua invasão mal sucedida, um tiro na perna. A chegada dos policiais. Uma prisão em delegacia de interior.  A culpa dos assassinatos no hotel. Televisão. Família. Julgamento. Presídio dos grandes.

O pensamento inunda-se de um ruído que não tarda em transbordar para a realidade. Um grito abafado. Lamurioso, mas ritmado. As madeiras rangem. Angélica vira o rosto para a janela, encostando a testa no vidro empoeirado. As mãos fechadas e trêmulas. Só uma vez Santos Passos a viu daquela forma. Era fim de tarde e a comunidade perdia-se em risos e copos de cachaça em volta da fogueira-de-espantar-muriçoca. Dona Tereza cantava uma modinha seguida de palma e voz pelos moradores mais antigos. A cantoria, cheia de uma energia ancestral, de uma beleza bruta, contagiava os mais calados, como Paulo Gago e Marlon. Angélica, sombra e fogo, não dança, mas fica imóvel em frente à fogueira, farejando a noite e o passado. Santos Passos não percebe exatamente quando a festa acaba. A filha do Mestre Matias chora. Os homens discutem. Os velhos contemplam indiferentes os redemoinhos mínimos do rio da vida. Mas Angélica nasceu com o sangue de onça do mato. Rasga a noite em busca do culpado. “Foi à força”. “E o que ela tava fazendo de noite sozinha?”. “É caso de polícia”. “Isso dá morte”. Santos Passos segue de longe, sem interferir na caçada. Terminam atrás da vendinha. É um dos moleques de Pablo. Está ainda sem camisa. Sorriso e cigarro. Ela, mãos trêmulas. Segura-o como se fosse uma galinha de granja, mãos firmes no pescoço, cabeça contra o chão. Não há um ódio formulado em palavras, apenas a respiração forte e as involuntárias contrações no rosto iluminado pela lua. O vermelho mancha o quadro monocromático enquanto o facão passa uma e outra vez pela carne flácida. O som é como uma criança pisando numa poça de lama num dia de chuva.

A porta do único quarto do barraco se abre. Um dos armados sai decorado por um sorriso embaçado de degradação. Outro entra. E o ritual de grunhidos filtrados por pano de mordaça se reinicia. Nem Angélica ousa pará-los. O miojo esfria na mesa. E o chefe não chega.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 24

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Já tinha se habituado às pedras, matos, mosquitos, formigas de todo tipo, percebe que sua audição não havia de todo se perdido, parece ter desenvolvido uma atenção mais sutil aos menores sons, ali é um sabiá!, agora se lembrava das rápidas aulas de Angélica sobre os cantos dos pássaros, mesmo seu olfato estava mudado, talvez aquele ambiente menos sobrecarregado de fumaça de automóveis, ou melhor, o efeito dos odores diversos numa concentração comunitária, em exposição gratuita e obrigatória, e principalmente o cheiro de Angélica, o que também faz com que seu tato se aprimore, se desmecanize, apesar das marcas do relógio ou do volante ainda estarem como uma tatuagem borrada,

ainda assim permanecem, não como uma identidade, mas como uma condenação, as caixas, por mais que tenha tentado o contrário,

ainda assim permanecem os pedidos, o dever-entregar-ao-companheiro, senão sua sobrevivência estaria arriscada, ele sabe disso, certamente, mas precisa sempre se lembrar do velho ditado deixado pelos romanos manus manum lavat, ou (desnecessário traduzir),

Avista o companheiro a quem deve entregar a caixa.

Aproxima-se. O rosto do companheiro não parece,

– Então você deve ser o sr. Caixa… entra aí…

parece que,

– Pode deixar a caixa em cima da mesa, ali ó,

Estão no cubículo que parece uma sala, a mesa apontada está no espaço à direita, onde existe um sofá desgastado,

– Pode sentar aí, sr. Caixa, eu tava terminando de preparar uma carne moída, o macarrão vai ser miojo mesmo, ou você prefere arroz?

– Por mim

– Mas agora lembrei, o arroz azedou… Mas me conta aí essa história de “caixa”, até agora não entendi o que tá nos jornais…

– Bem

– Não, não… você deve tá com fome, andou bastante, e a carne tá quase no ponto, e é melhor esperar pra contar quando o chefe vier.

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 23

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São 13 horas do sacro Domingo. Santos Passos está ajoelhado ao Sol. A discussão ocorre aos sussurros, eclodindo, vez ou outra, um princípio de grito rapidamente abafado pelo desejo de sigilo. A grama ressecada arranha seu joelho. Mosquitos pousam e partem de seu rosto petrificado. Dez horas antes está sentando na cadeira de vime do que aprendeu a chamar lar. Olha Angélica. “Preparado? Um, dois, três e…” afunda a cabeça na piscina da casa de Bacaxá. Tem doze anos. A prima o beija no fundo da água. O mundo inteiro está longe. A escola. O padrasto. As brincadeiras de mau gosto de Lelé. Os lábios ficam unidos em perfeita harmonia. Quer estar ali pra sempre. Mas o ar está acabando. Sabe que a qualquer momento terá que desistir daquele momento e voltar à superfície. Mas pensar nisso é gastar o prazer do beijo. Não quer pensar. Mas pensa.

São três da manhã. Angélica é um tronco de árvore no meio da floresta. Plácida. Firme. Tênue. A comunidade inteira está em silêncio. O mesmo silêncio do fundo da piscina. Tudo ali está submerso. O cheiro dela. O café. O trabalho na obra. Mas o ar está acabando. São nove da manhã quando acorda. É domingo e olha para o teto e suas constelações de buracos e rachaduras. Vê Aquarius próximo a uma nebulosa de mofo. “Eu perguntei tanto ontem da caixa não foi por mim não que eu sou fuxiqueira… mas tem um delegado lá no asfalto que é. Vem perguntando muito sobre o Homem das Caixas, como o jornal tá chamando. Ele mostrou até a notícia…”. O ar está quase no fim. Santos Passos sente seu pulmão murchando. O desespero vazando das frestas da consciência. O Sol paira no centro do céu quando partem para ver Pablo. “Ele não vai querer você aqui, com as crianças e… tudo mais. Mas ele vai ajudar porque ele ajuda quem é da comunidade. Mas tem que confiar. Você vai ter medo, mas tem que confiar”.

O gosto de cinzas na mordaça aguça peculiarmente seu paladar. Dá fome. As formigas escalam as coxas, desbravando um sertão púbico. A última bolha escapa da fusão das bocas. Seguram-se pelas mãos. Tudo é comunicado ali. Sabem que é preciso emergir. Passa um quarto de hora ajoelhado até tirarem a venda. Demora a se acostumar com a luz. “Compañero… tu sabes que no quiero tu mal, pero tampouco puedo dejar que la policia venga hasta acá…”. Santos Passos se vê num mar de estrelas verdes. Sentinelas passeiam entre a folhagem, bonés e panos no rosto, ak47 a tiracolo. “Pero me hán dicho que te gustan las cajas, no? Pues vás a dar um paseo por el bosque hasta que la policia se parta y aprovechas para llevarme una caja a un compañero, si, sr. Caja?”. Angélica repousa a mão em seu ombro. 14 horas está em pé. Uma mochila militar está presa às suas costas, a caixa, em sua mão. Algumas lavadeiras rasgam o ar em voo rasante. “Angélica, coge el camino de siempre y te quedas em el abrigo hasta llegaren los compañeros. Volveis em unos dias com el mio que las cosas deben estar mas calmas, por acá…”.

Santos Passos entra na sombra úmida da floresta. Angélica, predadora, caminha adiante de olhos atentos. Anos antes, ele a prima se olham por última vez através da ilusão ondulante das águas. E mergulham novamente na realidade.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 22

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Passos despertou. Estava tudo submerso em silêncio. A TV sintonizada em um canal fora do ar, muda. O suor do seu corpo atraía os insetos. Era a única coisa com que não conseguia se acostumar. As moscas de lanchonete não passavam de borboletas comparadas àqueles parasitas. Dedicara-se a tapar cada fissura da casa, porém, sempre arrumavam uma maneira de entrar. Angélica dizia que antigamente era pior, que antes de inventarem os inseticidas industriais para plantações, nos tempos de garimpo de ouro, os mosquitos costumavam ter o tamanho de uma gralha, e existiam barbeiros do tamanho de onça. Sim, claro. É claro que existiam, ele concordava escondendo a boca atrás do copo de café.

As noites eram bastante desagradáveis, todavia, aquela madrugada estava ainda mais insuportável. Levantou-se para pegar a caixa de ovos vazia e os fósforos dentro da gaveta. Acendeu um. Deixou a chama queimar o palito até se apagar.

Ao longo de todas as noites, especialmente em noites quentes, o zunido aumentava. Mas naquela não. Passos, concentrando-se um pouco, poderia sentir o silêncio roçando a pele. Não. Isso era coisa de sua cabeça. Não havia motivos para se assustar. Pôs a caixa de ovos e os fósforos no colchão. Tentou bisbilhotar o quintal pelas cortinas. Matias dizia que, às vezes, bem no meio da noite, um ou outro garimpeiro morto caminhava pela região. Definitivamente Passos não era sujeito supersticioso. Achava graça. Mas observando aquele breu profundo como a garganta de um gigante, podia entender os medos daquela gente. As lâmpadas da varanda mal davam conta da fachada. Não conseguia ver nem sequer a bica com que enchia o balde para tomar banho.

Afastou a cortina para ter certeza. Tinha certeza. Não vira nada. Estava tudo em silêncio. Nenhuma brisa. Nenhum som de rã ou inseto. A dormência da perna se afastara e dera-se conta que o cheiro do corpo não era tão desagradável. Deixaria o banho para quando o sol nascesse e estivesse claro.

Jonatas T. Barbosa

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