Caixas de sobra – Ep. 19

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O sussurro impeditivo o afeta, aquela tonalidade feminina, de leveza agressiva, o faz cair em sua incapacidade, não pula o muro, Abrão, não! Vem comigo, melhor por aqui. Ser guiado. Passos segue. Angélica. Haveria de esquecer os dias passados por um tempo… O incidente. A falta de identidade. Passos prossegue num caminho tortuoso de velhas árvores de raízes aparentes, temeroso, como confiar nela, isso não era questão que lhe vinha à cabeça, apenas ela ter lhe indicado o perigo do pulo, quem sabe não perderia uma perna, ou braços pelo ataque dos cães treinados do coronel, quem sabe uma bala certeira na cabeça. Você deve estar muito perdido. Quando chegarmos, te deixo descansar. Pela manhã te apresento ao pessoal. Como se chama. Santos Passos. Ironia.

Chegam. Muros de pichações, abreviaturas, nomes, Samuca Saudades eternas. Dois homens, seguidos de três crianças, armados, se aproximam. Tá comigo. Olhares de cima abaixo sobre Passos.

Becos estreitos. Casas de vários tipos, de tijolos ou papelão, os tamanhos variam conforme o tamanho dos familiares, uma das regras era não exceder seis crianças. Caminhos que não seguem o trajeto das réguas com que as crianças aprendem a contar os números com Seu Afonso, professor de matemática aposentado, morador da casa amarela à Rua G. Santos Passos aprende, mesmo com fome e sono.

Não repara, é uma casa humilde. Pode usar o banheiro. Só não esvazia o balde d’água. Vou preparar um canto pra você deitar. E pega alguns panos velhos, toalhas que não servem para enxugar.

Finalmente deita.

Gabriel Sant’Ana

Não perca, na próxima quarta-feira, 20h, o próximo episódio de Caixas de Sobra!

Caixas de sobra – Ep. 18

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Coberto pelo escuro, pelo frio úmido que passeia pelas noites silvestres, Santos Passos não é mais que um tronco velho a espera do musgo. Àquilo chama descanso. Não o cochilo tenso no estacionamento do fast food depois do almoço. Não a madrugada vazia após o sexo tedioso, mecânico. Não os sonos conturbados dos primeiros dias de venda em São Paulo. É um descanso que já se apagava na memória, dos dias em que a rotina não batia ponto em seu peito a cada manhã. Lembra do rosto já borrado dela, sua graça e ruína, portadora de todos os dons e todos os males. Ela está vestindo um baby doll quase transparente. O corpo ainda nas primeiras curvas. Os olhos marcados pelas chamas vivas da juventude. Ela segura uma das caixas na mão, o primeiro lote que recebera. O papelão ainda rígido, quase brilhante. O adesivo de frágil luzindo o amarelo intenso. Olha o contorno rosado de seus seios e esquece tudo que deixou de lado para estar ali. Ela sorri. O sorriso que todo homem espera para saber que finalmente está feliz. O sorriso que quase nunca chega, e se afoga em frustração, em pornografia, em uma imaginação embaçada pelo vapor da água quente do chuveiro. “Já que agora você tem caixas de sobra, já que agora é o próprio Senhor das Caixas, eu também mereço um título, não acha?”. Disseram que era escapismo. Que era uma ilusão. Que era… errado. Longe da embriaguez da felicidade, amarrotado pela vida inteira que se interpôs entre ela e o céu que agora o cobria, talvez até concordasse. “Eu me proclamo, então, Pandora. Comporte-se, ou eu ABRO a minha caixa” A risada preenche o passado e o presente. Santos Passos espasma, trazido novamente a vida pelo voo noturno de um pássaro sem nome.

Pegaria o máximo de pacotes e latas que conseguisse, o suficiente para sumir uns dias, quem sabe acampar na floresta, ser tronco por um tempo. O muro baixo é decoração de um tempo esquecido pelo homem urbano, anterior às grades, aos cadeados, aos sonos conturbados pelos mínimos ruídos. Sobe sem dificuldade, permanecendo parado em seu topo, felino. Estaria a casa destrancada? Janelas abertas? E se ouvissem algo? E se fosse preso? Eles o encontrariam até lá, sabia. Não avança nem volta. Pura hesitação. Adrenalina varrendo a languidez do sono. Mas a fome não pede, ordena. O corpo pende, predatório, ao interior do terreno.

– É muita coragem de um cabra pensar em pular o muro da casa do Coronel.

Os olhos distantes, como o gato de Cheshire, flutuam entre os troncos, seguidos pelo igualmente arqueado sorriso. Quando, meses mais tarde, Santos Passos chorar a morte de Angélica no banheiro de um barco subindo o imponente Amazonas, essa será sua lembrança. O verdadeiro começo de um longo caminho.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 17

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A meia lua assomava no centro do céu. Brilhava escondida entre nuvens roxas. O jeito com que sorria causava certo desconforto a Santos Passos. Não se importava se amanhecia ou anoitecia. Mas não suportava aquela sensação. De ser perseguido. Observado. Ele não contava os dias desde a fuga do hotel. Entendia-se mais avesso aos olhares curiosos, e, na mesma medida, estava mais íntimo da estrada. Era sua melhor amiga. As costas doíam menos por dormir. Depois que tudo terminasse, pensava, poderia compor seu próprio Testamento em sua homenagem. “A fuga pela terra esquecida”, ou “O retorno ao paraíso perdido”. Entretanto, os olhares fustigavam como agulhas. Irritava. A sombra dos Onze ainda estava grudada na sola do seu sapato. Em cada esquina que virava, por cada carro que passava, sentia unhas raspando, subindo o calcanhar. No final da tarde, meteu-se no banheiro de um bar e abriu a sola por dentro do sapato. Não estava louco, afirmava. Mas tinha que ver. Ver se não enfiaram um daqueles rastreadores modernos. Arrebentou o couro em vão. Agora o calçado engolia as pedras no caminho, obrigando-o a parar constantemente para tirá-las do espaço entre os dedos. Mais olhares. Não conseguiria caminhar mais de um quilômetro.Precisava de um lugar seguro pra dormir. Às vezes tinha a impressão de ouvir um barulho gorgolejante de pigarro perseguindo-o. Igual ao que Ismael fazia para provocar. Ismael batia na porta. Dava para sentir o cheiro de cigarro entrando pela fresta. Santos Passos oferecia a mão, mas ele não cumprimentava. Sacava o certificado de recebimento. Santos assinava. Depois destacava o canhoto com o endereço para carregar o carro com a remessa de caixas. Mas isso fora há muito tempo. Há meses atrás. Não devia ter se metido com eles, resmungava tirando uma pedra do sapato. Os olhos pesavam e o corpo estava ficando dormente. Ainda tinha chance de chegar a algum lugar e roubar um pouco de comida. Adentrou uma área pouco movimentada.. Talvez um aglomerado de sítios, um ou outro casebre colonial protegido por muros baixos, alguns mais precários, ruínas de madeira e tijolos cercadas por arame farpado. Nada mais. Os pigarros ainda o perseguiam. Não haveria tempo. Escolheu a terceira residência. Uma casa grande, de fachada antiga, daquelas ornamentadas por santos em azulejo. Havia dois picapes, uma motocicleta e uma caminhonete próximos à porteira. Perfeito. Percorreu alguns metros pelo caminho de pedras que adentrava um bosque. Parou atrás de uma touceira densa que crescia num ajuntamento de salgueiros podres. Sentou-se num tronco morto sob as copas, e começou a contar os insetos que matava para se distrair. Esperaria ficar bem tarde. Não precisava olhar para o céu. Não queria encará-la nos olhos e ter que ver seu sorriso.

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 16

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ponho o telefone no gancho, tenho a sensação de que todos os olhos do mundo estão sobre mim, saio dali como um bicho escorraçado, eles podem voltar, me perseguir, me atormentar, mas não são capazes de saber o que está acontecendo

dentro da minha cabeça

uma caixa, meu Cássio

sem Pandora, mais fácil

meus passos, passos pra trás

dois passos, passo a mais

Rubem não poupa ninguém

Simeão cara de cão

Judá morrer ou matar

digressão sem direção

doze menos passos são onze

sangue, unhas, vidro estilhaçado

carteira perdida, acidente na estrada

hotelzinho de merda, acabado

blowing in the wind

Sun Tzu nunca foi à guerra

Marlene e eu fomos

Marlene e eu

não devia ter ligado pra ele, devia ter ligado pra ela, em que eu estava pensando quando fiz esta ligação? meu pensamentos equivocados embaralham minhas pernas, tropeço como se estivesse aprendendo a andar, mas eu continuo, continuo andando, preciso me afastar dali, eles não são capazes de saber o que está acontecendo dentro da minha cabeça e às vezes nem eu sou.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 14

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Para onde iria não é uma questão de trajeto pontual, antecipadamente programado, esta situação obriga uma fuga, pelo retrovisor ainda vê a merda do hotel, ainda vê aquele idiota do recepcionista gesticular alguma coisa, não voltaria, tentaria escapar, talvez não fosse inteligente o bastante para denunciá-lo, que o denunciasse então, tudo em si já era denúncia, esta caixa ao lado, este carro que emite sons inefáveis, gravíssimo erro de confiar naquele mecânico, o acelerador não o faz ir além, que sorte a existência de civilização poucos metros adiante, cidade do interior, larga o carro próximo a uma padaria, é obrigado a não deixar a caixa no banco do carona, bom dia senhor, uma jovem de cerca de dezenove anos, bonita, lábios avermelhados, sorriso encantador, me dá uma média, vocês têm queijo prato aí, sim senhor, MÉDIA COM QUEIJO PRATO, senta numa cadeira velha de madeira, uma mosca grudada na mesa sugando farelos de pão, ei por favor tem como limpar isso aqui, uma senhora obesa sai da cozinha armada de um pano de prato imundo e um borrifador, jatos sobre o espaço, algumas gotículas vão sobre a mão que segura a caixa, o pano desliza, a mosca pousa no ombro da mão que segura a caixa, vocês não têm nenhum inseticida não, a obesa não responde, um grunhido junto com um olhar questionador para o objeto que segura, ei isso não é da sua conta, então não têm nada para matar a mosca, tudo bem, o pedido demora meia hora, vão entrando um casal de idosos, um grupo de adolescentes uniformizados pegam biscoitos Trakinas, um deles encara Passos, ei moço que tanto o senhor segura aí, tá se tocando é, em seguida a jovem atendente traz a média com queijo prato se desculpando pelo atraso, houve um probleminha com o gás e a torradeira estava com mal contato, Passos esquece a existência do adolescente, sua atenção é toda no café, o pão não aparenta estar quente, a mosca pousa sobre ele, suas patas se esfregam num desejo incalculável, sugar, sugar, que merda maldita, a mão que segura a caixa instantaneamente se joga sobre o pão-mosca, foi mais rápida, que merda nem café mais a gente pode tomar em paz, essa imundície aqui, a jovem atendente aparenta preocupação, ainda não tinha pagado o pedido, caberia à obesa a obrigação, o casal de idosos se vira para Passos, a idosa se levanta da mesa carregando algo que parecia um cordão, meu amado tome esse tercinho, carregue com você, você está precisando orar, Passos pega o terço com a outra mão, enrola sobre a caixa, quem sabe isso lhe traria algum livramento, a obesa, agora consegue perceber como era gigante, uns dois metros talvez, o encara com a mão aberta, vê também um movimento estranho da jovem atendente, ei está ligando para quem, um som gutural da obesa o intimida, merda a porra da carteira, suas mãos vasculham os bolsos da calça, merda,

Gabriel Sant’Ana

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Caixas de sobra – Ep. 13

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“Filhos da puta”. Santos Passos caminha de um lado para o outro na recepção apertada. A cada três passos uma volta. O recepcionista tremulava atrás do balcão na busca pelo livro de hóspedes.

– Deve estar aqui em algum lugar… meu primo vive usando pra anotar recados, sabe?

Tudo vinha à cabeça de Santos Passos como uma descarga de merda. O velho da recepção, a foto, a história do setor administrativo, o sumiço das caixas. Depois de todos aqueles anos, da saída às pressas de São Paulo, da vida sem celular, sem emprego fixo, sem casamento no papel, o menino registrado somente no nome da mãe, depois de tudo, o haviam achado.

– Aqui! – o garoto puxa um caderno “10 matérias”, papel amarelado, capa com jovens brancos saltando de paraquedas – Não sei como isso pode ajudar a resolver o que houve com o seu carro… você acha que tem alguém conhecido seu aqui?

A lista era amadora. Anotações em garranchos, nomes sem sobrenome, nenhum documento anotado. Folheou com rapidez, buscando o dia anterior. A maior parte dos registros indicava putas: nomes genéricos dando entrada pela noite para sair de manhã cedo. Alguns tinham cara de road trip: cinco entradas seguidas, todas de nomes que ninguém usava há vinte anos atrás, tipo Theo e Enzo. “Filhos da puta”. Santos Passos para em um ponto da lista. Três entradas seguidas: Rubem, Simeão e Judá. “Três dos outros onze…”.

– O vigia do turno anterior está aqui há quanto tempo?

– Eu e meu primo fomos contratados juntos, há mais ou menos seis meses.

Santos Passos coça o pulso com força. Checa novamente o carro do outro lado da rua.

– Não! Um velho… 60, 70 anos, sei lá, de óculos… – a expressão do recepcionista pendula entre confusão e medo.

– Vai desculpar, mas não trabalha ninguém assim aqui não. Só sou eu, meu primo, o cozinheiro e a dona.

“Filhos da puta”. Santos Passos agarra o braço do garoto e dispara em direção ao segundo andar. A idade cobra seu preço. As pernas fraquejam entre os degraus. “Eles queriam que eu visse isso. Como me acharam? Quando? Que merda foi aquela no carro?” Por um momento tudo escurece. “O senhor está bem?”. Não responde. Não para. Arrasta-se até seu quarto.

Vinte anos antes, Santos Passos usa um terno demasiado curto e já desbotado. Está em um escritório alugado na Rua Augusta. Os outros onze conversam entre si animadamente. Santos Passos está tenso. Checa as centenas de caixas que ocupam quase a totalidade do espaço. Peso. Tamanho. Tenta sacudi-las. Nada. “O que tem dentro delas?”. Judá ri. Os outros dez o acompanham.

Vinte anos mais tarde Santos Passos está sentado na cama do hotel. Os lençóis, outrora branco-cloro, estavam coloridos dos tons entre o vermelho sangue e o marrom coágulo. As caixas, espalhadas sobre a cama, abertas, expunham um mosaico feito com as partes do corpo do que provavelmente era o primo do recepcionista. Ou talvez o cozinheiro. O garoto está de boca aberta. Parece gritar. Ninguém ouve. Nem mesmo Santos Passos. “Deixaram uma caixa fechada”. Põe-na debaixo do braço. Autômato, cruza corredor, escadas, recepção, estacionamento. “Eles me acharam”. Liga o carro. Coloca a caixa do banco do carona. “Filhos da puta”.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 12

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Passos girou o pescoço de volta para o carro e olhou a coisa nojenta espalhada no interior. Cenas de crime de seriado eram parecidas com aquilo, pensou. A mão que segurava a lanterna tremeu. Usou a outra para o recepcionista não perceber. Depois apontou a luz amarelada para o banco traseiro. A visão turvou-se como se vislumbrasse um cadáver. Deveria haver uma pilha de caixas ali. Estava acostumado a conferir o estofado abarrotado pelo retrovisor. O perímetro vazio sacudiu o fundo de sua mente. No espaço continha apenas pedaços de papelão e farelo de isopor.

– Acalma, senhor, – repetiu o recepcionista, pondo a mão no ombro trêmulo. – Vamos ligar pra polícia. Não devem ter ido muito longe.

O toque o fez se encolher. Notou a roupa amarrotada, os botões ajustados uma casa acima da camisa. Apontou a luz para o rosto do jovem.

– E que inferno você estava fazendo?

O rapaz protegeu os olhos, ajeitou o cinto e pôs uma parte da camisa para dentro da calça com a outra mão.

– Problemas na cozinha. Precisavam da mim lá e me ausentei, – mexeu timidamente o cabelo. – Seja lá quem tenha sido, não fez barulho. Eu teria ouvido.

Santos Passos voltou a lanterna para o fundo e continuou a avaliação da perda. Não haviam deixado uma caixa sequer. Já não tinha mais o relógio, agora as caixas. O que mais perderia? Coçou ao redor do pulso e sua respiração começou a acelerar.

– O senhor está bem? Quer que eu chame a polícia? – perguntou o rapaz.

Piscou os olhos. Estavam ardendo de tanto tempo abertos.

– Não precisa chamar ninguém – respondeu oco, e devolveu a lanterna jogando-a no peito do homem. – Só preciso de uma coisa. Preciso ver a lista de hóspedes.

– E o sangue no carro? Alguém pode ter sido assassinado.

Encarou-o com as pálpebras em fenda. Massageou o pulso sem se dar conta que relaxara um pouco, mas sentia os músculos da face tesos, duros como corda de forca. Estava velho, finalmente. Vivera demais para dar ouvidos àquelas divagações sobre fotos, relógios e caixas. Insatisfação juvenil e questionamentos existenciais, algo do eco do que os professores de escola resmungavam. Nunca entendeu exatamente o que queriam dizer, e menos ainda como ele poderia se ter inclinado a tais tolices. Tinha um problema, precisava resolver o problema, e não criar outro como o idiota pretendia ali. Olhou para as impressões de sangue no vidro. Os músculos da bochecha estavam duros feito casca de noz.

Entrou no carro e apanhou a agenda com a lista de endereços, cobranças e dívidas. Folheou até encontrar páginas em branco.

– Você vai me ajudar, – rangeu o maxilar apontando o indicador para o garoto, – você vai ligar pra todos os quartos, e vai ver eles um por um.

– Mas senh-

– Acho melhor a gente se entender logo, amigo. O gerente não vai gostar de saber que teve problemas com um cliente porque você estava na cozinha ao invés de estar no seu posto…

Jonatas T. Barbosa

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Caixas de sobra – Ep. 11

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caixas

entregas

caixas

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caixas

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não sabia que horas eram nem poderia saber, mas sentir o Cássio sem tê-lo no pulso era um aviso, dizendo pra mim que, mesmo que eu lutasse pra deixá-las pra trás, algumas coisas ainda permaneciam ali, agarrando meu braço, impedindo que eu avançasse, retardando meus passos, Passos sou eu, seria uma grande ironia se eu, tendo o nome que tenho, não conseguisse mais progredir, vesti a calça, a camisa, os sapatos, quem recebe um telefonema à essa hora da noite não pode agir como se nada estivesse acontecendo, eu não podia agir assim, sabia que algo acontecia, só não sabia o que era, fui enganado esse tempo todo, eu achando que caixa após caixa, entrega após entrega, meus passos estivessem me conduzindo pra frente, minha estupidez foi tão grande nesses anos todos que eu demorei a perceber que não era nada disso, não percebi que havia passado muito tempo e por causa disso o telefone tocou novamente e novamente o recepcionista me convocou, peguei a chave e saí.

caixas

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caixas

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caixas

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no saguão, quase nada do que eu ouvia fazia sentido, o recepcionista não quis explicar ou não sabia explicar, de onde eu estava, meu carro parecia do mesmo jeito, parado, estacionado, assim como eu, sem progredir, mas carros não conduzem, eles são conduzidos, que merda de vida era esta que eu não conduzia? que não me deixava dar mais um passo? eu estava andando pra trás sem ter a menor ideia disso, mas eu tinha que andar pra frente, sair do hotel e atravessar a rua, só assim eu pude ver o que tinha de errado com meu carro, o vidro do carona estava quebrado, com os estilhaços espalhados no asfalto e nenhum caco dentro do carro.

caixas

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caixas

entregas

caixas

entregam

sangue

pedi que me trouxesse uma lanterna porque aquilo precisava ser explicado, o foco de luz percorreu todo o interior do carro, revelando restos de unhas, fios de cabelo e sangue, eu olhei para o recepcionista, ele olhou pra mim, eu sabia o que ele esperava de mim mas, como ele, eu não sabia explicar o que estava acontecendo.

Luciano Cabral

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Caixas de sobra – Ep. 10

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– Estou delirando?

Eu digo em voz alta no chuveiro. Tudo o que eu queria, desde o acidente, desde os quilômetros perturbadores até a recepção desse hotel, era um banho quente de qualidade. Mas, por algum motivo, eu continuo sentindo a pulseira do velho Cássio no braço. Dizem que nosso cérebro se vicia nas coisas; ouvi dizer que pessoas que perderam membros do corpo ainda podem senti-lo muito tempo depois. Não importa. Eu sinto a água, sinto o calor. Agora, relaxado, percebo uma dor no ombro que antes não se manifestara. Fruto do acidente. Até a dor eu sinto com mais clareza. Vejo as cores melhor. Sinto prazer em respirar fundo. Antes, era como se todas essas coisas fossem condicionadas às caixas: ar dentro de caixas, dor sob o peso de caixas, cores em tom marrom. As caixas não estão mais aqui. Pela primeira vez, em muito tempo, eu percebo o mundo.

Depois de uma hora do banho, desligo e me seco. Todas as toalhas eram assim perfumadas? A comida, hoje, um simples pacote de tortilhas sabor queijo, me espera ali fora. Já imagino a intensidade do sabor. Toco o pulso, mas lembro-me de que o relógio não está lá. Sento, ligo a televisão, dou risadas com A Feiticeira.

– Esse programa ainda passa na TV? – digo em voz alta, pela segunda vez hoje.

Não me lembro de ter dado risadas tão sinceras alguma vez. Quando o programa termina, tão bobo, sinto vontade de assistir Chaves. Mudo os canais, passo por um canal esportivo, alguma notícia sobre atentado terrorista, um reprise de novela, mas não acho o Chaves. Pergunto-me que horas são, olho para o pulso, meu coração gela. Terceira vez hoje.

            Fecho os olhos e tento dormir. Sonho com a estrada, milhões e milhões de quilômetros, casas que passam como trovões. Então percebo que é como se eu a devorasse; o mundo mistura-se com meu corpo, e eu aprecio. Porém eu vejo, às minhas costas, longe como o diâmetro da Terra, uma silhueta. É meu filho. Ele chega em casa, dá um beijo na mãe e senta para jantar. Por mais que eu avance, ele está lá. Por mais que meus olhos estejam voltados para frente, eu vejo através de minha nuca, de montanhas, de cidades. Passos, você está brincando com algo sagrado.

Acordo com o telefone do hotel tocando.

– Boa noite, senhor Passos. – diz o recepcionista.

– Olha, eu já disse que você me confundiu com outra pessoa, nós nunca trabalhamos juntos…

– O pálio azul estacionado do outro lado da rua é seu?

Demoro um segundo para responder. Olho o pulso, e pela quarta vez percebo que não tem relógio.

– É sim, por quê?

– É melhor o senhor vir ver.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 08

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– O que é que tem nesse monte de caixa, aí, amigo?

O mecânico rodeia o carro, deslizando os dedos pela lataria avariada. Santos Passos responde no automático, sequer ouve sua própria voz. Sente a ausência do relógio no pulso, a sensação fantasmal da pulseira de plástico, o alarme ecoante na memória.

– Pra fazer a lataria e tudo mais, é trabalho pra mais de uma semana, amigão…

Algo mudou na estrada. O mundo foi substituído por um teatro caricato de si mesmo. O mecânico anda de um lado a outro tagarelando com uma boca de marionete, balançando toscamente seus braços e pernas de madeira. O céu, mais opaco que nunca, fundo tocável por trás das árvores intrigantemente uniformes de background genérico. Lembra de De volta para o futuro. Para viajar no tempo, era necessário acelerar a uma grande velocidade. Quando todo o público pensava que o acidente era iminente, Martin cruzava as teias de realidade em direção ao passado ou ao futuro.

– Agora se é só pra seguir caminho vai precisar dar um jeito no carburador, trocar uma das rodas da frente e verificar o óleo, até amanhã a gente resolve.

Algo mudou na estrada. O carro já está parado, mas Santos Passos continua acelerado. Seu coração roda a 200 km/h. Está na lanchonete do posto. Pela janela, o mecânico-marionete se enfia pelas entranhas do velho automóvel. O rádio canta Blowing in the wind entre chiados, enquanto o café desce quente por sua garganta. Uma mosca, único ser de fato vivo ali, cruza impune entre um caminhoneiro à beira da morte e seu flerte para a garçonete há pouco na vida.

– O senhor vai querer ketchup?

Santos Passos pergunta sobre o hotel mais próximo. “Lótus vermelha”. Três quilômetros à frente. Ao partir caminhando pela estrada, sente, mesmo sem olhar, que mecânico, caminhoneiro e garçonete se reúnem no pátio do posto para se despedir, como num fim de peça. O vento trafega pela via expressa e as caixas vão ficando pra trás. Pelo menos até a próxima manhã.

– Alô?

Sem o Cássio, o tempo, pouco a pouco, se desprende da mente, vai se tornando hábito pitoresco. Está deitado em uma cama redonda e vermelha, olhando para o mundo através do espelho do teto e o Santos Passos em tudo inverso que lá mora. Na TV, cientistas aventam a possibilidade da existência de aliens e há biscoito recheado no frigobar. A voz no outro lado do anacrônico fio é de quem acabou de acordar. Santos Passos dá bom dia.

– Pai?

É difícil explicar o que ele mesmo não entende. Precisar o momento exato de sua decisão ou seus motivos. Criar um discurso que não pareça tão ridiculamente teatral, artificioso. A própria voz do garoto, filtrada pelo fone de um milênio passado, soa a novela dos anos 80. É difícil não parecer mais um caso de abandono, uma fuga covarde ou qualquer outro clichê. Mas algo mudou na estrada. Pouco antes do acidente, o ponteiro do velocímetro tremendo, o vento sendo rasgado pelo metal. Santos Passos gritou pela primeira vez na vida. Não um grito instintivo, de medo. Mas um grito voluntário, despropositado, a simples afirmação de por primeira vez sentir o gosto da ausência de destino, de dever, de rotina. Santos Passos sentiu-se eclodir de uma caixa na qual havia entrado há muito tempo atrás. E o mundo fora dela era inteiramente novo e diferente.

– Avisa pra sua mãe que eu vou demorar a voltar…

Pedro Sasse

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