“Desculpa a mão”, por Lucas M. Carvalho

“A troca de bala não findava. Precisou recarregar de novo, o som rangente do ferro roçando, as cápsulas em encaixe. Ramón Silva, cinco metros à frente, parecia ter acertado um deles. Flores quis avançar, mas uma bala ou outra passaram ferozes, o barro do chão arrancado, grama pelo ar. Mais atrás, o uruguaio travou em medo, sem avançar nem recuar. Cunha, homem quieto, mas melhor atirador do bando, estava ferido no braço. Dois ou três chimangos caíram, talvez mortos, talvez se fingindo de morto – mas outros surgiam sem parar. Sem parar. Flores sentiu um aperto no peito e um amargor nos lábios quando percebeu que uma comitiva inteira saía do esconderijo nas árvores pro confronto.”

Abandando o tranquilo litoral de “A pedra da tristeza”, viajamos até o sul do país, em plena Revolução Federalista no fim do século XIX. Com uma narrativa capaz de nos imergir nas práticas e expressões típicas do local, Lucas faz sua homenagem ao regionalismo sulista que tantos frutos rendeu à nossa literatura. Penetre as trincheiras inimigas conosco:

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“A pedra da tristeza”, por Luciano Cabral

“foi quando a mãe percebeu que no lugar onde o filho sempre sentava pra esperar o pai, tinha uma pedra, a pedra tinha a forma e o tamanho do menino dela como quando ele sentava bem ali, ninguém conseguiu arrancar a pedra de lá, era pesada, teimosa demais, batizaram de pedra da tristeza”

Houve um tempo em que descobrir o Brasil, na literatura, era olhar pro interior, pra onde as marés cosmopolitas não alcançavam a alma nacional. Lar de brasileiro em estado bruto, que aprendeu com a própria terra o significado do mundo. O tempo passa e cada vez mais o concreto vaza pelas frestas pavimentadas do país, levando mais e mais capital pro interior, lavando de franquias e multinacionais a singularidade captada pelas mãos sedentas de um Graciliano Ramos, de um Guimarães Rosa. O Poligrafia, neste ciclo, resolve homenagear essa visão encantada de um país “pra dentro”, que talvez nunca tenha existido se não nas memórias e invenções de uns quantos sonhadores; resolve falar desse Brasil que se desequilibra no fio fino da realidade e tropeça no folclore; desse povo que, sem nem saber o tamanho do Brasil, o inventou. E se inventou. Para a abertura, nada melhor que uma história de pescadores. Como diz o ditado, confie desconfiando dessa narrativa sobre o mar e o homem, a natureza e o além.

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“Tentação”, por Luciano Cabral

“do lugar de onde eu tinha vindo, a temperatura não era como ali, nem a paisagem era tão bonita, por isso, eu me perdi em pensamentos, sentindo o vento, vendo aquilo tudo, era tão calmo e tão pacífico que eu peguei no sono ali mesmo, na grama”

Existe um conto japonês chamado “Dentro de um bosque”. Nele, um assassinato ocorre no bosque. Temos acesso apenas aos depoimentos. Todos contraditórios. Nenha prova, nenhum rastro, apenas vozes discordantes tensionando a realidade. Quando a verdade é completamente inacessível, o que resta? Muitas verdades ou nenhuma delas? Ou apenas escolhemos a narrativa mais confortável? Quem sabe deixamos que escolham uma delas para nós… “Tentação”, em poucas palavras, nos convida a refletir mesmo diante dos sólidos discursos da tradição ocidental…

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“Dupla Fenda”, por Lucas M. Carvalho

“Precisava decidir. Cabia a ele, o alfa, escolher se seguiriam para a terra verde ou se desceriam o rio. Em direção à terra verde poderiam desfrutar de animais e sombra. Pelo rio teriam água e peixes. Não sabia em qual dos dois haveria predadores. Não sabia em qual dos dois haveria bandos hostis. Neste momento, no instante imediato antes de tomar a decisão, cai o pano e a história termina”.

Um dos mais seduzentes poderes da histórias é a ideia da causalidade.  Ainda que hoje a disciplina venha mudando suas concepções, por muito tempo vimos o passado da civilização como uma narrativa bem encadeada, em que cada evento colaborou para a existência do seguinte, como uma grande trilha de peças de dominó. Mas, e se, de fato, toda nossa realidade dependesse de uma única decisão, de uma única bifurcação no caminho do homem certo no ponto certo da existência do universo? No conto de hoje, Lucas M. Carvalho explora as possibilidades da história da civilização, da história e do tempo.

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“Ainda não”, por Luciano Cabral

“(ele afasta a mão da prostituta mais uma vez) passei anos me tratando, um tempo depois, conheci Clarice, era escritora, de coração selvagem, muito inteligente, escrevia mal mas eu achava, eu achava que a gente podia se dar bem, a gente se dava bem, mas ela ficava olhando as estrelas à noite, dizia que estava esperando o filho voltar, que ele tinha fugido pra outro planeta, com medo dos baobás”.

Já ouvi dizer que toda prostituta precisa ter um quê de terapeuta. Na maré de fetiches sexuais sempre acaba entrando um caso de insegurança, uma alma solitária, alguém precisando de um abraço, gente buscando apenas um lugar pra não ser julgada. De fato, talvez sejam essas meninas que mais intimamente conheçam a alma humana, livre de todas suas barreiras, pura e profunda nudez. No conto de hoje, Luciano Cabral abre cortina dessa intimidade para revelar um caso de amor único: um homem e suas muitas amantes da papel.

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“Nunca se esqueça”, de Lucas M. Carvalho

A princípio, o tema Amor pode dar a impressão que o ciclo de contos será uma recorrência de relatos românticos, desses que nem os mais apaixonados amantes aguentam mais escutar. Uma de nossas premissas, contudo, é evitar o lugar-comum. Sendo assim, não espere, ao longo das próximas semanas, histórias convencionais de amor, pois ele surgirá onde menos se espera, das formas que menos se espera, com as resoluções que menos se esperam. É o que faz Lucas, ao começar o ciclo retratando o amor divino e o amor mortal numa releitura do Hino da Pérola, texto gnóstico do século  2º. Com ares de narrativa mítica, acompanhe a história de “Nunca se esqueça” tendo em mente que amor, ainda que universal, assume as mais distintas e peculiares expressões culturais.

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“Ovelhas elétricas”, por Luciano Cabral

“é possível notar alterações na cor da pele do rosto e do pescoço principalmente, o corpo humano também produz secreções, a mais importante a se imitar, porque mais visível, é o suor, que comprova o esforço físico dispensado ao ato, o suor é o elemento que atesta a veracidade da energia dispensada, a quantidade e facilidade com que é  produzido sofre variações mas deve-se fazer com que gotas escorram pelos poros para que o esforço seja considerado significativo”

Escrito por Philip K. Dick em 1968, Do Androids Dream of Electric Sheep? foi, sem dúvida, um marco para a ficção científica, sendo responsável por fornecer as bases do eterno Blade Runner. Em um mundo em que a tecnologia foi capaz de reproduzir cada detalhe do corpo e da pisque humana, ainda há uma fronteira entre homens e máquinas? Com o aumento exponencial do uso de IAs no dia-a-dia, o problema da consciência robótica e o abalo ontológico do homem está cada vez mais presente na ficção e nos debates filosóficos.  Bebendo dessas questões e em homenagem à obra de K. Dick, o poligrafia oferece hoje “Ovelhas elétricas”, de Luciano Cabral.

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“I.H.P.I.H.P”, por Gabriel Sant’Ana

“As atuais pesquisas do Instituto de Progressos Educativos determinam que sejam desenvolvidas competências cognitivas e socioemocionais, sendo necessária uma reformulação dos currículos, grades de horários, arquitetura físico-mental dos equipamentos escolares.

Fica determinado o fim do uso da palavra “escola”. Todos os espaços deverão ser responsáveis pelo desenvolvimento cognitivo e socioemocional dos cidadãos, de acordo com suas especificidades. ”

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As distopias, principalmente as clássicas, são caracterizadas por sociedades autoritárias, em que há um grande controle sobretudo da língua, e consequentemente do pensamento. A novilíngua para Orwell, a restrição à literatura em Huxley, qualquer expressão não ordenada logicamente em Zamyatin. Gabriel Sant’Ana, com grande apreço por uma literatura fragmentária, traz um recorte dessas regras por trás de uma sociedade regida por curiosos princípios. Dando ao leitor acesso apenas a uma pequena fresta desse mundo, cabe a nós o trabalho de recheá-lo, ou explorar sua, ainda que breve, complexa superfície.

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“Tesseract”, por Jonatas T. Barbosa

“Não consegue ver bem o próprio rosto. Respira fundo. Conduz a navalha, observando os borrões de pasta de dente. Encosta o fio à altura da garganta. Quando eleva o pulso, a lâmina escorrega. Ele ajustou mal o barbeador. A navalha está solta. Não sente dor a princípio. Mas se assusta quando põe o dedo e nota o fluido vermelho pingando no chão”.

O tesseracto, também conhecido como hiper cubo, é um polícoro. Isso significa que ele é um objeto tetradimensional. Da mesma forma que uma sucessão de quadrados perpendiculares é capaz de formar um cubo, uma série de cubos perpendiculares é capaz de formar um tesseracto.  Enquanto seres da terceira dimensão, não podemos mais que fingir que imaginamos um tesseracto, uma vez que sua real forma, disposta ordenadamente pela quarta dimensão, nos escapa à representação visual. Resistindo, assim, ao sensível, o tessaracto apenas pode ser capturado de duas formas: através da rede rígida da matemática ou da movediça areia da literatura. Uma vez que nos foge o domínio das regras geométricas, oferecemos aos leitores, hoje, um hiper cubo de letras.

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