“Jade não gosta de mentiras”, por Lucas M. Carvalho

“- Desde que larguei Hogwarts, no sexto ano, tenho dedicado minha existência a aplicar golpes. Digamos que eu tenha descoberto um talento peculiar para essas coisas. Atuei durante quase vinte anos. Juntei enormes fortunas, mas perdi tantas quantas, porque quando se escolhe essa vida, não é incomum nos metermos em terríveis enrascadas… Há quinze anos resolvi me concentrar num golpe derradeiro antes de minha aposentadoria.

– E esse golpe… seria contra mim?

– Sim”

Em um novo conto do ciclo Releituras, Lucas M. Carvalho resolve arriscar-se por um dos mais famosos becos da literatura fantástica contemporânea, mostrando um pouco do lado obscuro do mundo bruxo. O que aconteceria se os olhos dos leitores se afastassem dos prodigiosos heróis e observassem o submundo da sociedade de Potter? Como faz um golpista para sobreviver a feitiços de observação e poções da verdade?Em homenagem a saga que nos encantou quando menores e ainda hoje conquista as novas gerações, Poligrafia apresenta a intrigante aventura de “Jade não gosta de mentiras”.

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Caixas de Sobra – Season Finale

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No auditório, ainda no primeiro piso, Passos viu de soslaio a palestra ministrada pelo vendedor platinum A para novos integrantes. O esquema em pirâmide, produtos cosméticos, eletrônicos, dietéticos. Programas de fidelidade, acúmulo de pontos. O palestrante contava como quadruplicou o salário em dez anos. A acústica do prédio era tal que aqueles que andassem nas lojas e escritórios do térreo podiam ouvir cada palavra proferida no auditório, mas sem que chegasse a ser incômodo. Ali havia duas agências dos maiores bancos do país. Um escritório de advocacia, um banco menor especializado em investimentos em ativos. No segundo andar, de fácil acesso por uma escadaria espaçosa ou pelo elevador panorâmico, havia o restaurante, o escritório do plano de saúde e a gigantesca academia para funcionários.

Frente aos quatro elevadores com ascensoristas, Passos, apesar de bem escoltado, fez sozinho o trajeto que bem conhecia. Apenas o terceiro elevador subiria para além do sétimo andar – mas esse nunca vinha ao térreo e não podia ser chamado, mas descia sozinho dependendo dos rostos reconhecidos nas câmeras. Quando entraram no espaço espelhado, Issacar apertou as mãos do funcionário e anunciou:

– Benjamin, de São Paulo. O Patriarca deseja vê-lo.

Era no oitavo andar. Enquanto subiam, o próprio ascensorista os revistava com detector de metais. Quando o elevador parou, ainda levou alguns minutos para que a porta fosse liberada.

– Ben, quantas vezes viu o Patriarca?

– Apenas uma.

– Depois de hoje, terá visto mais que eu.

O cheiro leve de incenso verbena expandia-se pelo espaço amplo e naturalmente iluminado. Issacar desapareceu no elevador, e Passos se viu sozinho com o segurança que vestia terno cinza Dolce & Gabbana, e lia A Metamorfose.

– O Patriarca o aguarda na próxima sala.

O apartamento gigantesco ocupava todo o oitavo andar. As paredes externas eram de vidro, a decoração moderna e sutil, móveis arredondados, tudo branco, tapetes redondos felpudos. O som de uma pequena fonte esculpida trazia tranquilidade ao local. Passos sentia dor ao caminhar. O salão seguinte, com uma piscina interna ao redor de uma ilhota com sofás e uma mesa de centro, fazia frente a uma cozinha americana.

– Fique à vontade, Benjamin. Ou prefere que o chame, só aqui, de Passos?

A última vez que a vira, tinha cerca de setenta anos. Não parecia ter mudado, apesar de estar agora com oitenta, talvez oitenta e dois. Ela estava elegante, os cabelos brancos cortados em chanel, joias sutis. Trazia do bar uma bandeja, que repousou na mesa de centro com um bule e duas xícaras de porcelana chinesa. Convidou Passos a se sentar, e bebericou o chá.

– Tenho um presente para você.

Na mesa, ao lado de um vaso com tulipas, havia uma caixinha preta. Quando abriu, Passos viu um relógio Cássio novo.

– Não é das melhores marcas. Vamos falar do seu trabalho inacabado?

A tranquilidade do Patriarca o deixou desconcertado. O clima era perfeito, o ar condicionado, o aroma, o barulho de água.

– Símbolos. Quanto mais velhos ficamos, mais eles nos fascinam. Lamento que tenha deixado Pandora ver o conteúdo da caixa. Sabe o que deve fazer.

– Por que vocês mesmos não a matam?

– Porque você ainda está dentro. Quando se sobe além de certo ponto, não há mais descida. E você continuou subindo. E continuou. O mal entre nós precisa ser purgado, e neste caso precisa ser pelas suas mãos. – bebericou o chá – Quando pediu para falar comigo, já deveria saber que não negociaria, muito menos ditaria as regras. Oh, Benjamin, como eu te amo.

Apesar do ar condicionado, Passos começou a suar.

– É a última proposta? – perguntou.

– Não é proposta. É uma designação. Não se nega uma designação.

Passos devaneou com o olhar fixo na água que lhes rodeava.

– Eu… faço.

– Servo bom e fiel.- ela sorriu – Manaus. Na saída você receberá a passagem e o voucher para sete dias no melhor hotel. Quanto ao resto, improvise. Não vai beber seu chá?

Passos tocou os lábios no líquido quente. Chá inglês de camomila, mel e baunilha. Quando se levantou para sair, viu, sobre uma mesa de vidro num canto, uma caixa. Uma caixa daquelas. O formato e peso que bem conhecia.

Teve calafrios.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 37

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São Paulo surgiu como uma nuvem confusa. Lembrança. Tráfego. Luzes borrando o céu cinza. Do povoado à mata, da mata à capital das fachadas de vidro. Concreto. Buzinas. Entre a Ipiranga e a Avenida São João apenas as memórias dolorosas dos sorrisos dela. Santos Passos tentava se acomodar no sedan preto que substituíra as motos enquanto o passado arranhava as grades de sua mente.

Naquela noite ela era um cervo entre a folhagem de outono. Em suas mãos, maleta pequena, das que indicam volta rápida ou nova vida. A voz mecânica do aeroporto indicava voo pra Manaus. “Mas lá dentro só tinha…”. Os dedos de Santos Passos selaram os lábios, sua pele estremeceu diante do tato que se perderia entre quilômetros de um Brasil eterno para todos os lados. O destino era o Norte. A última barreira contra a civilização. Entre as esquinas de cimento e luz, toda sombra era um braço dos onze tateando por Pandora, pela responsável por toda aquela ruína. O Norte a protegeria, entre seus caudalosos cachos de rio, dentro de seu cavernoso estômago de madeira e mato. “Eu te busco quando isso tudo acabar. É questão de meses. Eu preciso conversar com eles. Quitar essa merda dessa dívida. Eu só preciso de mais alguns compradores. Ouvi dizer que a baixada fluminense é um bom lugar pra encontrar o tipo de gente que eu preciso…”. O cervo parte para a impenetrabilidade da selva. Só seu aroma perdura no saguão de embarque. “Mas lá dentro só tinha…”.

“Vem pro Rio, Santos, é a melhor opção agora. Eu consigo algo pra você… Você fica com algumas das minhas caixas em troca. Enquanto você continuar mandando dinheiro, eles não vão gastar muito tempo correndo atrás disso. Talvez até esqueçam dela. Chegando na rodoviária liga pra minha prima Marlene, ela te abriga uns dias”. Santos Passos sente a chuva no rosto ao embarcar na rodoviária Tietê. Santos Passos sente o Sol lamber seu rosto ao desembarcar na rodoviária Novo Rio. Nova vida. Santos Passos bebe cerveja no sítio de Judas em Xerém. “Você acha que os outros onze do Rio não vão ficar sabendo que você me ajudou a sumir de São Paulo?”. Judas ri. Parece que sob a sombra da jaqueira o mundo é mais simples.

Dez anos de uma paz pastosa. Dez anos de calor carioca cozinhando a alma. Dez anos de total silêncio na floresta. O tempo é longo. O sentimento é úmido, mofa com o tempo. Santos Passos se acostuma. Cochila no carro desgovernado de sua existência. Esquece dela. Do passado. Até que um despertador toca num restaurante qualquer da estrada. E as caixas, de súbito, parecem pesadas demais.

“Acorda, Ben. Seu problema é passar tempo demais dentro da sua cabeça. Aí dentro não tem muita coisa que preste. Relaxa que a gente costura sua amiga caipira. Vai lá ter a conversa que você tanto pediu. E aproveita, pode ser sua última…”. Desperta do transe diante do local que deu início a tudo. Atravessa o saguão da empresa. Piso, vidros, funcionários. Tudo são tentáculos de um passado que tenta arrastá-lo para dez anos atrás.

Pedro Sasse

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Caixas de Sobra – Ep. 36

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Na garupa da moto, meu corpo vai com os Onze, mas minha mente não obedece, vai contra eles, vai pra trás, pro passado, vinte anos, eu me pergunto quanto é o bastante? quem saberia responder esta pergunta neste mundo de merda e de números em que se sobrevive? em que minha importância era medida por fileiras de dígitos, de sorrisos por dinheiro, de gorjetas generosas, não aguentava mais aquilo, eu mesmo havia aberto a caixa, mas não podia arcar com isso, pôr a culpa em Pandora era bem mais fácil, sabia dos riscos, sabia bem o que era estar entre os Onze com uma taurus engatilhada na direção da própria testa, mas não tive coragem, Marlene cansou de perguntar de onde vinha o dinheiro, eu e ela sabíamos que caixas não podiam ser tão lucrativas, fosse o tamanho que fosse, que falta que meu filho faz agora, queria abraçá-lo como nunca fiz, usar as palavras leves que nunca usei, livrar-me dessas caixas e correr ao encontro dele como nunca corri, Brasil, Colômbia, Venezuela, Chile, Bolívia, Guiana, Argentina, México, Portugal, Espanha e eles queriam me mandar pra Angola, mas dizer não é assinar uma sentença, é fácil abrir a caixa de Pandora mas é doloroso fechá-la, a corporação era maior do que eu imaginava, onze é só um número dentro muitos outros, enquanto houver quem abra a porta pra receber as entregas, a corporação continuará crescendo, Angélica leva a mão ao abdômen toda vez que a moto trepida, ela é mais forte do que parece, seu ferimento tem o tamanho da minha ganância e eu quem deveria ter levado o tiro, não ela, mas ainda não acabou, nem pra ela e nem pra mim, consigo enxergar uma luz no fim da estrada, a mesma que deixamos pra trás, ironicamente, percebo que seria melhor ter continuado na completa escuridão.

Luciano Cabral

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Caixas de Sobra – Ep. 35

  1. [Ainda não leu os episódios anteriores? Clique aqui]

As luzes de onze lanternas oscilantes não estavam na mata, mas impressas em sua vista. Os calafrios talvez acusassem uma queda na pressão. A dor na palma da mão era grave, pulsando junto com a vida enraizada naquela terra, junto com a dor de Angélica.

– Quantos estão aqui? Todos?

– Você sabe que não.

– Pensei ter visto…

Angélica cai. Passos não tem vontade de socorrê-la, mas de cair junto. Lembrou-se do dia em que jurou, olhando o registro de Simeão, que ele nunca lhe poria as mãos vivo. Por muitos anos carregou uma Taurus 85S .38 milímetros com uma única bala na cintura. Sentia que este era seu maior segredo, confidenciado apenas àquele projétil de liga de chumbo. Sentia que, se houvessem outros, o poder do segredo seria diluído. A bala não era para Simeão, era para ele próprio, um último deboche à corporação. Porém, um dia, há muitos anos, pouco antes do casamento, lançou a arma ao mar.

– Porque as coisas, na vida real, não são tão simples…

Ajudou Angélica a levantar. Ela soluçava.

– Quem são eles, Passos?

– Me perdoa, meu anjo. Me perdoa.

O sangue esfriando, a dor aumenta, a escuridão parece mais terrível. Lembrou-se de que alguém da comunidade, certa vez, comentou que essas florestas são infestadas de cobras. Logo chegaram à trilha mais aberta, e viram, ao lado duma moto tombada, a figura estática como a silhueta do ceifador. Issacar ou Zebulom?

– Ele quer negociar. – disse Simeão.

– Não sabia que negociávamos. Você nos decepcionou, Benjamin.

Passos sentiu um fraquejar, quase implorou, mas cerrou os dentes de raiva e não baixou a cabeça. Agora, mais do que nunca via os mínimos detalhes da bela taurus: o tambor prateado, o gatilho, o punho em polímero. A corrosão implacável da água.

– Suba na moto comigo. Ela vai com Simeão.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de Sobra – Ep. 29

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Passado e presente se confundiam em um espiral de vozes e imagens. A fogueira e cantoria da vila. O dia das crianças no shopping. A primeira entrega. Pandora e sua mania de conversas com os personagens da TV. Os pedaços de corpo no hotel. Os gemidos abafados atrás da porta. O jagunço sem fôlego que cruza a entrada correndo.

– Acertaram o Das Dores lá perto do riacho, chefe. Ou tem milico atrás do equipamento ou é o tal delegado que tá no pé do Caixa.

A tropa, como esteira de produção, põe-se em marcha: embala, guarda, arma, veste, vigia. Na coreografia precisa da empiria, apenas o líder mantém-se estático. Seus olhos captam cada tremor na carne de um Santos Passos em desespero contido.

– Ainda estou esperando uma história, senhor Caixa. Os homens estão subindo e vamos você e eu pro inferno juntos se ela demorar.

Angélica tenta falar. É dissuadida pela sutil tensão no dedo do gatilho. Do lado de fora, os pássaros noturnos alertam no revoar de suas asas o avanço de corpos estranhos arrastando-se pela sombra.

– Você vai confiar em mim porque eu estou desesperadamente mais fodido que você… chefe.

A fala de Passos é puro reflexo medular. Uma nascente de palavras surge em sua boca, longe de qualquer reflexão prévia. Apenas descobre o que fala quando ouve a voz distante. Memória e pensamento, agora, dão lugar a um chiado agudo que se sobrepõe a todos os sentidos.

– Você vai confiar em mim porque a última coisa que eu preciso é de mais gente atrás de mim. Quem tá subindo não é a polícia, nem o exército, nem nenhuma força com que vocês estão acostumados a lidar. Estou tentando avisar desde que você chegou. Os onze estão vindo pra recuperar o décimo segundo. É possível sentir na tensão da mata. Eu não estou fugindo da polícia por medo de ser preso, você entende? A prisão seria um lugar de paz. De descanso. Mas quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em me fazer acordar com doze furos nas costas no pátio de uma penitenciária. Quem está atrás de mim não encontraria dificuldade em invadir uma área tomada por forças armadas nem em mandar pelos ares esse barraco. Eles não estão interessados em dinheiro, nem poder, nem prestígio, nem sexo. É uma ideia. Inabalável. Incansável. Me perseguindo em cada pesadelo, atropelando essa realidade de papelão em que vocês vivem. Foi o que fizeram no hotel. E antes disso em São Paulo, quando ela abriu a… É por isso que você vai confiar em mim. Você vai querer me lançar como um pedaço de carne quando os cachorros avançarem raivosos na sua direção. Você vai querer que eu seja um problema distante quando eles chegarem aqui.

A arma passa da mesa para o coldre. Os olhos, antes focos fixos, são agora pequenas redes tentando captar no ar o perigo que pressentem. Com certa resistência, o dito chefe estende uma maleta metálica para Angélica.

– Cachorro louco esse aí. Tenho certeza que vai se dar bem com o Pablo.

Tiros ao longe indicam a hora de partir.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 25

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O chefe não chega. O sol se esgueira por traz da folhagem densa, deixando raios esparsos serpenteando pelo chão. As aves de canto trocam turno com as de rapina e o assobio relaxante do vento se enche de frio. Chegar. Entregar. Sair. A quebra de planos era uma quebra na própria espinha de Santos Passos. Escorre pela cadeira distraindo-se no ir e vir do grupo armado. Nem um único som de Angélica. Está em sua pose de bicho noturno, toda olhos brilhando na escuridão, encurvada, como se a qualquer momento fosse rasgar a jugular de qualquer coisa que cruzasse o seu caminho. Santos e ela se entendiam melhor assim. No mesmo silêncio que se encontraram, há uma vida atrás, no muro do Coronel. E se nunca houvessem se encontrado? Visualiza sua invasão mal sucedida, um tiro na perna. A chegada dos policiais. Uma prisão em delegacia de interior.  A culpa dos assassinatos no hotel. Televisão. Família. Julgamento. Presídio dos grandes.

O pensamento inunda-se de um ruído que não tarda em transbordar para a realidade. Um grito abafado. Lamurioso, mas ritmado. As madeiras rangem. Angélica vira o rosto para a janela, encostando a testa no vidro empoeirado. As mãos fechadas e trêmulas. Só uma vez Santos Passos a viu daquela forma. Era fim de tarde e a comunidade perdia-se em risos e copos de cachaça em volta da fogueira-de-espantar-muriçoca. Dona Tereza cantava uma modinha seguida de palma e voz pelos moradores mais antigos. A cantoria, cheia de uma energia ancestral, de uma beleza bruta, contagiava os mais calados, como Paulo Gago e Marlon. Angélica, sombra e fogo, não dança, mas fica imóvel em frente à fogueira, farejando a noite e o passado. Santos Passos não percebe exatamente quando a festa acaba. A filha do Mestre Matias chora. Os homens discutem. Os velhos contemplam indiferentes os redemoinhos mínimos do rio da vida. Mas Angélica nasceu com o sangue de onça do mato. Rasga a noite em busca do culpado. “Foi à força”. “E o que ela tava fazendo de noite sozinha?”. “É caso de polícia”. “Isso dá morte”. Santos Passos segue de longe, sem interferir na caçada. Terminam atrás da vendinha. É um dos moleques de Pablo. Está ainda sem camisa. Sorriso e cigarro. Ela, mãos trêmulas. Segura-o como se fosse uma galinha de granja, mãos firmes no pescoço, cabeça contra o chão. Não há um ódio formulado em palavras, apenas a respiração forte e as involuntárias contrações no rosto iluminado pela lua. O vermelho mancha o quadro monocromático enquanto o facão passa uma e outra vez pela carne flácida. O som é como uma criança pisando numa poça de lama num dia de chuva.

A porta do único quarto do barraco se abre. Um dos armados sai decorado por um sorriso embaçado de degradação. Outro entra. E o ritual de grunhidos filtrados por pano de mordaça se reinicia. Nem Angélica ousa pará-los. O miojo esfria na mesa. E o chefe não chega.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 23

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São 13 horas do sacro Domingo. Santos Passos está ajoelhado ao Sol. A discussão ocorre aos sussurros, eclodindo, vez ou outra, um princípio de grito rapidamente abafado pelo desejo de sigilo. A grama ressecada arranha seu joelho. Mosquitos pousam e partem de seu rosto petrificado. Dez horas antes está sentando na cadeira de vime do que aprendeu a chamar lar. Olha Angélica. “Preparado? Um, dois, três e…” afunda a cabeça na piscina da casa de Bacaxá. Tem doze anos. A prima o beija no fundo da água. O mundo inteiro está longe. A escola. O padrasto. As brincadeiras de mau gosto de Lelé. Os lábios ficam unidos em perfeita harmonia. Quer estar ali pra sempre. Mas o ar está acabando. Sabe que a qualquer momento terá que desistir daquele momento e voltar à superfície. Mas pensar nisso é gastar o prazer do beijo. Não quer pensar. Mas pensa.

São três da manhã. Angélica é um tronco de árvore no meio da floresta. Plácida. Firme. Tênue. A comunidade inteira está em silêncio. O mesmo silêncio do fundo da piscina. Tudo ali está submerso. O cheiro dela. O café. O trabalho na obra. Mas o ar está acabando. São nove da manhã quando acorda. É domingo e olha para o teto e suas constelações de buracos e rachaduras. Vê Aquarius próximo a uma nebulosa de mofo. “Eu perguntei tanto ontem da caixa não foi por mim não que eu sou fuxiqueira… mas tem um delegado lá no asfalto que é. Vem perguntando muito sobre o Homem das Caixas, como o jornal tá chamando. Ele mostrou até a notícia…”. O ar está quase no fim. Santos Passos sente seu pulmão murchando. O desespero vazando das frestas da consciência. O Sol paira no centro do céu quando partem para ver Pablo. “Ele não vai querer você aqui, com as crianças e… tudo mais. Mas ele vai ajudar porque ele ajuda quem é da comunidade. Mas tem que confiar. Você vai ter medo, mas tem que confiar”.

O gosto de cinzas na mordaça aguça peculiarmente seu paladar. Dá fome. As formigas escalam as coxas, desbravando um sertão púbico. A última bolha escapa da fusão das bocas. Seguram-se pelas mãos. Tudo é comunicado ali. Sabem que é preciso emergir. Passa um quarto de hora ajoelhado até tirarem a venda. Demora a se acostumar com a luz. “Compañero… tu sabes que no quiero tu mal, pero tampouco puedo dejar que la policia venga hasta acá…”. Santos Passos se vê num mar de estrelas verdes. Sentinelas passeiam entre a folhagem, bonés e panos no rosto, ak47 a tiracolo. “Pero me hán dicho que te gustan las cajas, no? Pues vás a dar um paseo por el bosque hasta que la policia se parta y aprovechas para llevarme una caja a un compañero, si, sr. Caja?”. Angélica repousa a mão em seu ombro. 14 horas está em pé. Uma mochila militar está presa às suas costas, a caixa, em sua mão. Algumas lavadeiras rasgam o ar em voo rasante. “Angélica, coge el camino de siempre y te quedas em el abrigo hasta llegaren los compañeros. Volveis em unos dias com el mio que las cosas deben estar mas calmas, por acá…”.

Santos Passos entra na sombra úmida da floresta. Angélica, predadora, caminha adiante de olhos atentos. Anos antes, ele a prima se olham por última vez através da ilusão ondulante das águas. E mergulham novamente na realidade.

Pedro Sasse

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Caixas de sobra – Ep. 20

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– Não é assim que se vira a massa, seu Passos.

A cada vez que Matias me chama pelo nome, me amaldiçoo. Por que não fui inventar uma desgraça de nome falso? Coisas agora tão óbvias, mas que antes não passaram pela minha cabeça. Coisas que me fazem entender os grandes erros da humanidade. Guerras. Holocausto. Viver não é simples, não são decisões tomadas na frente de uma máquina de escrever.

– Vai deixar secar a massa, seu Passos!

Ele gritou. Eu imagino se alguém neste estado não ouviu. Meus olhos giram ao redor em pavor, acusando culpa, mas uma culpa que ninguém percebe, pois, aqui, todos são igualmente culpados.

– Matias, eu não sirvo pra servente.

– Pelo menos você não falta. Os moleques da Rafaela cagam tudo e ainda nem aparecem na hora do serviço.

Vinte e cinto reais no fim do dia. Volto para a casa da Angélica, suado, as roupas são fiapos de indigente. Cumprimento o Marlon, ou talvez o Diogo, nunca lembro quem é quem. O menorzinho é Levi. Nunca consigo olhar nos olhos dele. Angélica pede pra eu descer e comprar um macarrão porque a água já está fervendo. É um fim agradável de tarde, ao longo de muitas tardes agradáveis, como jamais pensei ser possível.

– Faz mágica, tio?

Ponho uma pedrinha na junta do cotovelo do menino e a faço aparecer no outro braço.

– Me ensina?

– Só se você for na venda pra mim, que eu tô cansado. Traz um macarrão.

Deito no canto que me foi preparado. Angélica assiste TV e faz as unhas dos pés.

– Me diz uma coisa, Passos. O que que tu fazia de trabalho?

– Eu? Era vendedor.

– E o que tu vendia?

Abro boca despretensiosamente:

– Era um…

No bolso, um papel manchado. Parece ser o que sobrou do velho “A Arte da Guerra”. Angélica olha para mim e espera a resposta. Eu apenas sorrio.

Lucas M. Carvalho

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Caixas de sobra – Ep. 19

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O sussurro impeditivo o afeta, aquela tonalidade feminina, de leveza agressiva, o faz cair em sua incapacidade, não pula o muro, Abrão, não! Vem comigo, melhor por aqui. Ser guiado. Passos segue. Angélica. Haveria de esquecer os dias passados por um tempo… O incidente. A falta de identidade. Passos prossegue num caminho tortuoso de velhas árvores de raízes aparentes, temeroso, como confiar nela, isso não era questão que lhe vinha à cabeça, apenas ela ter lhe indicado o perigo do pulo, quem sabe não perderia uma perna, ou braços pelo ataque dos cães treinados do coronel, quem sabe uma bala certeira na cabeça. Você deve estar muito perdido. Quando chegarmos, te deixo descansar. Pela manhã te apresento ao pessoal. Como se chama. Santos Passos. Ironia.

Chegam. Muros de pichações, abreviaturas, nomes, Samuca Saudades eternas. Dois homens, seguidos de três crianças, armados, se aproximam. Tá comigo. Olhares de cima abaixo sobre Passos.

Becos estreitos. Casas de vários tipos, de tijolos ou papelão, os tamanhos variam conforme o tamanho dos familiares, uma das regras era não exceder seis crianças. Caminhos que não seguem o trajeto das réguas com que as crianças aprendem a contar os números com Seu Afonso, professor de matemática aposentado, morador da casa amarela à Rua G. Santos Passos aprende, mesmo com fome e sono.

Não repara, é uma casa humilde. Pode usar o banheiro. Só não esvazia o balde d’água. Vou preparar um canto pra você deitar. E pega alguns panos velhos, toalhas que não servem para enxugar.

Finalmente deita.

Gabriel Sant’Ana

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