“Ainda não”, por Luciano Cabral

“(ele afasta a mão da prostituta mais uma vez) passei anos me tratando, um tempo depois, conheci Clarice, era escritora, de coração selvagem, muito inteligente, escrevia mal mas eu achava, eu achava que a gente podia se dar bem, a gente se dava bem, mas ela ficava olhando as estrelas à noite, dizia que estava esperando o filho voltar, que ele tinha fugido pra outro planeta, com medo dos baobás”.

Já ouvi dizer que toda prostituta precisa ter um quê de terapeuta. Na maré de fetiches sexuais sempre acaba entrando um caso de insegurança, uma alma solitária, alguém precisando de um abraço, gente buscando apenas um lugar pra não ser julgada. De fato, talvez sejam essas meninas que mais intimamente conheçam a alma humana, livre de todas suas barreiras, pura e profunda nudez. No conto de hoje, Luciano Cabral abre cortina dessa intimidade para revelar um caso de amor único: um homem e suas muitas amantes da papel.

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Mais do autor

Ramón, ou ilustração a “Dos viejos comiendo sopa”, de Goya

“Sufoca. Calor de florestas equatoriais. A luz, não se sabe bem por onde sai. É brilho cansado e amarelado largando-se lânguido. Desistiu, de certo, de qualquer fuga. Há o tinir constante da colher no pote: metal, barro e eco gasto de cotidiano, memória, mas ação. Solta – o outro – palavras escassas a Ramón. Ramón, que ignora o mundo. Ramón, que deixa o repousar da mosca longa sob a ponta da pouca cabeça. Apenas Ramón e o resto de sopa.”

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